Primeira caçada, última chance, anuncia o cartaz. Um novo, e nono, Predator, o terceiro filme assinado por Dan Trachtenberg, que tem conseguido, a cada capítulo, abordar a “criatura” num contexto renovado. Assim, depois de Prey (2022) e Predator: Killer of Killers (2025), ambos estreando directamente em streaming, Badlands procura… aprofundar psicologicamente aquele monstro, dando-nos a conhecer o seu planeta e a sua cultura. Dek, um jovem Yautja exilado do seu clã, despenha-se num planeta hostil e terá de provar que é digno da sua linhagem. David Bernardino e Miguel Allen assinam as críticas.
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Numa era em que os filmes de super-heróis e os efeitos especiais gerados por computador se tornaram algo tão enfadonho, Predator: Badlands acaba por ser, mais ou menos, tudo isso virado do avesso. Depois de décadas a ver o Predador como um vilão assassino implacável, é inevitável que ter um jovem Predador como protagonista, com sentimentos, daddy issues e expulso da sua tribo por fraqueza, pareça algo verdadeiramente absurdo. Curiosamente, o filme parece bastante consciente da sua própria parvoíce, com uma narrativa linear e uma estética de videojogo que lhe assentam na perfeição. A personagem principal tem até um parceiro que fala e manda piadas: a androide sem pernas da Weyland-Yutani (num cruzamento com o universo de Alien) interpretada por Elle Fanning. Enviado para um planeta inóspito (e muito de videojogo) que nos recorda a estética de After Earth de Shyamalan, onde tudo parece querer matar o protagonista, desenvolve-se uma dinâmica de aventura sci-fi divertida, com criaturas e ambientes criativos, ambiguidade moral e emoções que nem o próprio argumento — e, por isso, as personagens — parecem levar a sério. Com cenas de ação fluídas, o espetáculo cinematográfico de Predator: Badlands, à superfície com um péssimo aspecto, é ironicamente coeso e equilibrado e, por muito que se queira falar mal dele pela sua chachada, a verdade é que a dupla de protagonistas (à qual se junta mais tarde uma querida terceira criatura) tem mais coração do que muitos filmes que tanto se esforçam por tê-lo.
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David Bernardino

Uma cinematografia gamer, exercício globalemente eficaz enquanto all kills, no frills. Badlands é, por isso, sempre menos interessante quando tenta funcionar como um “verdadeiro” filme. Trachtenberg revela-se perfeitamente incapaz de lidar com a menor das complexidades narrativas (algo que não lhe é exactamente novo), tanto na estrutura global da trama como na lógica interna a cada cena. As sequências de acção, que ocupam a parte maior da duração do filme, são simultaneamente empolgantes e difíceis de seguir, e a total ausência de nuance acaba por conferir progressivamente, ao conjunto, um efeito algo entorpecedor. Subsiste aqui, também, uma terrivel ausência de escala quanto às coisas do filme, outro sintoma da profunda (e tão evidente) iliteracia cinematográfica do realizador. E, no entanto, podemos arriscar que Badlands funciona, porque… nos diverte. Se qualquer ímpeto emocional do filme se revela perfeitamente risível (nem as próprias personagens parecem acreditar no sentimento que os seus diálogos procuram veicular), a ideia de um Predator maori com daddy issues é, talvez, tão absurda quanto positivamente intrigante. E se o filme resvala para esse terreno, sempre tão incerto, do “trauma”, a construção daquele odd bunch interespacial não deixa de ter a sua graça. Quem diria? O monstro precisa mesmo de amigos.
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Miguel Allen



