Críticas a Pillion, de Harry Lighton

EquipaMarço 19, 2026

Com selo da A24, Pillion é a primeira longa metragem de Harry Lighton, protagonizada por Alexander Skarsgård e Harry Melling. Ambos os actores interpretam, respectivamente, o dominador e o submisso numa relação BDSM. O primeiro um motard enigmático e impossivelmente bonito, e o segundo um tímido homem gay, que vive em casa dos pais e tem como trabalho passar multas de estacionamento. A relação entre ambos seguirá caminhos de loucura. O filme tem vindo a receber reacções pouco consensuais junto da comunidade BDSM, tendo polarizado opiniões junto de crítica e público. Foi o caso na Tribuna do Cinema, onde Carla Rodrigues sublinha a positiva posição maioritária e David Bernardino acusa o filme de romantizar a desumanização. Ambos escrevem as suas críticas.

 

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Talvez ninguém esperasse que um dos filmes mais sensíveis, e até mais doces, dos últimos tempos viesse embrulhado na estética da cultura BDSM, com cabedais, coleiras e toda a parafernália que o imaginário popular associa a esse mundo. Preconceito, talvez, ou então um caso de marketing muito astuto a trocar-nos as voltas. O que parecia poder derrapar para um exercício adjacente à sexploitation revela-se um estudo delicado sobre identidade e descoberta pessoal. Isto não significa que Pillion seja desprovido de sexiness ou de luxúria, bem pelo contrário. Para começar, temos direito a um Alexander Skarsgård ora vestido de cabedal, ora de licra, ora de qualquer outra coisa pelo meio, e a câmara sabe muito bem o que está a fazer quando o enquadra. É um pitéu, não vale a pena fingir o contrário, mas seria um erro reduzir o filme a esse registo. Sob a superfície mais fetichista encontra-se um objecto narrativo com um grande coração e um interesse genuíno pelas fragilidades das suas personagens. Tanto num aspecto como no outro, esta obra está a léguas de distância do desenxabido 50 Sombras de Grey que se vendeu como fantasia escaldante de BDSM e acabou por ter a sensualidade de uma posta de pescada. Se o mundo fosse justo, Pillion seria o fenómeno de cultura pop que esse tentou ser.

Começando pelo título, confesso que tive de ir procurar o significado. Pillion é o lugar do passageiro numa mota, aquele assento atrás do condutor onde alguém se segura enquanto outra pessoa conduz. É um título magnífico: descreve a relação entre os dois protagonistas antes de sequer vermos o filme. Ray, interpretado por Skarsgård, é um motard alto, lacónico. Mesmo sem falar, emana uma presença que ocupa qualquer espaço onde entra. Colin (Harry Melling), é quase o seu oposto: dolorosamente tímido, socialmente desajeitado, um homem encolhido dentro da própria pele. Os dois cruzam-se no sítio mais improvável possível, o bar (talvez o único) da terrinha onde Colin vive. O motard vê qualquer coisa na maneira subserviente como Colin existe no mundo e decide que talvez haja ali algo a explorar, num crossover de vidas que parece improvável para quem olha para um e depois para o outro. Não tarda muito até que o nosso jovem tímido dê por si sentado atrás de Ray na mota, no pillion, o lugar do passageiro, do submisso, do hesitante, do seguidor.

Ray pertence a uma comunidade BDSM e é um dominador nato. Rígido, pejado de regras e expectativas a serem cumpridas com obediência total. Colin, por outro lado, não sabe muito bem do que precisa além da sensação de pertencer a algum lado, de ser visto por alguém. Ao contrário do que acontece noutros filmes sobre esta subcultura, as regras não são explicadas nem ao espectador, nem a Colin. Para ele, a posição submissa oferece uma coisa rara na sua vida: propósito. Durante algum tempo, abdicar de escolher é um alívio. Porém, uma submissão imposta é diferente de uma assumida voluntariamente, e o trajeto entre uma coisa e outra esconde percalços. O cuidado com as personagens é evidente. Seria muito fácil transformar Colin numa caricatura patética ou Ray no típico macho durão unidimensional, mas o filme não vai por aí. Harry Melling constrói um personagem irresistivelmente triste e doce, alguém cuja vulnerabilidade cria empatia imediata (e dá jeito, porque precisamos de gostar dele para que o filme funcione). Já Skarsgård traz a Ray uma mistura curiosa de autoridade física e fragilidade escondida, um dominador de aparência impenetrável que, volta e meia, deixa escapar sinais de alguém muito menos seguro do que gostaria de parecer.

A narrativa não se importa de correr o risco de dividir opiniões, uma vez que o consentimento é ambíguo e há momentos em que a dinâmica parece deslizar para perto do abuso, sobretudo porque Colin é tão impressionável e ansioso por agradar. Mas Pillion sabe que as primeiras relações não costumam ser modelos de comunicação exemplar. São desajeitadas, imperfeitas, dolorosas, mas muitas vezes aprendemos quem somos através desses tropeções. Pillion acaba por funcionar como um coming-of-age tardio, a história de um homem adulto que começa a perceber quais são os seus próprios desejos, os seus limites, o que está disposto a aceitar e o que não é negociável. Ao início, a submissão oferece-lhe um tipo de conforto muito específico: a possibilidade de abdicar da responsabilidade de escolher, de evitar a definição das suas próprias necessidades. Pouco a pouco, no entanto, torna-se claro que esse lugar de pendura não pode ser permanente. A submissão, nesse sentido, não é apresentada como ausência de agência, mas como parte de um processo mais amplo de autodescoberta. O resultado é um filme que utiliza uma subcultura frequentemente reduzida a caricatura para explorar questões muito mais universais: o desejo de pertença versus a construção de uma identidade própria. Pillion sugere que ocupar o lugar do passageiro pode ser, durante algum tempo, uma forma de protecção, mas também lembra que chega sempre o momento em que cada um tem de decidir se continua apenas a segurar-se a quem conduz ou se assume o controlo do guiador.

Carla Rodrigues

 

Por vezes existem filmes que se tornam fenómenos de nicho, normalmente fadados à polarização do público. Pillion é orgulhosamente um desses exemplos e, tendo noção da positividade com que o filme foi recebido pela maioria dos que o foram ver (muito poucas pessoas em sala em Lisboa na sessão “das 21h” na primeira semana de exibição onde fomos), esta crítica corre o risco de ser mal recebida. Pois assim seja. A primeira longa metragem de Harry Lighton, orgulhosamente produto A24, apresenta-se com uma estética que permitia antecipar algo manifestamente diferente do produto final. Uma espécie de neo-noir soturno, texturado, com fortes interpretações e respectivas personagens, enfim, algo de elevado (?) dentro do contexto da relação BDSM entre Alexander Skarsgård (Ray) e Harry Melling (Colin). A expectativa não podia estar mais longe da realidade.

Pillion é um estádio quase final da romantização da desumanização no cinema, onde a audácia da provocação procura refugiar-se na mais banal das desculpas: liberdade artística e metáfora. É logo nos seus primeiros 10 minutos que Pillion mostra ao que vai. Um encontro entre Ray e Colin, o primeiro “impossivelmente bonito”, o segundo tímido e feio, quase sem troca de palavras. Ray, o dominador, submete Colin, o dominado, à sua vontade absoluta da mais pura objectificação sexual em contexto de beco escuro. Não existe uma contextualização, uma conversa, um traçar de limites, no fundo um consentimento informado, para o que Pillion se prepara para filmar nos 100 minutos seguintes. O que observamos é precisamente isso. Um Skarsgård opaco, sem personalidade além das características de dominador autoritário, dono de parcas palavras de ordem para com Colin (Melling), o seu objecto que dorme todos os dias no tapete aos pés da cama, objecto não só sexual, mas doméstico e logístico claro. A insegurança e violência psicológica que Melling transparece sofrer no ecrã são nefastas, procurando o espectador encaixar nas suas acções, livres, razões que justifiquem um desenvolvimento de personagem numa direcção remotamente parecida com o amor. Aplausos não irónicos para a ironicamente excelente interpretação de ambos os actores, perfeitamente autonomizável do seu veículo fílmico.

“Amor, não é esse o objectivo?”, questiona Colin a Ray no último acto do filme depois de hora e meia de abuso sem regras pré-estabelecidas. Perante as questões de Colin, Ray acaba por aceder às suas emoções largando a personagem de dominador por instantes, provocando a expectável montagem de felicidade no rosto e Colin, livre por fim ainda que por instantes, finalmente validado por aquele homem impossivelmente bonito que o desumanizou sem dó nem piedade nos últimos meses. Pillion não é a história de auto descobrimento, de pertença, e muito menos de amor, que talvez pense ser. É a romantização do abuso físico e emocional, do totalitarismo, da ordem inquestionável, e que tem sido recebido de forma pouco consensual pela comunidade LGBT BDSM. As dinâmicas de poder que caracterizam o BDSM, assentes em prazer e respeito pelo consentimento mútuo, estão longe de estar retratadas em Pillion, um filme que elogia a ausência do diálogo, do respeito e da compreensão do sentimento do outro assumindo uma postura absolutamente totalitária sobre o tema. A estética de autor forçada, a realização fechada em campo/contra-campo, o pastiche da cinética e transgressão amorosa e sexual de, por exemplo, Wong Kar-wai, são tudo sinais de um cineasta algo eufórico na sua arte, desejoso por querer ser grande à primeira, ambicioso pelo seu cunho autoral mas perdido em toda a linha.

David Bernardino