Críticas a Passenger, de André Øvredal – Problemas de Transmissão

EquipaJunho 3, 2026

Estreado na senda dos sucessos de bilheteira do cinema de terror que estão a ser Obsession e Backrooms, Passenger, do realizador norueguês André Øvredal conta a história familiar de um casal a fugir à rotina do quotidiano. Maddie (Lou Llobell) e Tyler (Jacob Scipio) resolvem aderir à cultura americana de caravanismo depois de Tyler renunciar ao emprego de colarinho branco que detinha. As aventuras do casal são, contudo, interrompidas pelo encontro imediato com uma entidade que se insere no espaço do casal e reclama as vidas de pessoas com quem vão interagindo. Ainda que o contexto seja favorável à tracção para este Passenger, as suas dificuldades para se impor foram constatadas pelos tribunos David Bernardino e Hugo Dinis. A conferir.

 

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Se há algo que define o mau cinema norte-americano nos dias que correm é a lei do menor esforço. O passado de Hollywood está carregado de produções baratas, com imagens feias e performances de quinta categoria. Mas raramente se viveu uma era que esteja tão marcada por filmes de pouco esforço como esta. Filmes como Passenger não são, de resto, ocorrências únicas no panorama actual, mas são sobretudo emblemáticos do que se tem vindo a tornar uma indústria tão habituada a cortar cantos, como diriam os próprios americanos. Mas falemos deste Passenger. Um casal vê um acidente, saí para ajudar os sinistrados e logo se vê perseguido por uma figura sinistra que aparece e desaparece numa série de jump scares prototípicos. A maior parte das coisas que poderiam ser ditas deste Passenger estão aí. Mas o que o torna moderadamente curioso é a sua mundividência individualista. O casal ajudante encontra-se numa espécie de jornada de auto-descoberta depois de se desligar da máquina laboral americana e embarcar numa viagem de autocaravana pelo país fora. Neste contexto, encontram uma comunidade vibrante (isto é mais dito do que mostrado, contudo) pronta a entreajudar o próximo e deixar para trás o stresse do quotidiano. O nosso sinistro passageiro deixa-nos com outra moral da história: melhor não ajudar ninguém e separarmo-nos do resto do mundo, não vá aparecer alguém que nos queira fazer mal.

Este conservadorismo histérico faz de Passenger um objecto curioso, de facto. Porventura, um bom retrato dos tempos isolacionistas que vivemos. No nosso smartphone, em redes sociais formatadas para desencorajar pensamento, e em locais de trabalho cada vez mais atomizados, não corremos o risco de encontrar seres humanos pensantes e falantes. Mas, quem sabe, talvez possamos pensar que o cinema nos faça levar a usar a cabeça e o coração para nos dizer alguma coisa que valha a pena ouvir. Não foi hoje o dia, contudo, este em que vi o filme Passenger. Um filme de parco pensamento para além da cultura de tecnoreceio e de curto esforço, imerso em falas foleiras de um guião insípido, eventualmente concebido no Gemini, e artifícios visuais de pôr o espectador a pensar se não deixou o fogão ligado em casa.

Hugo Dinis

 

No universo dos filmes de terror genéricos, Passenger não é o pior exemplar. Ainda assim, carrega com ele aquela aura de mediocridade que pontua a maioria do terror norte americano do século XXI, uma história sobre um casal de Brooklyn que conduz uma carrinha romântica pela paisagem rural dos Estados Unidos durante semanas à procura de liberdade e felicidade. Como seria de esperar, uma espécie de demónio das estradas arborizadas acaba por se agarrar a eles. O enredo é anedótica, mas inocentemente, cliché e o horror alimenta-se de jump scares que funcionam de vez em quando, mas nunca algo que está a acontecer no ecrã é realmente interessante para capturar a atenção do espectador. A representação do par de protagonistas é insípida e Melissa Leo, como secundária, é reduzida a um mero recurso de argumento. Bem… Na verdade todos sabíamos desde o início que Passenger seria mais um filme de qualidade duvidosa para ver com amigos, pelo que não faz muito sentido ser demasiado duro com ele quando nunca se vendeu como algo de qualidade superior.

​Existem, ainda assim, algumas cenas que merecem ser mencionadas e que denotam uma certa curadoria. Por exemplo, a dada altura o casal projecta o clássico Roman Holiday (Wyler, 1953) num lençol num bosque isolado junto à estrada para depois ser surpreendido pela entidade demoníaca que se funde com o filme, trazendo a imagética de Videodrome (Cronenberg, 1983) à superfície, dando origem a um momento criativo interessante ao distorcer as faces de Gregory Peck e Audrey Hepburn no meio do mato à luz da projeção. De qualquer modo, o aspeto mais trágico de Passenger é ver onde foi parar a carreira de André Øvredal. Outrora um jovem realizador norueguês promissor que surpreendeu os entusiastas de terror e fantasia com o inventivo Troll Hunter, Øvredal ainda assinou o interessante, mas já em declínio, The Autopsy of Jane Doe há uns anos, apenas para se ver agora a trabalhar como um realizador de rotina em filmes de terror sem alma como tantos e tantos com um percurso semelhante. É uma pena e não parece que Øvredal tenha o engenho para inverter o rumo da sua filmografia.

David Bernardino