Celebrizado pelo documentário I Am Not Your Negro (2016), entre outros filmes que abordam temas sociais fracturantes, além de incursões nas longas metragens de ficção como The Young Karl Marx ou Lumumba, Raoul Peck regressa às salas portuguesas com Orwell: 2+2=5. O filme oferece uma leitura do autor de 1984 e Animal Farm contrapondo a sua visão sobre autoritarismo, e não só, com distintas realidades dos dias de hoje. Raquel Sampaio, Hugo Dinis e Rita Costa assinam as críticas.
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Orwell: 2+2=5 nasce menos de uma vontade biográfica clássica e mais de um gesto político: recuperar George Orwell do ruído que o rodeia. Num presente onde 1984 é frequentemente citado como slogan e raramente lido, o filme propõe uma reposição de contexto. Não para atualizar Orwell, mas para mostrar como o mundo acabou por se aproximar perigosamente das suas piores intuições. Raoul Peck não é estranho a este tipo de operação, já que tem feito da reescrita crítica da História uma marca autoral. Fê-lo – com mais sucesso, diríamos – com James Baldwin (em I Am Not Your Negro) e Ernest Cole (em Ernest Cole: Lost and Found), com a violência colonial em Exterminate All the Brutes (no pico da sua mestria), e antes disso em retratos históricos como Lumumba ou The Young Karl Marx. Aqui regressa à ideia de deixar o pensamento falar por si. O resultado é um documentário frontal e intelectualmente estimulante, mas também irregular.
O título remete para a lógica perversa da submissão: aceitar que 2+2=5 porque o poder assim o exige. Peck ilustra essa ideia com uma montagem de horrores bem reais (Ucrânia, Palestina, Rohingya) repressão de protestos, ascensão da extrema-direita, manipulação mediática, sugerindo que o futuro distópico imaginado por Orwell já chegou. Narrado pela voz de Damian Lewis, o filme move-se de forma fragmentada pela vida de Orwell, da experiência colonial ao isolamento final marcado pela tuberculose, cruzando esse percurso com um vasto arquivo visual: fotografias, imagens noticiosas contemporâneas, excertos de várias adaptações de 1984 (da versão de 1956 com Edmund O’Brien à adaptação de 1984 protagonizada por John Hurt) e até imagens de outros filmes populares, de Oliver Twist a Notting Hill.
Peck é particularmente eficaz quando traz de volta à realidade o escritor Orwell, ao invés de mostrar como foi aproveitado para leituras oportunistas. Este não é o Orwell fetichizado por discursos libertários ou usado como arma retórica genérica contra “o Estado”, mas um escritor profundamente crítico do imperialismo britânico, atento à violência estrutural e ao modo como o poder molda a verdade. O filme funciona, nesse sentido, como um gesto corretivo: devolver Orwell às suas próprias palavras. O problema surge na arquitectura do documentário. A montagem parece inacabada. Há ideias que surgem quase por enxerto biográfico, criando uma sensação de descontinuidade e outras que se repetem até à exaustão. A analogia mais justa talvez seja a de uma aula brilhante, dada por alguém que domina profundamente a matéria, mas que não teve tempo de a estruturar. A sucessão de exemplos cumpre o seu propósito mais imediato: provocar indignação, relembrar que saltamos da ficção para o dia-a-dia. Algumas opções estilísticas acentuam essa sensação. O som da respiração ofegante (metáfora da tuberculose que matou Orwell) torna-se intrusivo. O recurso insistente a imagens e música geradas por IA, pensado para ilustrar os perigos da desinformação e da “novilíngua” contemporânea, acaba por fragilizar a sua coerência estética, transformando uma boa ideia num sublinhado redundante. Ainda assim, seria injusto desvalorizar o impacto do conjunto. Peck não pretende subtileza nem ambiguidade: quer confrontar, quer alertar, quer incomodar. E nesse plano, o filme cumpre. Peck sabe exatamente o que quer dizer – o filme nem sempre consegue acompanhar essa clareza. Ainda assim, num tempo em que Orwell é tantas vezes citado e tão raramente lido, esta reapropriação crítica é não só bem-vinda como necessária. Imperfeito, por vezes pesado, o filme vale sobretudo pela clareza da sua intenção e pela pertinência do seu alerta.
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Raquel Sampaio

Quando a Apple lançou o conhecido spot publicitário no qual uma atleta inglesa arremessava um martelo ao ecrã do Big Brother orwelliano, a família Orwell processou. A publicidade de Ridley Scott pintava o futuro gigante tech como uma pedrada de originalidade, inventividade e, resumidamente, humanidade no charco estagnado da conformidade societal. Em Orwell: 2+2=5, Raoul Peck recupera o spot, ainda que por apenas breves instantes já perto do final. Um exemplo perfeito de como a propaganda pode ser usada para legitimar a inversão de lógica: na verdade, o anúncio vinha desafirmar tudo aquilo que Orwell colocou como inegociável, ao pintar um bem de consumo de uma empresa tecnológica como um acto de rebelião individual e humanitária. Peck vê essa mesma inversão na geopolítica mundial actual e, em Orwell: 2+2=5, pretende sublinhar a presciência do escritor de 1984. Através da narração do diário dos últimos dias de Orwell por Damian Lewis, Peck polvilha a tela com imagens de tudo e mais alguma coisa, desde o genocídio do povo Rohingya à acefalia trumpista. 1984 é sobretudo um livro direccionado para a afirmação do humanismo, da liberdade individual de pensamento e da singularidade do cidadão na sociedade. Se tudo isto soa imensamente como um enorme lugar comum, não é propriamente de espantar. Não precisamos de revisitar Orwell para entender o colapso da sociedade capitalista ocidental sobre o peso das mentiras que a si própria conta. Mas é isso que Peck faz, fazendo marcar a coerência interna do seu filme com o passo do estertor de morte de Orwell.
Nisto se centram os três pilares de Orwell e Peck: war is peace, ignorance is strength, freedom is slavery. O advento da era da ignorância é, com efeito, a melhor cartada de Peck na defesa de Orwell, e acaba por ser aí que o documentário se sente melhor e convoca um ritmo e um propósito muito mais seu. Mas também aqui os argumentos de Peck não convidam uma novidade no tremendo mar do slop de inteligência artificial nas redes sociais de hoje. Bourdieu é sempre bem vindo ao ecrã nestas situações, mas há permanentemente algo de insidiosamente inofensivo por detrás das posições de Peck, pelo menos quando estas são discerníveis. Orwell: 2+2=5 desvia-se frequentemente na direção de uma sopa de imagens do dia que se sucedem com a narração de Orwell, a banda sonora titubeante e cena atrás de cena das múltiplas adaptações de 1984 ao grande ecrã. Nela, Peck perde propósito e, ironicamente para a tese do documentário, voz própria. No ano passado, um outro intelectual afro-americano, Ta-Nehisi Coates, colocou em causa o seu estatuto pessoal para tomar uma posição moral sobre a questão de Gaza. Independentemente do que se possa achar da matéria, é essa coragem individual que Orwell celebrou em 1984 e é precisamente esse inconformismo que se encontra fundamentalmente ausente em Orwell: 2+2=5.
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Hugo Dinis

Orwell: 2+2=5 opta por um registo afirmativo e previsível, que raramente se transforma em pensamento. As ideias surgem alinhadas, reconhecíveis, apresentadas de forma direta e sem grande resistência interna. O filme avança com segurança, mas essa segurança traduz-se numa ausência de risco. É tudo dito de forma clara, quase encerrada, deixando pouco espaço para dúvida ou deslocamento. O retrato de Orwell permanece limitado. Há excertos de textos, entradas de diário, dados biográficos dispersos, mas nunca se chega a uma leitura consistente do escritor enquanto autor atravessado por escolhas, limites e contradições. A escrita é citada. Orwell aparece como autoridade convocada para sustentar um discurso já organizado, e não como alguém cuja obra mereça ser relida com fricção.
A narração mantém um tom solene e contínuo, que acaba por uniformizar o filme. A montagem acumula materiais diversos, imagens de arquivo, excertos de adaptações cinematográficas, fragmentos do presente, sem que deles resulte uma linha de pensamento claramente construída. A sensação de urgência está sempre presente, mas permanece vaga, mais declarativa do que analítica. Enquanto introdução, o filme pode cumprir uma função informativa. Para quem já conhece Orwell e os temas convocados, porém, é insuficiente. Falta densidade, falta confronto, falta um gesto que vá além da reafirmação. Orwell: 2+2=5 fecha-se sobre certezas conhecidas e sem deixar verdadeiro impacto.
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Rita Costa



