Críticas a One Battle After Another, de Paul Thomas Anderson

EquipaSetembro 26, 2025

Como sempre, quando se trata da chegada de um novo filme de Paul Thomas Anderson, a expectativa era muita… mas talvez o conjunto de circunstâncias em torno de One Battle After Another tenha tornado esta estreia particularmente carregada de tensão e até de alguma ansiedade (para os fãs do seu trabalho e seguidores mais assíduos, claro está). Desde logo pela parelha com DiCaprio, ícone maior do mainstream americano da atualidade. Se todos sabíamos que a união era inevitável, talvez alguns tenham pensado (porventura antecipando uma narrativa de “curva descendente” na carreira de uma destas partes, ou de ambas) que teria vindo tarde demais. Depois, e mesmo sendo certo que esta não era a primeira aventura de Anderson em território pynchoniano (Inherent Vice, de 2014, já tinha ido beber à fonte do escritor americano), restava a dúvida sobre o que esperar de uma aproximação mais frontal ao universo do filme de ação — como os trailers claramente sugeriam. Como lidaria Paul Thomas Anderson com a escala e o movimento vertiginoso que caracterizam este género? Descuraria as suas marcas autorais em favor de um entretenimento mais direto? Ou, pelo contrário, tentaria ser demasiado cerebral, em prejuízo da dimensão cinética que o público espera? E talvez a dúvida mais importante, aquela que assombra a obra de qualquer bom autor: seria capaz de manter o nível a que nos habituou? Enfim, a resposta a todas estas questões continua a ser a mesma de sempre, quando se trata de cinema: só vendo. Hugo Dinis, André Filipe Antunes e Miguel Allen já viram. As suas críticas fazem-nos suspirar de alívio, sim, mas todos teremos de ver One Battle After Another para nele crer.

 

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Talvez não seja surpreendente que a paranóia dos anos 70, tão própria da literatura de Pynchon, esteja tão actual nos dias de hoje. Em muitos aspectos, vivemos numa era de realização, cruel que seja, de quebra dos laços que nos unem. Sejam os valores ocidentais ou a noção de mobilidade social muito americana, por entre niilismo e radicalismo, a ruína é omnipresente. A prática do optimismo, pelo menos no novo trabalho de Paul Thomas Anderson, mais do que um acto de resistência, é representado pelo triunfo da família. One Battle After Another encapsula um elemento de raiva e sua futilidade adjacente que vai concretizando em si mesmo

Battle é tudo aquilo que o actual é: ridículo, absurdo, humorístico, e mortalmente sério. No seu cerne, conta-se uma história de família. Leonardo DiCaprio é um ex-operativo de um grupo revolucionário, a braços com a filha adolescente (Chase Infiniti), em fuga depois da captura e delação da sua companheira (Teyana Taylor). DiCaprio é um pai muito mais presente do que propriamente bom, mas o espectro da ausência da mãe faz-se sentir sobre ambos de forma particular. Infiniti acredita que a mãe foi uma heroína da resistência, DiCaprio afoga a solidão em erva e bandas de covers de Steely Dan. Neste aspecto, Battle assume-se como o primeiro filme de Anderson simultaneamente ostensivamente sobre o núcleo familiar e o peso da contemporaneidade sobre ele.

A fuga de DiCaprio e Infiniti perante a força bruta do exército pessoal de Sean Penn, embasbacado por Taylor e obcecado com a sua inclusão num restrito grupo conspiracionista ao estilo Illuminati, vai passando pelas diversas ilhas de violência casual de hoje. As famílias de migrantes enjaulados (“if you want to solve the world’s problems, start with migration”, diz Penn), a crueldade policial na eliminação de qualquer cheiro a subversão, a pureza racial como catalisador de sangue. Não há meios, apenas fins. Também por isto, Battle é facilmente o filme de Anderson que mais foco coloca nas suas sequências de acção, sobretudo perseguição e tiroteio. Contudo, é notório o cuidado que Anderson coloca na consistência formal destas construções. A sua câmara alterna entre o registo de guerrilha enquanto segue DiCaprio na noite de Baktan Cross, e a imersividade na busca do carro de Infiniti pelos altos e baixos da auto-estrada que resolve a trama.

No fundo, Battle coloca em campo uma miscelânea de registos que não só serve de especial desafio para a sensibilidade de Anderson na construção temática e no tom das suas sequências, como também para a conjugação formal dos seus diversos elementos. Nesse sentido, mais uma vez se assume como notável a banda sonora de Jonny Greenwood. Fazendo uso de uma cada vez mais ampla combinação de instrumentos, Greenwood acompanha as viragens de Battle da uma forma muito mais orgânica que nas anteriores colaborações com Anderson. A partir daí, é a realização que faz a transição entre o Dirty Work de Steely Dan enquanto o Sensei Benicio Del Toro liberta DiCaprio da sua momentânea detenção, e a propulsividade mecânica de Greenwood ao estilo de 15 Step (Radiohead) na perseguição automóvel que segue.

Muito embora grande parte da reflexão de Anderson não configure expressamente aquilo que possamos classificar de “comentário político”, há no argumento de Battle uma dessacralização deliberada. A fuga de Infiniti leva-a a um convento populado por freiras cultivando cannabis, e a perseguição de Penn termina ao altar. O profano surge como algo tão terreno, na solidariedade com Infiniti, como macabro, na destruição que traz Penn no seu encalce. One Battle After Another pode não ser necessariamente convincente na adopção que faz da sua visão optimista face ao núcleo familiar, mas é certamente o filme contemporâneo que mais aptamente olha para o aqui e agora.

Hugo Dinis

 

Se o anterior Licorice Pizza era talvez uma obra menor no contexto da sua oeuvre, o último filme de PTA é um regresso em força de um dos mais relevantes cineastas americanos dos últimos 30 anos. Batalha Atrás de Batalha é um (raro) ponto iluminado no calendário de lançamentos de 2025 e facilmente um dos melhores filmes do mainstream americano num bom par de anos, sintetizando a sensibilidade clássica e contemplativa da segunda metade da obra do seu realizador com a energia de enfant terrible com que Anderson explodiu em cena na década de 90.

Um filme denso e de camadas que merecem ser revisitadas, desde logo das suas maiores qualidades é o facto de poder ser apreciado à superfície como um excitante e direto (ainda que longo e elaborado) thriller de ação, uma história clássica de um pai em busca da sua filha, formalmente imperioso – notável a sequência final da perseguição, os carros submergindo e emergindo nas ondas da estrada – com cenários que oscilam entre o tenso e o cómico (dificilmente haverá filme de 2025 mais hilariante), uma banda sonora notável e um elenco de luxo. Aqui, destaque para os secundários: Regina Hall, matriarca da revolução, uma quietude e um conjunto de subtilezas que traem um turbilhão de dor e melancolia; e, no extremo oposto, o vilão de Sean Penn, todo ele andar extremado e maneirismos quase caricaturais, não fossem as breves explosões de raiva que o revelam como um ogre e uma bomba-relógio aterradora a cada instante.

Penetre-se um pouco mais fundo, contudo, e depressa descobrimos um intenso comentário político, social e – sobretudo – geracional. Se o excelente Linha Fantasma era a visão de Anderson sobre relacionamentos, aqui explora-se os falhanços da geração anterior, as promessas que ficaram por cumprir e as revoluções que ficaram por fazer, ante uma América de tendências fascizantes e cada vez mais declaradas, na realidade como no cinema. A dinâmica pai/filha do filme, além do óbvio apelo emocional, carrega então algo mais, uma semente política, utópica, uma chamada à ação para construir o futuro. Os pais falharam, mas talvez os filhos consigam. Têm tempo, até porque a batalha nunca acaba.

André Filipe Antunes

 

After all it was a great big world.

A peça abre com uma acção em curso. Um grupo de auto-intitulados revolucionários ataca um campo de detenção de emigrantes “ilegais”, libertando os prisioneiros e humilhando os militares que controlavam o recinto. Uma primeira batalha, como nos anunciava o título do filme, de final feliz e brilhante, uma primeira sequência que põe em prática tanto a desconfiança sistemática do filme relativamente às forças militares (contemporâneas), como as inevitáveis contradições ou conflitos internos que compõem um grupo de pessoas que pretende proclamar uma revolução. Existe ali uma reinvindicação urgente de identidade. Os chamados French 75 existem enquanto grupo armado negro, enquanto célula feminista e, a nível interno, enquanto expressão física (nomeadamente sexual) das suas figuras individuais sobre a realidade que lhes é oferecida.

Central a essa abertura do filme – que acelera vertiginosamente sobre outra batalha para descrever, enfim, um encadeamento forçosamente fatal de conflito – está um casal tão improvável quanto essencial à construção da identidade do grupo que o engloba. Uma figura feminina firme, negra, forte e agressiva (a Perfidia Beverly Hills de Teyana Taylor), e uma figura masculina branca, algo insegura, embevecida e apaixonada (“Guetto Pat”, o Bob, de Leonardo DiCaprio). É dessa união que nascerá o elemento central da trama de One Battle After Another; é no seu desacordo físico e moral que se essencializará o valor da tragédia do filme.

No seu enleamento profundo com o “hoje”, One Battle After Another é um filme profunda e perfeitamente contemporâneo. Se Paul Thomas Anderson se “escondera” desde há largos anos na época “passada” dos seus filmes, esta sua obra de 2025 procura reflectir intensamente a realidade actual. No entanto, o valor essencial do filme será o de ancorar a sua leitura da realidade nas suas personagens, fazendo-as atravessar, observar e reagir ao mundo em seu redor. Como em todas as grandes obras de um “seu tempo”, o exercício narrativo de One Battle After Another transporta noções mais alargadas do que uma limitativa funcionalidade no Presente. O relato de uma fuga passada e o foco sobre um regresso à acção. A nomeação de um novo herói na pele de uma figura jovem que desconhece a sua centralidade na trama. A simples história de um pai que protege uma filha. São noções dramáticas que encontram a sua fonte na tragédia clássica. E daí poderemos entender que a validade do filme enquanto retrato de um “hoje”, existe pela sua validade enquanto exercício narrativo clássico, e portanto intemporal.

Mas voltemos atrás. Se tanto falamos nós hoje (mais um vez) de revolução, poucos saberemos, afinal, do que estaríamos dispostos a abdicar para que esta revolução pudesse de facto acontecer. Neste seu monumental thriller absurdista, neste seu épico contestatário, neste seu neo-western, ou filme possível de uma guerra em curso, se Paul Thomas Anderson filma “a revolução” – passada e futura, em curso e falhada -, este não será, em última análise, um filme sobre essa mesma revolução, em si. A acção pinta um contexto político muito particular, particularmente instável, ou insano. E como em tantas outras obras contemporâneas, bem menos inspiradas, One Battle After Another é pynchonesco porque tão interessado nos nossos tempos, é certo. No entanto, o filme não se sustenta no seu comentário político, não se esgotando portanto no mesmo. Dentro da sua guerra, bem no interior de cada batalha, é uma outra ideia de dever e compromisso que faz pulsar a trama extensa. Olhamos talvez com alguma surpresa para DiCaprio, muito empenhado, de bebé ao colo e biberão na mão, a meio da noite. Rimo-nos quando, mais tarde, desesperado por não se lembrar de um código secreto, pergunta incrédulo: “don’t these people have kids!?” E, no entanto, será desse seu contexto mais prosaico que se constrói o pathos de todo o filme. Aquela criança que não vemos crescer e que um dia deseja partir para as suas próprias batalhas. Esse nosso ar aparvalhado que aprende a lidar com um mundo que agora lhes pertence. A nossa vontade de lhes entregar uma realidade na qual consigam existir. E a nossa esperança em que algo lhes tenhamos dado no percurso partilhado até então. Porque, afinal de contas, é um “mundo grande e vasto”.

One Battle After Another é assim, também, um maravilhoso filme sobre paternidade. Sobre dezasseis anos que passam entre dois planos, entre dois eventos. Sobre aquele corpo materno, crepuscular, que se anula entre a multidão em lugar incerto, confrontado com o vigor de um outro corpo, que se afirma ao centro de um palco. Tudo no filme reverte, afinal, para o plano introdutório de Willa (Chase Infiniti, uma actriz maior). E de pouco importam os pecados de Anderson na caricatura de Sean Penn (que releva do exagero), como pouco importa, talvez, que este filme inesgotável carregue uma inesquecível perseguição a três carros pelo deserto americano (Vanishing Point enquanto filme de rostos). Mas de muito importa o contexto regional e político no qual a história se insere. Muito importa, afinal, essa batalha que se encena em Baktan Cross, todas as figuras anónimas que a compõem, aquela rede subterrânea que ali se revela. De uma ideia sentimental que se alimenta de, enquanto informa um, contexto político, será na sua constante dicotomia narrativa que One Battle After Another é, muito provavelmente, o filme essencial deste ano.

Miguel Allen