Olhar o Sol (tradução literal do alemão In die Sonne schauen, para um filme também distribuído com os títulos Sound of Falling ou Les Échos du Passé), segunda longa-metragem de Mascha Schilinski, venceu o Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2025, distinção partilhada com Sirāt. Um mosaico narrativo complexo e sombrio que acompanha quatro jovens – Alma, Erika, Angelika e Lenka – por diferentes épocas, todas elas ligadas a uma mesma quinta isolada na região de Altmark, na Alemanha. As gerações passam, o lugar guarda a memória, as cicatrizes de um passado de dramas silenciados e segredos familiares. Duas críticas ao filme.
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As crianças sabem muito pouco da vida dos adultos, até porque estes lha tentam esconder. Apanham pequenos vislumbres de algo cujo motivo não conseguem sequer aproximar-se. Esquecem-no, se tiverem sorte, e não se voltam a sentir assoberbadas por aquilo que não conhecem – Mascha Schilinski sabe como filmar estas situações e como (também) nos confundir. Quatro gerações de raparigas que ocupam a mesma casa alemã. Procuramos, em vão, uma ligação familiar entre elas, mas não é disso que se trata. A menina cresce e decresce ao longo das gerações, como se voltasse atrás a tentar compreender algo, como se quisesse ver algo que já vira. No início do século XX é a pequena Alma (Hannah Heckt) que se transforma em Erika (Lea Drinda), em Angelika (Lena Urzendowsky) e, finalmente, Lenka (Laeni Geiseler). Todas elas enfrentam a morte, que estivera pacientemente à espera de ocupar o seu lugar. Assombra estas mulheres, já dominadas por uma inexplicável tristeza profunda. Schikinski insiste na ideia de que uma mulher é condenada à violência, esquecendo, porém, as mulheres para além disso. Mostra delas apenas o que é trágico e aquilo que têm em comum, aquilo que a dor as leva a fazer, pouco mais. Caminhamos através da história alemã recente entre ciclos inultrapassáveis de dor e vestígios de felicidade, onde um sorriso soa a ataque e rapidamente é extinto, com particular destaque para Alma, que se ri dos seus irmãos do topo de uma árvore, para simplesmente ser lá deixada. A estética onírica é comovente e adequada, já que navegamos por memórias tão íntimas que passam a ser nossas, tal como são delas, mas a todas são um sonho. No entanto, acaba a ser um outro aspecto que põe as mulheres à sua mercê, já que Angelika só faz o pino para que possamos ver a família ao contrário. Ainda assim, é um belo filme de solidão, não fosse ela seletiva e desconexa de muito do que vivemos, escolhendo de uma multidão aquilo que lhe convém.
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Maria Inês Opinião

Uma das questões essenciais do cinema é a montagem. Quer alternada – o desfecho dramático – ou paralela, a associação temática, visual, metafórica ou alegórica. Esta reflexão manifesta-se no corte, numa cena curta, numa sequência ou até mesmo, na sua versão extrema, tem a capacidade de suportar o próprio conceito do filme. É o caso da segunda longa-metragem de Mascha Schilinski, Olhar ao Sol, vencedora do Prémio do Júri na última edição do Festival de Cannes.
Na boa tradição alemã, Schilinski filma os habitantes de casa rural, alternando (lá está), entre quatro famílias diferentes de quatro períodos diferentes – 1910, 1940, 1960 e 2020 – datas que espelham momentos chave da História moderna alemã: a Grande Guerra, a Segunda Guerra Mundial, a RDA e o presente. Mais do que uma lição historiográfica, a justaposição dos diferentes tempos histórico-narrativos, que nunca se cruzam, permite a Schilinski realçar o que neles há em comum, ou pelo menos, semelhança que a realizadora lhes confere : as experiências das jovens mulheres que partilham um habitat verdadeiramente tenebroso, repleto de mistérios, traumas e dúvidas, transversalmente relacionados com a morte e a incerteza da sexualidade.
A estrutura em mosaico do filme relembra-nos a obra de Tarkovsky, nomeadamente o seu filme mais pessoal, Zerkalo (em português, O Espelho), mas sem o lado abstrato da memória que tanto caracteriza esse filme. Schilinski realiza um filme concreto, onde as dúvidas manifestam-se pelos olhares e descobertas das personagens, e não da desconstrução espiritual da matéria, como no realizador russo. Embora a fotografia de Fabian Gamper seja memorável e tecnicamente bem conseguida – um grão analógico alimentado por uma luz seletiva, suficientemente naturalista –, a realização é excessivamente formalista: proporção 4:3, olhares câmara repetitivos, travellings que conectam imagens distantes, sons ensurdecedores antes do corte; faltam motivos, ações ou gestos que aqueçam planos tão frios. O ponto de vista, não sendo inovador, tem peso, e há momentos e temas que marcam depois do visionamento. Todavia, num filme pretende ser slowburn enriquecedor, falta uma qualquer recompensa.
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Pedro Bastos Oliveira



