Críticas a Obsession, de Curry Barker – Tóxico até ao Osso

EquipaMaio 19, 2026
Obsession é a segunda longa-metragem de Curry Barker – se contarmos também a “experiência” em found footage Milk & Serial -, um nome inicialmente tornado conhecido através do YouTube, enquanto metade do duo de comédia “that’s a bad idea”. Para conquistar Nikki (Inde Navarette), a paixão da sua vida, Bear (Michael Johnston) recorre a um “One Wish Willow”, um velho brinquedo capaz de conceder um desejo. O pedido concretiza-se, mas Bear depressa descobre que alguns desejos escondem um preço tão sombrio quanto sinistro. Recebido com inesperado entusiasmo, o filme foi apresentado na edição deste ano do IndieLisboa. A Tribuna recupera agora duas críticas a uma das pequenas surpresas do festival.

 

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É sem dúvida uma das grandes surpresas do ano e até ver, numa época em que a esmagadora maioria do cinema produzido é francamente medíocre, um dos melhores de 2026. O filme de terror de Curry Barker coloca no centro da questão as relações amorosas tóxicas baseadas em possessividade, insegurança e obsessão que, no caso, se juntam por co-dependência deixando bem claro o seu vilão inicial à luz das interpretações mais modernas deste tipo de dinâmicas. O homem, Bear (Michael Johnston), incorpora o olhar masculino (na linguagem de hoje o dito male gaze) que sonha namorar com Nikki (excelente interpretação de Inde Navarrette), sua amiga e colega de trabalho. Em conversas com o seu amigo Ian sobre como abordar o assunto, Bear acaba por pedir o desejo mágico de Nikki se apaixonar por si, cartoonizando e materializando a metáfora. Nikki transforma-se então na namorada obsessiva, possessiva, insegura e violenta, criando assim duas personagens que todo o espectador irá, de uma forma ou outra, reconhecer.

Curry Barker tem assim o mérito de, na senda dos temas trazidos por filmes como It Follows (2014), Smile (2022), Talk to Me (2022) ou Resurrection (2022), tornar palpável o horror das relações tóxicas, com elementos sombrios, frios, clínicos, aterradores, sempre de mão dada com um humor negro afinadíssimo e um coração grande que irá fazer o espectador contorcer-se de desconforto e arrepio na cadeira. Além de todo este rico subtexto que parece estarmos sempre à procura com uma lupa para conseguir legitimar intelectualmente o cinema, a verdade é que Obsession é um filme tremendamente eficaz e divertido para os amantes de cinema de género. O terror, género que sempre corporizou as fobias e medos sociais das suas épocas desde os anos 1910, continua a ser o terreno mais fértil para os cineastas darem azo à criatividade. Enquanto apaixonado pelo género, e falando na primeira pessoa (raramente o faço), o filme de Curry Barker é facilmente o filme de terror de nicho mais interessante do último par de anos.

David Bernardino

 

A chamada epidemia de solidão masculina tem sido objecto de repetidas parábolas conceptuais da parte do cinema anglo-saxónico de terror e suspense nos últimos anos. Títulos como Men (2022) ou It Follows (2014) colocaram o ênfase na questão de facto no evento da perseguição feminina. Este Obsession, segunda longa do youtuber Curry Barker, entra no promontório masculino pela subversão do seu conceito. O desejo de conexão amorosa masculina a todo o custo representa não apenas um perigo para a mulher, mas também um preço a pagar pela remoção de agência ao objecto amoroso. Em Obsession, Michael Johnston é um jovem introvertido em busca do amor incondicional de Inde Navarrete e que o obtém através de um artefacto que concede um único desejo ao seu portador.

O conceito estilo pata-de-macaco não deixa de se revelar curto para suportar o peso de um filme de duas horas, mas Barker mostra-se surpreendentemente ágil na forma como vai moldando a narrativa para conseguir um efeito de crescendo na sua descida para o absurdo. Em parte, muito se deve ao casting de Navarrette como a mulher desejada que se converte em farrapo humano no cumprimento dos desejos amorosos de Johnston. Contudo, a forma decidida com que Barker assume a negação de saídas limpas para a toxicidade da ligação entre o casal não deixa de conferir a Obsession uma vilania negacionista de um populismo de final feliz.

Ao contrário de outros registos e variações no tema, Obsession conjuga a inocência envergonhada do seu protagonista com, inevitavelmente, a sua culpa em todo o lamaçal moral criado pelo desejo de Johnston. O seu papel anti-heróico ajuda a complexificar as incidências do ponto de vista da sua identificação com o espectador. Não será difícil revermo-nos a nós ou a alguém próximo no papel de perseguidor ou perseguido amoroso. Contudo, à medida que Navarrette se vai colocando no limiar da sanidade, também nós somos forçados a reavaliar o nosso próprio papel em relações actuais ou passadas, amorosas ou dependentes. O que resulta daqui, apesar de tudo, é um filme que se mostra apropriadamente eficaz na resolução de uma premissa transparente e directa, capaz de a transportar durante um longo período com relativa coerência tonal.

Hugo Dinis