Thriller psicológico em torno do julgamento de Hermann Göring, Nuremberg é o segundo filme assinado por James Vanderbilt – produtor e argumentista de Zodiac (Fincher, 2007), mas também de Murder Mystery 2 (Garelick, 2023). O filme, baseado em The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, conta com um elenco de peso, do qual se destaca um carismático Russell Crowe no papel do comandante nazi, e Rami Malek, enquanto ambicioso psiquiatra que deve analisar aquele sedutor “second in command” de Hitler. Meta-cinema ou filme de pequeno écran, as opiniões são de David Bernardino e Hugo Dinis.

Quando se entra na sala para ver Nuremberg, já se sabe exatamente ao que se vai. Um intenso thriller de tribunal sobre o julgamento de Göring e dos restantes dirigentes nazis após a Segunda Guerra Mundial, ao estilo de Hollywood, estabelecendo paralelos com a situação política mundial atual e com a ascensão do extremismo de direita. É exatamente isso que o filme oferece, de forma particularmente envolvente e muito pouco pretensiosa.
O que mais se destaca, porém, é que, apesar do tema delicado do genocídio perpetrado pelos nazis (a palavra nunca é, curiosamente, usada no filme, embora tenha sido empregue no contexto dos julgamentos de Nuremberga na época), o filme consegue atravessar a solenidade da questão graças às interpretações personalizadas de Rami Malek, Michael Shannon (na verdade, de todo o elenco), mas sobretudo de Russell Crowe. O Russell Crowe de 2025, aqui gordo e com sotaque alemão, depois de um regresso surpreendente em Unhinged, está precisamente… descontrolado. Nuremberg não é, de todo, credível do ponto de vista dramático, e a interpretação descomplexada e ousada de Crowe é a única forma de tornar Göring, o número dois na hierarquia nazi, simultaneamente carismático e simpático num filme sobre o Holocausto.
Acresce que Malek, como um psiquiatra simultaneamente ingénuo e narcisista que se sente fascinado por Göring, surge de forma tão inesperada neste contexto sério pós segunda Guerra que Nuremberg atinge quase um estatuto meta, com uma dinâmica em que se torna visível a olho nu que todos os envolvidos, de actores a cineastas, parecem estar claramente a trabalhar em jeito de performance não real. Curiosamente, resulta de forma admirável: é um filme de elevado entretenimento, intenso, envolvente, mas nunca tolo ou insensível. Será intencional? Na verdade, tudo indica que sim — e Russell Crowe atinge aqui um diferente pico de carisma nesta sua versão desavergonhada.
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David Bernardino

Por duas vezes este ano, dei por mim na sala de cinema a pensar “se este filme tivesse sido aquela cena lateral que acabei de ver, teria sido muito mais interessante”. A primeira foi em The Smashing Machine, de Josh Safdie, que nos mostra uma personagem secundária mais apelativa que o seu protagonista. A segunda foi ao ver o final deste Nuremberg. Ali, vemos Rami Malek agitado, desesperado e descrente, a lançar avisos a um povo vitorioso em guerra e desligado do impacto moral da sua vitória. A tese central neste filme é relativamente simples e uma que foi ilustrada de forma (bem) mais conseguida há dois anos em The Zone of Interest. O mal não pode ser identificado e isolado dentro de cada um de nós. As atrocidades cometidas pelo ser humano ao longo da história estão dentro dele próprio e serão passíveis de repetir dentro das circunstâncias erradas. A forma que James Vanderbilt encontrou para filmar isto em Nuremberg foi a de centrar a relação entre Malek e Russell Crowe, a representar Hermann Göring, dentro do confessionário do trabalho de psiquiatria do primeiro. Na verdade, não há nada de particularmente peculiar nas interações entre os dois. Crowe é inteligente e demonstra uma capacidade praticamente inata para dominar os outros. O seu magnetismo será similar a tantos outros líderes políticos torcionários e assassinos em série sedentos.
A sua presença no cárcere aliado é, de resto, colocada da forma mais simplista e expositiva possível logo na primeira cena. Ali, um grupo de soldados manda parar um carro de luxo e um deles exclama qualquer coisa como “holy shit, it’s Hermann Göring, Hitler’s second in command!“. À falta de melhor exemplo, Nuremberg tem esta preocupação didáctica em praticamente toda a sua duração, como que desconfiado do mais básico conhecimento histórico do seu público. Na verdade, é essa mesma preocupação que leva a que sejamos contemplados com uma longa cena de montagens de imagens explícitas do holocausto a meio de Nuremberg, o que acaba por convocar uma brutalidade que o filme tenta evitar na sua acção. As imagens fazem parte do afamado julgamento, mas ainda que Vanderbilt coloque o nome da cidade no título do seu filme, isto não é cinema de sala de tribunal. À margem do trabalho de Malek, primeiro como playboy que faz truques de magia para impressionar mulheres e crianças, estão Michael Shannon e Richard E. Grant a tentar encontrar forma de condenar Göring, Hess, e restantes comparsas.
O plano de Malek é egoísta, contudo. As suas sessões com Göring fazem parte de uma ideia para um livro sobre a psicologia do mal que este pretende publicar. Na verdade, é Vanderbilt que transforma esta psicologia do mal na banalidade do mesmo. Os passos de Malek imitam os da indiferença daqueles que olharam noutra direcção enquanto milhões morriam no holocausto. É Malek a personagem verdadeiramente interessante aqui, desde o início. Mas a introdução de Crowe como Göring pede emprestado algum do gravitas natural do actor neozelandês e concede a Malek aquele que falta a este. Malek cai no feitiço de Crowe pela sua própria falta de apego a uma noção elementar de humanidade, escudada na sua intenção de procurar a fama e o dinheiro que o livro eventualmente poderá conceder. A cola que o mantém ligado a Crowe é sempre tão mais ténue consoante o argumento de Nuremberg mantém viva uma tendência convencional. A sua matriz é uma renovação do carácter episódico das interacções entre médico e paciente psicopata cristalizado em Mindhunter, por exemplo, a série de David Fincher sobre a identificação de perfis de personalidade em assassinos em série.
Mas ao invés da arte de Fincher para a captura da assepsia banal da monstruosidade humana, somos presenteados com mais convencionalidade formal da parte de Vanderbilt. Nuremberg tem uma identidade visual formatada para os pequenos ecrãs e uma noção dramática adaptada aos telenovelismos televisivos. Tudo isto acaba por fazer dissolver a sua potente mensagem num mar de banalidades e imagens corriqueiras. Se Vanderbilt parece ter tido a mesma noção de Jonathan Glazer perante o ressurgimento dos fascismos no século XXI, a sua capacidade para a ilustrar não se encontra no mesmo plano de potência. Se isto não possui a mesma força cinematográfica, pelo menos que tenha algum do didactismo que lhe está associado.
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Hugo Dinis



