Críticas a Nouvelle Vague, de Richard Linklater

EquipaDezembro 17, 2025

Com os dois filmes que apresentou em 2025, Richard Linklater dedicou-se a um ano de homenagem. Blue Moon, apresentado na última Berlinale e com passagem pelo Leffest, tem sido aplaudido como um dos “filmes do ano”. Nouvelle Vague, que estreia amanhã nas salas de cinema portuguesas, foi recebido com menos entusiasmo. Filme didáctico, reencenação ligeira de cenas da vida de nomes de vulto, filme sobre uma paixão, partilhada, pelo cinema. Linklater conta-nos Godard, os seus começos e o processo radical de realização de À bout de souffle. Nesse seu tributo, o realizador é, em tudo, um cineasta mais tradicional do que o “homenageado” (mesmo quando comparado com À bout de souffle, ainda um dos primeiros passos de Godard), e a referência historicista parece ser aqui… Truffaut. Críticas ao filme por dois tribunos.

 

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Tu és cá uma personagem. Já todos ouvimos ou dissemos isto algum dia. Richard Linklater decerto já o disse de Jean-Luc Godard. Pelo menos é com essa certeza que saímos de Nouvelle Vague, a sua última longa. Para Linklater, Godard é uma fonte infindável de produção de citações, de insolência na realização de cinema, de óculos escuros e cigarro na ponta dos lábios. A caricaturização de Godard tem um propósito neste Nouvelle Vague que nunca se completa verdadeiramente. O filme é sempre muito mais bem disposto do que engraçado, muito mais curioso do que humorístico, de inspiração muito mais cinéfila do que cinematográfica. Na verdade, o melhor que se pode dizer de Nouvelle Vague é que não se leva particularmente a sério. O toque leve de Linklater que tantas vezes produziu trabalhos de admirável fluidez e plasticidade não está particularmente ausente, mas sentem-se as limitações de um argumento unidimensional, mais documental que interessante do ponto de vista cinematográfico. Linklater assume a posição de qualquer cinéfilo que já se sentiu entusiasmado pela força iconoclasta da Nouvelle Vague. Vemos intertítulos de apresentação de figuras emblemáticas do movimento, de Demy e Varda a Rossellini e Rohmer. Vemos versões relativamente anódinas das relações entre Truffaut, Schiffman e Chabrol.

Tudo isto tem um certo interesse de nicho, e não sou imune também a isso, mas não contribui necessariamente para a criação de uma narrativa em torno de personagens que não o chegam verdadeiramente a ser. Em bom rigor, Nouvelle Vague gira essencialmente em torno de Godard e da sua visão sem compromissos para a criação de À bout de souffle. A exasperação de Jean Seberg (Zoey Deutch) e Beau-Beau (Bruno Dreyfürst, o produtor Georges de Beauregard) com os métodos inconvencionais de Godard (Guillaume Marbeck) extraem do guião os momentos de tensão criativa na criação do clássico primeiro filme de Godard, mas Linklater está sempre mais preocupado em conceder leveza às incidências do que em efectivar algum tipo de comentário face ao processo criativo de Jean-Luc (e ainda bem). Na realidade, esse resume-se na icónica citação de Gauguin, aqui repetida por Godard, relativamente à arte ser forçosamente produto de plágio ou resultado de revolução. Nouvelle Vague está pouco interessado em ser o segundo, e não vem disso nada de mal ao mundo, mas já se viu Linklater a extrair mais sumo de material com o mesmo tom aqui empregue, e fica sempre no ar uma sensação de falta de argumento.

Hugo Dinis

 

Carta de amor feita de desdém pelo objecto amado. Cinéfilia de pacote, um porco americano que pensa que tudo serve para ser embalado como produto Netflix. E, claro, todos aplaudem essa leveza no gesto de Linklater. Do desconforto inicial, aos poucos até sorrimos, é certo, por fraqueza, ao relembrarmos aquelas figuras que nos apaixonaram e apaixonam. Se Linklater é labrego, isso não fará dele um mau realizador. Mas aqui, o cinema já vai longe, e isto é uma desgraça. Paris maquilhada de impostura, todos feitos bonequinhos do realizador neste compêndio de cinema, com Godard enquanto fantoche ao centro de uma incessante cascata de aforismos enlatados (provavelmente traduzidos para francês a partir de uma já tradução americana). Um filme sem outro propósito senão o de “celebrar o cinema” enquanto cospe sobre o próprio. E Linklater, insolente descarado, a repetir o filme de Godard (e o título de uma das suas obras maiores). Não, isto tudo não é dégueulasse, é simplesmente uma merda.

Miguel Allen