Park Chan-wook – autor de Oldboy, Handmaiden ou Sympathy for Mr. Vengeance – regressa com uma sátira social sobre o modelo laboral contemporâneo. No Other Choice – Sem Alternativa (어쩔수가없다) coloca Lee Byung-hun na pele de um homem derrotado pelo mercado de trabalho. Cinco tribunos foram ver esta comédia negra e deixam as suas críticas: Carla Rodrigues, Pedro Bastos Oliveira, Paulo Ventura, Hugo Dinis e Rita Costa.
Man-su vivia realizado e feliz com a família até ser despedido da empresa onde trabalhou durante décadas. Apesar de confrontado com uma sensação de vazio e uma grande humilhação, recusa-se a baixar os braços e abdicar do estilo de vida que construiu. À medida que se deixa arrastar pelo desespero, e disposto a tudo para conseguir um posto à sua altura, começa a pôr em prática um plano que transforma a procura de um novo emprego numa sucessão de crimes terríveis.
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Num mundo em que conseguir um emprego implica 400 candidaturas, 300 currículos, 200 portfolios, 100 entrevistas, 50 testes técnicos e provavelmente uma amostra de sangue, No Other Choice não podia ser mais relevante. O novo filme de Park Chan-wook combina humor negro com gravitas para contar a história de Yoo Man-soo (Lee Byung-hun num raro papel de desgraçado), um homem de meia-idade que é despedido depois de 25 anos na mesma fábrica de papel e, sem outra escolha, decide eliminar a concorrência para um novo emprego. Literalmente.
No Other Choice é bastante autoconsciente do exagero da sua premissa e começa por insistir na incapacidade de Man-soo de executar o plano sinistro que engendrou. Afinal, ele não passa de um homem desesperado, aterrorizado com a supressão do seu papel (ah!) tanto na empresa como dentro da própria família, à medida que a sua identidade de provedor se começa a desmoronar. O despedimento, mais que um desastre financeiro, surge como um desastre ontológico. Quando o trabalho e o status são as únicas coisas que sustêm a noção de valor inerente a alguém, perdê-los é uma espécie de morte. Por isso, sem outra escolha que não o absoluto último recurso, Man-soo começa uma jornada desajeitada como assassino.
Mas Park percebe demasiado bem a mecânica da escalada. A incompetência inicial de Man-soo é cómica, e ao mesmo tempo serve para colocar o espectador ao lado dele numa espécie de camaradagem involuntária. A comédia transforma-se em tensão à medida que vemos alguém adaptar-se a um sistema tão desumano que a violência passa a parecer a sua extensão lógica. Afinal de contas, as empresas eliminam trabalhadores para florescer, e Man-soo elimina candidatos pelo mesmo motivo. Poderá ele ser culpado por perpetuar a mecânica do sistema ao qual quer pertencer?
Graças ao diretor de fotografia Kim Woo-hyung, No Other Choice vai mudando de temperatura com Man-soo e refletindo a erosão da sua moralidade. A primeira metade do filme prefere cores vivas, luz quente e confortável, mesmo quando a situação do nosso anti-herói já não o é. Com o mirabolante esquema criminoso a avançar, os tons arrefecem e a iluminação torna-se mais dura. A própria imagem torna-se menos acolhedora. Em termos narrativos, manter o equilíbrio entre o slapstick cómico e a violência crua inerente à premissa poderia ser traiçoeiro, mas Park passa de um registo para o outro com naturalidade. Tudo faz sentido neste mundo de cada um por si (a violência alimenta a comédia, e a comédia alimenta a violência), e a troca de registo ajuda a manter o ritmo arejado ao longo das mais de duas horas de filme.
Desde o início que, apesar dos exageros, é desconfortável o quão reconhecível tudo isto é. Não o homicídio (esperamos). O resto. A frustração de mandar dezenas de candidaturas para um vazio digital, o constrangimento das entrevistas infinitas, a necessidade absurda de fingir entusiasmo por um cargo mediano, os formulários que obrigam a repetir tudo o que já está no currículo e os emails automáticos que chegam às duas da manhã para agradecer o interesse. Ao longo do filme essas pequenas desumanizações vão-se acumulando, e, quando surgem as imagens finais da produção de papel impecavelmente automatizada, percebe-se que são a sua continuação definitiva: primeiro tratam-se pessoas como processos, depois substituem-se por eles. A fábrica prossegue. A produtividade dispara. O sistema funciona melhor do que nunca. O único elemento incompatível foi sempre o humano.
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Carla Rodrigues

A Coreia tornou-se um palco internacional da cultura popular – cujos maiores exemplos são a série “Squid Game” (2021-2025) e os BTS. O fenômeno é tão vasto que arrasta consigo outras camadas/nichos culturais, anteriormente desprezados pelo mercado, mas cada vez mais presentes nos dias de hoje. Provavelmente, esse abalo foi responsável pelo Óscar de Melhor Filme de Parasitas (2019), mas também pela estreia, nas salas de Portugal, do novo filme do cineasta de culto Park Chan-wook, “Sem Alternativa”, algo impensável de se imaginar no início do século.
No filme anterior – “Decisão de Partir” (2021) – Park Chan-wook realiza um thriller policial hitchcockiano (Park é um dos herdeiros naturais do mestre do suspense), mas num estilo digital, marcado pelo uso recorrente de smartphones na narrativa ou por uma fotografia com profundidade de campo e nitidez imensas – como se fosse uma câmara smartphone. Em “Sem Alternativa”, o estilo repete-se (relativamente novo na sua filmografia), formalizando-se num comentário satírico do mundo moderno. A história é sobre Man-su, um trabalhador coreano (interpretado pelo ator de Squid Game, Lee Byung-hun) que é despedido, sofrendo com a passagem do capitalismo industrial para um capitalismo financeiro – onde a força de trabalho humana não é apenas desvalorizada, mas dispensável. Man-su perde muito – enfrentando o mundo do desemprego, do CVs, das entrevistas, dos cortes de gastos –, sobretudo, a honra de produzir, responsável pela providência da sua família.
A narrativa está no domínio da comédia negra: Man-su, depois de vários insucessos na busca de um emprego, decide matar a competição, ou seja, outros concorrentes, também eles despedidos e desesperados, situação idêntica à do protagonista. Há uma intenção evidente de rirmo-nos do estado da condição humana, onde a competição selvagem da força trabalho, alimentada pela perda ou desejo de uma vida prometida, leva-nos a matar – não o outro, mas o semelhante –, como se fosse um súicidio externalizado, não do indivíduo, mas da nossa humanidade. Park pretende confrontar-nos esta bizarria, num sorriso desconfortável e permanente. A realização é, como o realizador nos habituou, extravagante e ruidosa. Se há autores contemporâneos que se preocupam com o vazio e o silêncio, Park pretende o oposto, preenchendo a tela com montagens constantes, música barulhenta (da clássica, como Kubrick, à pop como Tarantino), e composições de plano sempre visíveis. A premissa é construída na sua sobre-evidência, simbolizada na imagem de um homem que usa um vaso como arma, sustentando-o por cima da cabeça, enquanto pingas de água da rega caem-lhe na cabeça, como suor. Contudo, por causa desta sobre-evidência, a ideia esgota-se rapidamente. O filme arrasta-se demasiado, tendo dificuldade em desenrolar um nó difícil de desatar. Ainda assim, o filme é perversamente divertido, uma nova adição a uma filmografia (que já era) must-watch.
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Pedro Bastos de Oliveira

No entusiasmo polido e plastificado do sonho americano – neste caso, adotado pela Coreia do Sul – No Other Choice apresenta-nos uma família perfeita, unida e feliz, com os seus dois Golden Retrievers, num churrasco no jardim da sua bela casa, onde Man-su (Lee Byung-hun) sorri nos braços da esposa e dos filhos, antes de perder o seu emprego e todo o estatuto inerente à figura do “Homem” de classe média. Inúmeras leituras políticas e sociais poderão surgir: uma crítica ao capitalismo – sistema que se mostra menos sustentável a cada geração que passa; uma análise cómica da guerra interna de uma classe social, por consequência do crescimento desenfreado da outra; um questionamento do papel do homem como centro de uma sociedade patriarcal; ou ainda um comentário ao avanço das tecnologias que substituem o humano nas suas funções profissionais, numa sociedade que detém o trabalho como elemento identitário dos seus sujeitos. No Other Choice distingue-se, no entanto, pela sua recusa em se comprometer plenamente com qualquer uma das leituras, valorizando a atitude da sua mensagem acima do seu conteúdo. Não se trata de um filme de tese, mas de superfície – uma superfície cínica e plástica que nos arrasta de ato em ato através de uma narrativa imprevisível, que se arrisca até aos limites do credível com energia e humor.
É neste tom de leveza que No Other Choice faz avançar o seu comentário, sem nunca forçar o espelhamento total com a realidade que procura julgar, nem ceder a sua identidade dramática e estética, sendo o vínculo entre a temática e a tonalidade marcado pelo atrito, num registo cómico constantemente atacado por um sarcasmo que o denuncia. Todo o trabalho de câmara é divertidamente conectado com as excelentes escolhas de montagem, que mantêm o ritmo do avanço narrativo coerente, sem desperdiçar qualquer oportunidade de ousadia ou criatividade. O equilíbrio entre o storytelling satírico e a experimentação visual é constante e garante uma construção harmoniosa sem nunca se limitar ao convencional. A simplicidade tem o seu espaço, obviamente, mas esta surge numa espécie de relação inversamente proporcional, que respeita os limites do olhar do espectador: à medida que o enquadramento e a encenação se tornam mais neutros, a montagem assume o trabalho expressivo; quando a realização e a mise-en-scène se complexificam, a montagem recua e aguarda a sua vez de brilhar.
Se uma crítica negativa pode ser feita, é a de que o drama nunca chega a pesar no espectador, por consequência da ridicularização constante das personagens, das situações e do tema em questão. Não acho, no entanto, que tal falta de profundidade dramática chegue, em algum momento, a retirar o valor de uma obra que nunca se propõe a qualquer tipo de aprofundamento. No Other Choice vive da dicotomia entre a seriedade do que vemos em tela e a leveza do género proposto – o contraste entre o tema e o tom – o que poderá alimentar o desconforto de quem procura valorizá-lo pela mensagem e não pela ousadia. Park Chan-wook não se mostra interessado em explorar de forma analítica a complexidade das dinâmicas da classe trabalhadora no avanço da automatização tecnológica do mercado de trabalho, nem em argumentar sobre o aumento do desemprego ou as incoerências do capitalismo moderno. Há uma aura de cinismo constante que impede o espectador de penetrar totalmente no universo apresentado, mas que, em simultâneo, iguala a frieza do sistema exageradamente retratado. Não se trata de um panfleto ou de um manifesto, mas de uma espécie de caricatura divertida e exorbitante, que satiriza sem exigir ser levada a sério – o gesto deliberado de um bobo da corte que prefere rir do desmoronamento do castelo a assumir o peso das suas ruínas.
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Paulo Ventura

Ao encerrar No Other Choice, vemos uma dedicatória a Costa Gavras. Este é o filme de Park que mais abertamente procura lidar com o tecno-feudalismo crepitante que inevitavelmente nos condenará a todos. Ao cavalgar numa direcção pouco explorada, Park não abdica dos seus tiques formalistas, contudo. No Other Choice, ao som do trio para piano de Schubert que se fundiu ao kubrickianismo pela mão de Barry Lyndon, encerra em si um sem-número de transições de planos e cenas inventivos e enquadramentos inconvencionais. A história em si é mais convencional, contudo. Seguimos Man-soo (Lee Byung-hun), um middle manager numa empresa de papel, despedido depois de uma aparente fusão com um grupo de investidores americanos. Man-soo é um activista pela sindicalização dos trabalhadores na fábrica, com uma vida familiar que “tem tudo”: uma mulher que ama, uma filha precoce a tirar aulas de violoncelo, e dois cães com casotas elaboradas. Tal como em Parasite de Bong Joon-ho, a casa de família é um motivo recorrente em todo o filme. A família de Man-soo não é propriamente de classe alta, mas certamente que se enquadra numa concepção de classe média-alta com tiques de auto-preservação. A casa foi meticulosamente trabalhada por Man-soo, adquirida a muito custo depois de anos de trabalho na empresa e moldada na imagem da sua casa de infância.
A história de Man-soo é a de quem se recusa a encarar a perspectiva de perda de mobilidade ascendente na sociedade coreana. Após o despedimento, o que assola os seus pesadelos não é a perspectiva de perda da sua família, do divórcio, ou sequer da casa, mas antes a possibilidade de abdicar desses confortos para ir viver para os subúrbios num condomínio qualquer. A partir desta premissa, podemos logo vislumbrar o desenrolar do filme, contudo. A colocação do trabalhador ao serviço da máquina leva inevitavelmente à sua desumanização. Apenas assim se poderá manter na força de trabalho. Não é, claro, ocasional que Park tenha escolhido uma indústria transformadora, profundamente marcada pela perspectiva do seu próprio desaparecimento, para centrar a acção. Na verdade, torna-a menos universal e mais desumanizadora. A substituição da força de trabalho pela automatização é já um processo de várias décadas, que agora se estende, pela força da inteligência artificial, às actividades terciárias. Por outro lado, a cultura laboral impiedosa na Coreia é vista do lado de fora, pelo grau da perda de dignidade do despedido.
A viagem de Park pela violência crescente de Man-soo, numa alusão ao Kind Hearts and Coronets de Robert Hamer, aproxima o seu protagonista do niilismo esvaziador de um American Psycho do mundo laboral. A sua noção pessoal nunca se desvia da sua autoimagem enquanto gerente na indústria do papel. Não há outra hipótese, nem sequer outra ideia. Quando ouve essa mesma noção da boca de gente na sua mesmíssima condição, a sua reacção imediata é a de incompreensão. Na verdade, é apenas a atomização egocêntrica do trabalhador de hoje a falar. Num mundo onde, para sobreviver com uma vivenda e uma mulher que joga ténis nos tempos livres, é preciso abraçar essa desumanização. Park vê isso tudo sem rodeios, mas demonstra uma real dificuldade em abraçar um tom constante que possa transportar a narrativa para além dos seus desenlaces antecipados. Man-soo livra-se dos seus concorrentes com um desleixo cómico que bruscamente se converte em frieza dramática. Os olhares vazios que troca com a mulher contrastam com a dança que havia treinado com ela para o baile. O homem vai perder e ganhar ao mesmo tempo. A mesma sensação temos ao ver este No Other Choice.
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Hugo Dinis

Em No Other Choice, Park Chan-wook pega no colapso suave do capitalismo tardio e transforma-o numa comédia negra desconfortavelmente plausível. Yoo Man-su trabalha há anos numa fábrica de papel quando é dispensado com o vocabulário corporativo do costume: consolidação, otimização, inevitabilidade. Não há alternativa. A ironia é que o filme leva essa frase à letra. Se o mercado é uma guerra silenciosa, ele decide tratá-la como tal. O gesto inicial parece excessivo, mas revela-se coerente com o mundo que retrata. Num tempo em que a automação e a inteligência artificial prometem eficiência enquanto substituem pessoas, acompanhar um homem ligado a uma indústria quase obsoleta torna-se inevitavelmente simbólico. O que impressiona mais é a forma como o filme equilibra sátira e suspense. Há humor, há momentos quase burlescos, mas também uma tensão constante. Visualmente, é difícil não admirar: travellings fluidos, transições inventivas, um uso da luz e da natureza que contrasta com a frieza industrial. Ainda assim, senti que a ideia é mais forte do que a experiência emocional que provoca. Saí a pensar mais do que a sentir. O final, no entanto, fecha com uma ironia amarga que encaixa perfeitamente neste mundo onde o trabalhador é sempre o primeiro a ser descartado.
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Rita Costa



