Críticas a Natal Amargo, de Pedro Almodóvar – Autoficção

EquipaSetembro 29, 2026

Regresso de Pedro Almodóvar, através de nova “autoficção” – as angústias de Raúl, “cineasta de culto” em plena crise criativa. Amarga Navidad (“Natal Amargo“) foi apresentado em competição no último Festival de Cannes, com Almodóvar a revisitar o processo de criação cinematográfica, já explorado em Dolor y gloria. Três criticos da tribuna abordam o filme.

 

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Quem vê Amarga Navidad sem saber quem é o realizador, rapidamente apostará em Pedro Almodóvar. A sua assinatura está em todo o lado: paleta cromática inconfundível, ambientes de film noir, canções que tomam conta da cena, casas de arquiteto, metanarrativa, personagens em conflito interior, luto, doença, drama e até strippers. Poderia dizer-se que Amarga Navidad é mais do mesmo mas, ainda que menos inspirado, Almodóvar continua a fazer bem aquilo de que mais gosta. E para quem gosta desse universo, reencontrá-lo pode ser tão bom como vê-lo reinventar-se.

Começamos por acompanhar um dia na vida de Elsa (Bárbara Lennie), realizadora cujo namorado é bombeiro e também stripper nas horas vagas. Na época das festas Elsa é acometida por uma terrível enxaqueca e rapidamente percebe que pode estar associada a algumas dores com que preferiu não lidar no último ano. Mas afinal não é só a história de Elsa que acompanhamos, é também a de Patricia (Victoria Luengo), uma amiga infeliz no casamento, e a de Natalia (Milena Smit), que não consegue superar uma perda. E em paralelo temos Raul (Leonardo Sbaraglia), guionista que escreve esta história, o seu companheiro Santi (Quim Gutiérrez) e a sua assistente Mónica (Aitana Sánchez-Gijón). Todas as personagens teriam potencial para serem mais exploradas, mas Almodóvar acaba por não fazê-lo ao longo de uma trama que por vezes parece trazer mais uma história só porque sim. É então que a magia da metanarrativa opera. A obra dentro da obra é criticada pelas mesmas fragilidades que acabámos de lhe encontrar, dando ao guionista matéria para uma nova versão.

Almodóvar aborda vários temas, mas o que mais se destaca acaba por ser o do criador-vampiro, que por uma boa história é capaz de pôr em risco as próprias relações de que se alimenta para encontrar inspiração. Podemos afinal servir-nos das histórias de quem nos rodeia sem limites de ética ou pudor, tudo em nome da arte? A questão fica em aberto, tal como tantas outras peças deste mosaico que talvez nos pudessem ter tocado mais, houvesse tempo para permanecer um pouco mais junto delas.

Ana Matos

 

A este ponto já o ímpeto auto-ficcional de Pedro Almodóvar sugere muito mais do que apenas a sua conciliação com a morte. Levado ao extremo da paródia em La habitación de al lado, este Amarga Navidad vai mais longe do que apenas uma examinação da aproximação da finalidade. Com o invólucro de uma narrativa dentro de outra (em efeito presenteando Almodóvar a fazer um filme sobre Almodóvar a fazer um filme) está a conciliação do próprio com o seu trabalho. A bom da verdade, as personagens de Amarga Navidad nunca deixam de trabalhar. Na cena definidora, Raúl (Leonardo Sbaraglia), o nosso protagonista realizador de cinema não deixa de repreender a agente (Aitana Sánchez-Gijón) por não entender a sua persistência na ideia de fazer mais outro filme após uma carreira que parece ter atingido a fase descendente. Para Sbaraglia, o artista está em constante competição. Esse protagonista não enfrenta propriamente um writer’s block, antes o confronto com a realização de que… acabou. À medida que a sua insistência no processo criativo se revela cada vez mais (auto-)destrutiva, Sbaraglia vira-se para a auto-ficção.

A personagem sobre qual vai escrevendo, uma realizadora de publicidade (Bárbara Lennie) a braços com uma relação com bombeiro stripper (Patrick Criado) e uma vaga de ataques de pânico debilitantes, está em movimento constante, mas sobretudo mutação permanente. A forma ternurenta com que Almodóvar filma a relação entre bombeiro e autora é, de resto, o que sustenta esta ficção dentro de outra ficção. E quem o reconhece é a própria agente de Sbaraglia. Porquê não escrever sobre a relação entre os dois?, diz. Em muitos aspectos, Almodóvar parece ter feito um filme falho e uma sequência de críticas às suas debilidades: o processo criativo resumido. A voracidade com que Lennie e Sbaraglia consomem o que lhes rodeia para queimar no altar da criação artística tem um espelho no ímpeto que assiste Sbaraglia na sua cruzada inquisitória junto de Sánchez-Gijón. Se este tipo de comentário já tinha sido eventualmente mais ágil em trabalhos anteriores de Almodóvar como Dolor y gloria, em Amarga Navidad pelo menos tem o condão de se apresentar como mais honesto, ainda que forçosamente não o será. Até porque o artista tem de estar em constante competição.

Hugo Dinis

 

As angústias de um artista à procura da sua próxima obra é um tema já tratado no cinema de Almodóvar, que esteve, este ano, de volta à competição de Cannes pela sétima vez, ainda à procura da Palma de Ouro que lhe falta na carreira. E talvez por isso, o realizador espanhol tenha optado por um filme cauteloso, menos estridente e exuberante. Amarga Navidad volta ao processo criativo de um realizador de cinema, como acontecia em Dor e Glória, que o Festival de Cannes premiou em 2019, através do desempenho de Antonio Banderas e da banda sonora de Alberto Iglesias. Neste novo filme, o título em inglês “Bitter Christmas” situa a história na quadra festiva, que se revela mesmo muito amarga para algumas das personagens. Uma realizadora de cinema, que entretanto decidiu passar para a publicidade, vai parar ao hospital com uma crise aguda de enxaquecas e ataques de pânico. A amiga dela descobre que o marido tem um caso e afunda-se numa mágoa profunda. Um realizador de cinema está a escrever uma história que decalca episódios da vida real da sua assistente e amiga de longa data. E ela tirou um tempo de férias para se dedicar a uma amiga muito doente. O habitual emaranhado de narrativas do cinema de Almodóvar continua a ser uma marca muito evidente, assim como a estética, os planos cuidados, a elegância ou as cores. O que falta é alguma intensidade para que todas as histórias atinjam a dimensão do cinema a que o realizador nos habitou. Pedro Almodóvar está no domínio pleno da linguagem melodramática que criou, mas parece demasiado instalado no divã da terapia que, aparentemente, o cinema lhe consegue proporcionar. Amarga Navidad não evita a sensação amarga de ser uma repetição de algo que já vimos e arrisco dizer que a comparação com Dor e Glória deixa o novo filme muito abaixo da fasquia.

Lara Marques Pereira