Críticas a Mutiny, de Jean-François Richet – O Herói Anti-Contextual

EquipaSetembro 1, 2026

Novo regresso do herói. Em Mutiny, Jason Statham é Cole Reed, antigo membro das forças especiais reconvertido em chefe de segurança de um magnata tailandês. Acusado do assassinato do seu patrão, Reed vê-se a braços com uma conspiração internacional que o levará, inevitavelmente, a espalhar violentamente a sua vingança por terra e alto-mar. Não será uma das surpresas do ano, e o desafio talvez esteja menos em descobrir o que um novo Jason Statham tem para nos oferecer do que em perceber se ainda faz sentido considerar individualmente cada um destes filmes, ou se será preferível apreciá-los sobre a tela mais vasta dessa consistente filmografia serial do actor. Como sempre, dois tribunos não faltaram ao encontro anual com a estrela dos filmes de acção.

 

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A este ponto não há muito a dizer. Mutiny é mais um vaso comunicante da longa saga de filmes de vingança com o protagonismo de Jason Statham. Muitos destes filmes, e Mutiny não foge a essa regra, não apresentam Statham como uma pessoa real, mas antes como um super herói, imune aos murros, tiros, quedas e facadas a que é sujeito, a caminho da sua missão de vida. A missão, essa, também não foge ao padrão. Em Mutiny, Statham parte em busca dos assassinos do seu patrão, ainda que acabe por tropeçar numa mortífera rede de tráfico de seres humanos a caminho. A escolha de vilões assume sempre uma escola de pensamento quase anti-contextual. É preciso arranjar gente indiscutivelmente malvada, acima de qualquer carga social ou política que lhes possa ser imputada. Na verdade, a propaganda dos filmes de Statham passa muito mais pela realização do arquétipo individualista, o homem que impõe a sua lei perante imoralidades várias, do que pela convenção do vilão geopolítico de outras eras. Mutiny, tal como The Beekeeper ou Shelter antes de si, evoca uma imagem de esvaziamento identitário colocado ao serviço de uma máquina de imposição formal. Statham despacha vilões das mais variadas formas, com graus de crescente violência, e recursos de reforçada criatividade. Mas nunca deixa de os despachar.

Não se poderá dizer que alguém vá ao engano quando compra um bilhete para este tipo de filme. De forma similar, os filmes de vingança de Statham funcionam como um espectáculo que já sabemos à partida como se desenrolará e sobretudo como acabará. A comparação ao wrestling não será apta, contudo. Afinal, ainda que pré-determinados à partida, os combates seguem uma lógica telenovelística que reforça a necessidade de uma escrita teatralizada, dedicada à imposição do dramático. Ora, em Statham não há nada de dramático. Quando o seu chefe e amigo de longa data é assassinado numa emboscada no trânsito de Banguecoque, ou quando a personagem de Annabelle Wallis lhe conta da sua frustração por não estar mais presente na vida da filha, as reacções de Statham não são inesperadas, nem tão pouco aturadas. Estes rabiscos narrativos são pedaços de estuque desenhado a cair da parede emocional de Statham no espaço de trinta segundos de filme. Na verdade, Mutiny é sobretudo mais uma sólida intervenção no cânone de vinganças de Statham. Desenhado no espaço de um cargueiro marítimo, Jean-François Richet não olha a modos para se servir de contextos para colocar ao serviço da longa matança do nosso herói anti-contextual. Favor colocar, pois, Mutiny na gaveta de The Beekeeper ou Shelter em vez de na de A Working Man, por exemplo.

Hugo Dinis

 

Ao longo do tempo fomos deixando crescer no nosso imaginário o conceito de que Jason Statham, herói de acção dos anos 90 catapultado para os dias de hoje, faz “um filme destes” todos os anos. Não é bem assim. Entre Mechanic: Ressurection (2016) e The Beekeper (2024) passaram-se 8 anos em que Statham (aproximando-se dos 60 anos) tentou descolar do arquétipo “lobo solitário vinga-se de bandidos”. Entre colaborações com Guy Ritchie, Velocidades Furiosas, e tubarões gigantes, Statham, que é genuinamente um actor com alguma versatilidade, demorou a aceitar entrar nesta corrente de filmes de acção recuperadas por Beekeeper e que desde então já nos trouxe A Working Man e Shelter, um mau, outro bom.

Ao ver Mutiny todos já sabem ao que vão e estão bem avisados. Statham interpretará um durão num filme de acção bastante horizontal sem espaço para grandes criações. Ultrapassada essa verdade evidente, resta apreciar a boa aplicação das regras do cinema de acção dos anos 80/90 que a obra de Statham abraçou. Mutiny é um bom filme de acção. Não tem o nível de criatividade de Beekeeper, mas não precisa. A grande valência de Mutiny está na sua capacidade de mimetizar esses filmes mais antigos e na grande audácia de o conseguir estrear em cinema. A comparação mais directa será com Under Siege (1992), conhecido entre nós como Força em Alerta, um dos filmes fundacionais do estilo, protagonizado por Steven Seagal, claro.

Único resistente num navio de bandidos, e em busca de vingança, Statham unirá esforços com a necessária personagem feminina interpretada por Annabelle Wallis, para derrubar um esquema de tráfico humano a bordo de um cargueiro. A filosofia e modus operandi de ambos os heróis dirá qualquer coisa ao público alvo de Mutiny. Se por um lado Statham é um homem experiente com um forte código de honra, Wallis é uma mãe solteira a reconstruir a sua vida depois uma relação que deixou sequelas. É como se o filme estivesse a falar para um público generalizado decididamente não jovem. Aqui não existe glamour, grande sentido de humor ou momentos doces, ou outros elementos que de alguma forma falem com alguém fora do público de irredutíveis que ainda vai ao cinema ver um filme como Mutiny em 2026. Numa era em que produções semelhantes, mas ainda protagonizadas por velhas referências como Van Damme, Lundgren ou Seagal, são apostas de baixo orçamento e vão directamente para vídeo, acaba por ser nas produções do astro de acção britânico Jason Statham que os fãs de acção da velha guarda encontram refúgio. Com uma execução perfeitamente competente, e uma narrativa minimalista que pinta os seus heróis e vilões com aura quanto baste, Mutiny é um filme muito bem-vindo. Venham mais todos os anos.

David Bernardino