Críticas a Mr. Nobody Against Putin, de David Borenstein

EquipaMarço 13, 2026

Fez recentemente quatro anos que a Rússia invadiu a Ucrânia, dando início à guerra que hoje assola a Europa. Um tema escassamente abordado pelo cinema, apesar da sua importância. Em Mr. Nobody Against Putin, David Borenstein procura mostrar de uma forma directa como a propaganda do Estado se infiltra no ensino russo. Confrontado com o dilema ético de colaborar com um sistema marcado pela propaganda e pela violência, Pavel Talankin, um professor, decide filmar o que realmente está a acontecer na sua própria escola. Rita Costa, Ana Matos e Hugo Dinis escrevem sobre o filme.

 

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Mr. Nobody Against Putin não se destaca pelo trabalho formal nem pela construção cinematográfica. A realização é funcional, por vezes rudimentar, e dificilmente se pode falar de uma proposta estética consistente. Ainda assim, o filme impõe-se pela importância da história que documenta. O ponto de partida é simples. Pavel Talankin, professor numa pequena cidade russa, começa por filmar o quotidiano da escola onde trabalha. À medida que a guerra na Ucrânia se torna presença constante na vida política do país, o espaço escolar transforma-se gradualmente num instrumento de propaganda estatal. O que inicialmente parecem actividades educativas comuns (cerimónias, discursos, eventos escolares), começam a revelar um sistema cuidadosamente organizado de doutrinação patriótica. O filme acompanha esse processo. Não há grande narrativa nem uma construção particularmente sofisticada. A câmara funciona sobretudo como testemunho. É precisamente essa simplicidade que permite observar a forma como a ideologia se infiltra no quotidiano mais banal. Crianças são chamadas a participar em rituais militares simbólicos, discursos políticos entram nas salas de aula e o vocabulário da guerra passa a fazer parte da pedagogia. Em termos cinematográficos, Mr. Nobody Against Putin raramente vai além do registo documental básico. A imagem é muitas vezes irregular e a montagem limita-se a organizar o material recolhido. Não há nada que procure transformar essa matéria em algo mais elaborado. Mas a relevância do filme não está aí. O seu valor reside sobretudo no acesso que oferece a um processo raramente visível: a forma como um regime utiliza a escola para produzir consenso e normalizar a guerra desde a infância. Não é um grande objecto de cinema, mas permanece relevante como documento de um momento político específico e inquietante.

Rita Costa

 

Mr. Nobody Against Putin anuncia desde logo um confronto que parece profundamente desigual: aquilo que poderíamos descrever como um “zé ninguém” contra o grande líder Putin. A premissa sugere um embate improvável, tendo como pano de fundo o quotidiano de uma pequena cidade russa. Acompanhamos a vida de um professor que dinamiza eventos e é responsável pelo arquivo audiovisual da escola, passando grande parte do tempo a filmar atividades dos alunos. Essa posição dá-lhe um acesso privilegiado ao quotidiano da escola e transforma a câmara numa espécie de testemunha permanente do que ali se passa. O documentário teria potencial para ganhar uma certa aura dramática, mas o sentido de humor do professor equilibra o tom, nomeadamente ao apresentar a cidade onde vive, uma das mais poluídas do mundo, num registo que oscila entre ironia e carinho.

O espectador tem então acesso a uma realidade aparentemente banal, que sofre uma transformação clara no momento em que se dá a invasão da Ucrânia. A partir daí, instala-se um clima diferente, marcado pela apreensão de que muitos daqueles jovens venham a ser enviados para a guerra, com a possibilidade real de perderem a vida. A atmosfera que existia antes, mais leve, quase despreocupada, dá lugar a um ambiente progressivamente mais pesado e asfixiante. As crianças passam a integrar nas suas rotinas exercícios patrióticos destinados a reforçar a narrativa oficial. Membros do Grupo Wagner vão à escola fazer demonstrações, chegando a colocar armas nas mãos dos alunos, numa operação de recrutamento feita às claras.

O mais fascinante neste documentário é que esta realidade nos é mostrada de forma direta. Tudo deve ser filmado como prova de que as diretrizes estão a ser cumpridas, enquanto as crianças repetem guiões que possivelmente nem entendem. À medida que o filme avança, percebemos que o risco é real. O que está a ser registado é precisamente aquilo que nunca deveria sair daquele contexto. O próprio professor começa a sentir o cerco apertar e acaba por deixar o país, pedindo asilo na Europa depois de recolher estas imagens. Mr. Nobody Against Putin dá-nos uma perspetiva rara, a de um cidadão anónimo, que nos permite mergulhar no dia-a-dia de uma escola russa durante um período de transformação política muito intensa. É dessa perspetiva que nasce a grande ironia do filme: a câmara destinada a servir a propaganda do regime acaba por transformar-se no seu mais poderoso instrumento de denúncia.

Ana Matos

 

No complexo industrial de documentários sobre a guerra na Ucrânia, Mr. Nobody Against Putin é um filme diferente. Desde logo, porque, conforme nos informa no seu título, não coloca o seu protagonista num patamar de evidência. O Mr. Nobody de que este fala é um simples professor numa escola num vilarejo remoto reconhecido por ser o “local mais tóxico do mundo”. Não que o seja à partida, pelo menos explicitamente, por razões políticas. Na verdade, Pavel Talankin, o professor em causa, logo se apressa a informar o espectador de que a vida na pequena cidade de Karabash, perto dos montes Urais, não é assim tão má como aparenta ser à primeira vista. E a vista é certamente desoladora: as montanhas, negras como resultado da poluição emitida pela enorme central de carvão da localidade, cercam a população como se de um abraço de urso se tratasse. Por certo, a jovialidade e o tom descomprometido de Talankin têm o condão de nos colocar em pé de igualdade com alguém que vive num país em estado de guerra, mas também se enroscam num insidioso sentido de ironia que coloca o regime no mesmo pé de ridículo com que nós por cá o vemos.

Talankin é, de resto, um optimista por natureza. O entusiasmo genuíno que demonstra pelo ensino e pela aprendizagem empurram-no para relações de proximidade invulgares com os seus alunos. Mas, ao contrário do que seria possível pensar, e certamente que Mr. Nobody Against Putin a isso alude, não é a sua mera juventude ou boa disposição que fazem aproximar destes teenagers. Muito embora o documentário não perca muito tempo a formalizar o discurso político subjacente ao regime, a sua virtude é resumida num pequeno clipe no qual Putin, da forma absoluta e desbragada que se lhe reconhece, afirma que são os professores e não os generais que vencem as guerras. E aqui percebemos por inteiro a posição moral de Talankin.

A interferência dos inúmeros eventos e momentos de propaganda, tão entusiasticamente promovidos pelo cacique local, também ele professor e colega de Talankin, tudo irão consumir à sua volta com o galopar do tempo e os rufares dos tambores de guerra. O que Talankin nos conta é que a força da propagandização facilmente engalfinha as mentes mais moldáveis se esta for substituir o papel central da educação. Putin não será certamente o único a fazê-lo, mas há na irreverência inconformista de Talankin uma simplicidade que o denuncia como torcionário mais facilmente do que qualquer estatística sobre o resultado da invasão ucraniana. E esse também pode ser o papel do cinema.

Hugo Dinis