Em tempos de profusão de biopics musicais e de uma nostalgia que se tornou sistémica na produção de cultura popular, chega-nos o necessário, e necessariamente problemático, filme sobre Michael Jackson. Michael é realizado por Antoine Fuqua (Training Day, The Equalizer) e protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor. O filme tem sido um sucesso de bilheteira, ao mesmo tempo que é arrasado pela crítica. Dois tribunos foram ver o filme.
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A primeira imagem que vemos de Michael Jackson confirma-nos ao que vimos, caso ainda não soubéssemos. Surge ainda antes da imitação de feira do sobrinho, Jafaar Jackson, nos genéricos iniciais, sob a égide da Optimum Productions, a produtora do astro na década de 80, ressuscitada para este biopic que exuma a iconografia, os videoclipes, os passos de dança e os concertos do cantor no auge da sua fama nos anos 80. Uma produção como o nome indica – otimizada, milimetricamente calculada para extrair o máximo valor monetário do cadáver mais rentável da história da música.
De fora fica tudo o que não encaixa neste empreendimento: qualquer complexidade, a mais pequena ruga ou rasgo que permitisse ao filme subir um degrau acima do grau zero, desta coisa absolutamente néscia, infantil, escrita e filmada a um nível de compreensão de ensino básico e insultuosa para qualquer espectador que não subscreva a pandilha do “deixa lá, é para divertir”. Nem precisamos de ir às alegações: não há nada sobre Jackson enquanto pessoa, o seu espírito criativo, o seu olho para o negócio, o seu papel enquanto superestrela negra num meio hostil, as suas colaborações com os irmãos ou com Quincy Jones, aqui reduzidos a meros figurantes. Michael é perfeito, um messias musical a quem tudo chega sem esforço. Estruturalmente, quase nem podemos bem falar de um “filme”, dada a frequência com que se rende a mera série de recriações fiéis das atuações dos Jackson 5, dos videoclipes de Thriller ou do famoso moonwalk. Nestes momentos, é quase como se o próprio filme desistisse de si mesmo, resignado à evidência de que os acólitos de Michael Jackson, os que levam chapéu e luva branca para a sala de cinema, estão-se nas tintas para tudo o que complique a sua imagem juvenil do ídolo.
Qual é a atração por este tipo de exercício? Um ritual para os convertidos reforçarem o seu laço a um produto que lhes é vendido ad eternum que nem Coca-Cola? Ouvir as músicas num sistema de som de cinema é giro, pronto, está bem, e depois? É que os concertos e os videoclipes reais existem, estão no YouTube e são melhores do que qualquer reconstituição. Fora isso (e Colman Domingo, absolutamente determinado em fazer do seu arquétipo de pai tirano a única coisa minimamente tolerável e que se assemelha a uma personagem), não sobra nada para analisar, nada sobre o qual refletir. Apenas a ameaça de uma segunda parte num letreiro que nos garante que “his story continues” – a insinuação é inquietante, dado tudo aquilo que sabemos que aí vem –, qual “Os Vingadores vão regressar”. No fundo é apropriado: mais do que a já ultrapassada máquina Marvel, Michael tipifica o blockbuster montanha-russa dos nossos tempos. Descartável, desolador e profundamente deprimente.
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André Filipe Antunes

Nos dias que correm, o desaparecimento social dos super heróis tem levado à proliferação do biopic de alguns dos nomes cimeiros da história da música. Por todas as razões e mais algumas, Michael Jackson será, porventura, a mais complexa de todas essas figuras. Envolvido num sem-número de casos, de pedofilia a fraude, Michael não deixa de ser um dos grandes da pop. Essa conjugação de simples factos desde logo complicaria a tarefa de um veterano como Antoine Fuqua na composição de um filme sobre este novo-velho super herói. Assim o seria, pelo menos, na teoria. Na prática, Michael é um filme extraordinariamente simples na forma como simplesmente se permite ignorar toda e qualquer esguelha de multidimensionalidade em qualquer uma das suas personagens. Em especial a do seu protagonista. Tendo sido vitima de abuso doméstico da parte de um pai dominador (Colman Domingo) na busca do estrelato musical, Jackson carregava o fardo de ser o elemento mais jovem dos Jackson 5, colocado de forma prematura sob a força dos holofotes. Do ponto de vista narrativo, este é o maior, e na verdade único, ponto de inflexão de Michael. Mas ao invés de procurar algum tipo de introspecção e compreensão, Fuqua opta pelo mesmo triunfalismo que sempre vemos nestes biopics.
Michael é uma criança no corpo de um adulto a partir do momento em que Jaafar Jackson (o sobrinho) o encarna, permitindo a Fuqua ilibar-se de qualquer das consequências futuras da sua infantilização. Ao invés, vemos Jackson num processo de canonização avançada em curso: a assinar autógrafos para crianças de forma compulsiva, a cantar para portadores de deficiência, a visitar crianças em unidades de cuidados intensivos. O que nos traz ao cerne do que realmente Michael é – um elaborado, mas pouco velado, exercício de relações públicas. A questão que Fuqua parece querer colocar, contudo, é a mesma da lógica do fã. Se não podemos propriamente conhecer e entender o homem, e certamente que agora muito menos, então porque não simplesmente desfrutar da sua música? E aí é inegável que Fuqua tem sucesso. Os êxitos de Michael são múltiplos e para todos os gostos, em especial os contemporâneos. As performances ao vivo, com destaque para uma rendição de Human Nature na tournée derradeira dos Five, são recuperadas e restauradas com uma impressionante qualidade de som. Do ponto de vista melómano, é um inegável sucesso. Como objecto fílmico, contudo, Michael é uma não-entidade. Algo que existe apenas para servir de veículo para a música. O completo oposto do memorável vídeo de Thriller, por exemplo.
É difícil de compreender o alcance de uma figura como Jacko aos olhos de agora. O sucesso de Thriller foi mais do que ubíquo. Foi sobretudo incontornável. Toda a cultura pop americana após 85 viria a ter o cunho de Michael. Esta simplesmente não seria a história de qualquer um dos ícones musicais de hoje, desfeita que está a mitologia em torno de quem quer que seja. A dada altura, na pequena janela que Fuqua nos permite ter para a visão criativa de Michael, Jackson reforça a necessidade de voltar a ser desconhecido para o seu público. “I want to be mysterious”, anuncia perante a estupefação de Mike Myers, o executivo da companhia discográfica que simplesmente não entende o seu génio. A cena é praticamente a mesma que vimos em Bohemian Rhapsody, quando Rami Malek explica aos engravatados da etiqueta que pretende lançar um single de 8 minutos, ou no mais recente Springsteen: Deliver Me From Nowhere, em que Jeremy Allen White dispensa uma digressão mundial lucrativa para se fechar em casa a compor músicas tristes sobre o seu passado pessoal. O artista tem uma visão à frente do seu tempo e até a indústria o vê como um estranho. Ao servir de veículo para uma obra musical, Fuqua coloca Michael na subsistência da sua música para sobreviver. Despojado de artifícios, Jackson é e será para sempre um artista inegável, talvez até inigualável. E por trás desse artista, o que estará? Será que isso sequer importa?



