Críticas a Magalhães, de Lav Diaz – Sonho e Sangue

EquipaJulho 1, 2026

Numa imensa co-produção dividida por vários países, entre os quais Portugal, pela mão de Joaquim Sapinho e Marta Alves, Magalhães é o mais recente trabalho do realizador filipino Lav Diaz. Reconhecido pelos seus registos de assinalável escala e ambição, Diaz lança-se agora à exploração do sonho de um homem na expedição marítima que levou a coroa espanhola a financiar a ideia de controlo das rotas comerciais do extremo oriente. Magalhães mostra-nos não apenas as incidências da viagem como o choque cultural que a expedição veio a enfrentar com os nativos do Pacífico Sul. A Tribuna foi ver esta nova travessia de Lav Diaz e faz agora as críticas. A ler.

 

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Grita Afonso de Albuquerque pela glória de Portugal, antes de sucumbir, bêbedo, pelo chão. De corpos mutilados, amordaçados, um filme que parece respirar pelo sangue que se verte. “Estamos a matar tantas pessoas em nome da Coroa e de Deus”, diz-se, e é dessas mortes que nos fala o relato da expedição de Magalhães, essa aventura “à la merci du rêve d’un fou“, que, muito mais do que ondas de esperança, navega por um deserto infindável, com o porão carregado de torsos ensanguentados, pustulentos, de lágrimas e suor. Diaz aborda aqui o conquistador e o conquistado, e este é um filme tanto sobre aquela figura ambígua de Magalhães quanto sobre o escravo que compra “nas ilhas”. Um filme de grandes paisagens que se fecha, frequentemente, nas suas personagens, cujos intérpretes nos parecem, curiosamente, algo incomodados pelo dispositivo do registo. Muito forte nos seus momentos menos narrativos (o rio, ainda no começo), menos interessante quando se trata de pessoas a falar ou a fazer coisas. Mais Serra do que Oliveira, se é com apreensão que vemos chegar um actor de novelas como protagonista, é entre uma leve irritação e uma curiosa interrogação que seguimos o seu teatralizar caricato da cena. Aquelas mulheres de preto que choram maridos que as marés não devolvem relembram The Unchanging Sea, de Griffith, mas falta-nos aqui um enlevo mais romanesco que levante o filme – esse mesmo, que nos assombra com o fantasma de Beatriz. Uma obra um tanto incerta, e tanto mais forte quanto mais se deixa levar pelas ondas infindáveis do oceano, ou pelo vento que bate naquelas árvores.

Miguel Allen

 

Não é possível apreciar a proposta de Lav Diaz sem esquecer que as Filipinas são um país predominantemente católico. Diaz regressa à origem desta transformação cultural, através do navegador português Fernão Magalhães, uma viagem até Cebu e um desfecho mortal, desconhecido pela maioria dos portugueses, mas amplamente relembrado pelos filipinos. Um filme que, tendo Magalhães como protagonista, é sobre vultos esquecidos. Diaz apresenta duas culturas, desenvolvendo cada prática cultural, através da demonstração de ações descontextualizadas e da sua oposição. Por exemplo, mostrar uma confissão católica dos navegadores num barco, seguindo-se uma reza de indígenas filipinos na floresta. O objetivo é evidenciar o fator diferenciador das navegações europeias: a imposição religiosa de um povo sobre o outro.

Lav Diaz repete o seu estilo: planos fixos longuíssimos, sobretudo gerais, com profundidade de campo e grandes angulares, onde os elementos em primeiro plano ocupam a maioria do quadro. Uma experiência exigente, lenta, numa duração “acessível” para uma obra com longas-metragens de oito a doze horas. Diaz sempre demonstrou um certo “amadorismo” experimental – já utilizou todos os suportes da imagem. Desta vez, filma com uma câmara digital amadora, resultando num belo trabalho de fotografia. Notoriamente, com as cenas filmadas em décors naturais e exteriores (os rios, as florestas, os barcos, o mar), onde existe uma imensa sensação de escala e atmosfera (apesar da mistura de som insuficiente para um filme destes).

Porém, a parte “europeia” do filme compara mal com o resto do filme. Numa proposta hiper-realista, devido à aparente ausência de artifício plástico da imagem, a excessiva consciência cénica dos décors, diálogos, guarda-roupa e história (nomeadamente, a relação de Magalhães com a sua mulher-fantasma) em Lisboa parece pertencer a um filme de Manoel de Oliveira, destoando da realização original de Diaz. Este choque prejudica o espectador, e afasta-o do assunto que Diaz pretende explorar. Infelizmente, o mesmo só se materializa na sequência final em Cebu. Gael García Bernal é um protagonista credível, mas fica a dúvida se o seu português-espanhol deveria também ser falado pelas restantes personagens, que comunicam num português moderno.

Pedro Bastos Oliveira