Depois de ter suscitado alguma atenção com Cinco Lobitos (Lullaby), Alauda Ruiz de Azúa estreia a sua última longa metragem nas salas portuguesas. Los Domingos traz a história de Ainara, de 17 anos, que vive em Bilbau (Espanha) com o pai e as duas irmãs mais novas e se encontra num momento decisivo da sua vida. Numa altura em que a maioria das raparigas da sua idade tenta perceber a que curso universitário se quer candidatar, Ainara sente crescer dentro de si um desejo intenso de dedicar a vida a Deus. Quando finalmente revela que quer tornar-se freira, a notícia é recebida em choque pela família. Na edição de 2025 dos prémios Goya, Los Domingos venceu nas categorias de melhor filme, realização, actriz principal (Patricia López Arnaiz), actriz secundária (Nagore Aranburu) e argumento original. Ana Matos e Maria Inês Opinião assinam as críticas.
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Se o cinema reflete muitas vezes o que nos inquieta no presente, Los Domingos surpreende ao explorar um tema que, à primeira vista, parece deslocado da realidade dos jovens. Ainara, uma rapariga de 17 anos, anuncia à família que quer ser freira e entrar para um convento. A notícia apanha todos de surpresa, e cada um encara esta decisão de maneira diferente. Uma das forças do filme está na forma como são apresentados os vários pontos de vista após a revelação deste chamamento. O pai, viúvo, procura compensar aquilo que sente não ter dado às filhas, e está tentado a ceder à vontade de Ainara. A tia, inconformada, quer convencê-la de que é demasiado jovem para tomar uma decisão tão radical, e deve antes experimentar o que a vida tem para lhe oferecer. A irmã, prática, vai integrando a protagonista em atividades com outros jovens, torcendo para que a adaptação ao mundo dos adolescentes a faça reconsiderar.
Todos gravitam à volta de Ainara, que revela uma surpreendente capacidade de abstração face ao tumulto causado. Essa é outra particularidade deste filme: a personagem principal é uma incógnita. Expressa-se de forma reservada, é pouco demonstrativa, revela alguma assertividade quando o tema é a fé, mas ainda assim, deixa transparecer fragilidade. A atenção de um rapaz pode ser suficiente para abalar a decisão de uma entrega incondicional ao Senhor. Ainara é, acima de tudo, uma adulta em formação que ora se deixa subjugar pelas palavras da Madre Superiora, ora sente a tentação da carne falar mais alto.
O filme aborda um tema inesperado de forma refrescante, sem tomar partido, com uma naturalidade muito própria do cinema espanhol. Patricia López Arnaiz, que já se tinha destacado em 20.000 Espécies de Abelhas, volta a brilhar e arrecada o seu segundo Goya com esta interpretação, depois do que ganhou com Ane, em 2020. Contudo, talvez não fossem necessárias cerca de duas horas para contar esta história. Ainda assim, a fé, que pode parecer o tema central, funciona sobretudo como metáfora para a busca universal por algo que dê sentido à vida. Num mundo difícil de entender, onde nem sempre são claras as causas a defender, o regresso ao espiritual pode, de certa forma, apaziguar essa procura. E talvez por isso, aquilo que à partida parecia pouco atual se revele, afinal, mais atual do que nunca.
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Ana Matos

Los Domingos poderia ser um filme acerca de fé, da sua presença, da sua ausência, do papel que tem nos jovens, da fenda geracional que cria. Alauda Ruiz de Azúa desafia-se a projectar um coming-of-age onde a abertura da personagem ao mundo se concretiza através de uma clausura muito literal – num convento de freiras. A, também, jovem Blanca Soroa torna Ainara numa rapariga tão enigmática quanto transparente. Ainara não é uma adolescente deslocada do seu grupo. Envolve-se com álcool e rapazes e não fica atrás das tendências, mas passa grande parte do filme escondida e sabemos mais acerca das suas experiências pela voz dos outros do que pela sua. Toma a palavra ao falar da religião e das suas imposições com uma maturidade que parece despropositada. A sua decisão move o filme, mas não o seu coração. Esse está em Maite (Patricia Lopéz Arnaiz), a sua tia, que luta contra a decisão da sobrinha. Na verdade, a sua luta é contra o conservadorismo presente, principalmente no seio da família tradicional que ela tanto ama, mas com a qual não consegue lidar.
Subverte-se o papel das duas, tornando-se Ainara a compreensiva, longe da religiosa fanática que se esperaria, e Maite em alguém que não só se impõe, como impõe as suas convicções. Iñaki (o irmão, Miguel Garcés), Pablo (o marido, Juan Minujín), Lila (a mãe, Mabel Rivera) e até as amigas de Ainara ou as freiras do Convento circulam na tela perante aquilo que a entrada de Ainara no Convento poderá significar para Maite enquanto figura materna. É aqui que o filme atinge o seu ponto de louvor. As personagens simplesmente agem. Não há qualquer censura ou juízo da realizadora. A família tem toda a liberdade para implodir em si mesma. No entanto, enquanto esta transparência e intelecção conseguem recriar as conversas e conflitos intermináveis de uma família real, prolongam o filme ao ponto de se tornar cansativo.
A escolha do coro da Igreja é extremamente elegante, não só por Ruiz de Azúa saber destacar o seu interesse de uma multidão, mas por se tornar na provocação exterior ao chamamento de Ainara, que acaba por se dissolver em si mesma por se tornar no seu lugar seguro. Permite uma liberdade na banda sonora, que surge diegética e nos surpreende com Nick Cave. Quando não o é, é particularmente deliciosa, principalmente no momento em que se revela o interesse amoroso ao som de música sacra que se prolonga para uma festa. O vencedor dos prémios Goya pode não ser visualmente memorável, mas sê-lo-á na memória da herança religiosa ibérica.
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Maria Inês Opinião



