Críticas a Lee Cronin’s The Mummy, de Lee Cronin – Boa Múmia a Casa Torna

EquipaAbril 28, 2026

O tempo passa, e eis que surge uma nova adaptação cinematográfica de um dos mais icónicos “monstros clássicos”, a Múmia. Expressamente assinado por Lee Cronin, realizador popularizado pelo fenómeno de culto recente que foi o louco e visceral Evil Dead Rise, Lee Cronin’s The Mummy conta com Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy e Natalie Grace. Um casal americano muda-se para o Egipto por motivos profissionais, levando consigo a filha pequena, Katie. A vida da família é desvastada quando a criança desaparece sem deixar rasto, um caso que as autoridades locais acabam por encerrar. Anos mais tarde, Katie é encontrada viva, mas o seu corpo sofreu uma transformação grotesca e o seu comportamento é agora marcado por uma “sede de sangue” ancestral. David Bernardino e Hugo Dinis enfrentaram a maldição da Múmia e assinam as críticas.

 

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Juntamente com Drácula, Frankenstein ou o Lobisomem, a Múmia pertencerá para sempre ao cânone dos monstros reimaginados e remastigados ao longo dos anos em diversas produções cinematográficas. A primeira incursão da Múmia no cinema foi em 1932, a era forte dos monstros clássicos da Universal Studios antes da censura do Código Hays que viria a constranger os limites da sétima arte nos Estados Unidos. O filme surgiu apenas dez anos após a abertura do túmulo de Tutankhamon, no Egipto, momento histórico que serviu de inspiração para as histórias de horror em torno da figura da múmia, nesse primeiro filme interpretada pelo icónico Boris Karloff. Passaram 94 anos e eis que surge a reimaginação de Lee Cronin, autor com direito a figurar no título do filme. Cronin não é propriamente um realizador com vastas provas dadas, sendo esta apenas a sua terceira longa-metragem. Ainda assim, Evil Dead Rise (2023) foi suficientemente audaz e personalizado para ser considerado, sem grandes receios, um dos filmes de terror mais icónicos da última década. A loucura, o sangue e a distorção visual são marcas, não só desse filme, mas do próprio franchise criado por Sam Raimi. Daí a antecipação em torno de Lee Cronin’s The Mummy, esperando-se uma colagem ao estilo visceral e grotesco que habitava o trabalho anterior do realizador.

O filme tem muito a seu favor. A interpretação modernizada leva uma família média americana ao Egipto por razões profissionais, terminando em tragédia quando a filha do casal é raptada, apenas para ser encontrada anos depois ainda viva, embora… diferente. O visual bebe diretamente de Evil Dead Rise, com a sua estética provocatória e persuasiva; no entanto, é impossível não notar que esta é uma produção destinada a algo mais do que ao público de nicho de Rise, visando claramente os números de bilheteira e uma audiência mais vasta. Algo manietado no que toca à estética de horror e violência, que parece nunca estar completa ou inconsequentemente à solta, The Mummy sofre de uma rigidez criativa nítida logo após o primeiro acto. Apesar da premissa suficientemente negra de uma filha mumificada que regressa a casa, a lógica e o arco narrativo d’O Exorcista e seus sucedâneos impõem-se de forma inescapável.

Do ponto de vista meramente transgressivo e horripilante, expresso por vezes em tons de comédia negra (nem sempre rimando com o tom geral do filme, muito mais sério do que engraçado), “A Múmia de Lee Cronin” satisfaz quanto baste, mas arrisca pouco. O foco de maior interesse acaba por ser, ironicamente, outro: o thriller de investigação que se desenrola em paralelo no Egipto, protagonizado por uma agente policial local que, por influência do seu superior, ignorou a gravidade do desaparecimento da criança. Nesse aspeto, a actriz egípcia-palestiniana May Calamawy transforma-se no elemento mais seguro do filme, descortinando de forma clássica a trama por trás do desaparecimento da pequena Katie. Perante isto, todos os actores e personagens parecem estar a viver o seu próprio filme, com estilos de representação e humores distintos. De uma forma ou de outra, The Mummy vai funcionando, mas sempre com uma estranha falta de coesão difícil de justificar. O tempo o dirá, mas dificilmente alcançará o estatuto de culto de Evil Dead Rise.

David Bernardino

 

Algures na história do cinema, pelos vistos agora, ficou decidido que cineastas com duas longas realizadas, como é o caso de Lee Cronin, autor de Lee Cronin’s The Mummy, seriam inteiramente reconhecíveis como dínamos criativos cuja identificação seria forçosamente necessária logo no título de filmes como este Lee Cronin’s The Mummy. Ainda assim, a parte mais surpreendente do título de Lee Cronin’s The Mummy não é a do nome do seu criador mas a da criação. Lee Cronin’s The Mummy é certamente de Lee Cronin mas temos dificuldade em identificá-lo como um filme sobre uma múmia. De facto, não fossem as suas tendências para repescar estereótipos culturais do Oriente Próximo, Lee Cronin’s The Mummy não seria prontamente idenficável como um filme em que Lee Cronin refez The Mummy. Carregado dos mais ubíquos tiques do CGI moderno, Lee Cronin’s The Mummy é um filme que anuncia um remake de The Exorcist muito mais próximo de um videojogo do que de algum tipo de nova visão sobre o lore da mumificação. Com efeito, a única personagem que vemos em Lee Cronin’s The Mummy com algum tipo de preocupação histórica é um professor de arqueologia que, quando abordado pela personagem do jornalista Jack Reynor (Midsommar), procura reforçar que tem os impostos em dia.

Este é, de resto, um filme com um sobrecarregamento terminal de referências fílmicas que se embrulham convenientemente nos mitos americanos actuais. Reynor e Laia Costa são dois pais de uma família radicada temporariamente no Cairo, onde a sua filha mais velha é raptada por uma mulher adulta local. A redescoberta da filha, oito anos depois, num sarcófago leva à introdução da alegoria do forasteiro pernicioso no interior da família, mas sobretudo a uma série de construções alusivas ao clássico de Friedkin. Cedo, a relativa normalidade familiar é rompida pelo regresso da filha, deformada e pestilenta, qual sociedade que escolhe acolher deformados e pestilentos. Os seus vícios são sobretudo os da previsibilidade, fora os que procuram estabelecer pequenas variações de pormenor no cinema de possuídos por entidades malévolas. O que Cronin aparentemente constrói usa a roupagem do orientalismo mumificador para se colocar por detrás de uma história de replicação dos mecanismos de Friedkin na sua utilização das crianças como artefactos de terror. A nossa juventude está em perigo às mãos do misticismo oriental, mas não tanto como o cinema de terror actual está sequestrado por autores de prestígio como Lee Cronin, com este seu Lee Cronin’s The Exorcist.

Hugo Dinis