Críticas a L’Accident de Piano, de Quentin Dupieux

EquipaMaio 8, 2026

Estreia nas salas portuguesas L’Accident de piano, novo filme do sempre prolífico e provocador Quentin Dupieux. Depois de um Le Deuxième Acte insosso, Dupieux regressa com um filme suspenso entre a comédia e o desconforto, perante a “cultura do vazio”. Algures, “um piano cai do céu…” E o realizador, claro, tem já dois outros filmes prestes a estrear. Críticas de Ana Matos e Paulo Ventura a L’Accident de piano.

 

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Olhar para a evolução da fama permite perceber o que, em cada época, determinou quem mereceu atenção. Membros da realeza, atores, cantores, desportistas, apresentadores de televisão, ou até mesmo top models. Até aqui acompanhamos a ideia. Quando a fama acontece por se participar num reality show, começa a ser mais difícil apreender o conceito. Até que chegamos à era dos youtubers e influencers. Famosos porquê? O que os distingue dos demais? Difícil dizer.

Não é, contudo, o caso da protagonista de L’Accident de piano. Magalie Moreau (Adèle Exarchopoulos) tem algo que a diferencia desde a infância: sofre de insensibilidade congénita à dor, uma doença rara que rapidamente utiliza a seu favor, criando vídeos cada vez mais extremos, que lhe trazem fortuna e glória. Mas quem é, afinal, Magalie? A jornalista Simone (Sandrine Kiberlain) está empenhada em traçar o perfil desta mulher-criança, que tanto parece ter rasgos de lucidez e, por vezes, crueldade, como, tão depressa, cai num estado de total apatia, resultado de uma anestesia não só da dor física, mas também das emoções e até de qualquer possibilidade de adrenalina.

Quentin Dupieux volta a mostrar um certo fascínio por personagens marginais que, de forma perversa, triunfam. Todo o casting é sólido, com destaque para Adèle Exarchopoulos, praticamente irreconhecível no papel de uma celebridade bizarra, de discernimento incerto. O seu fiel agente nutre por ela um sentimento de amor-ódio, a jornalista não é tão ética quanto parece, e os fãs que a perseguem também não se resignam ao papel de personagens secundárias lineares. Nada nos filmes de Dupieux é redutor. Ainda assim, a ação tem por pano de fundo uma sociedade pobre de espírito, que consome desenfreadamente conteúdos, sem qualquer tipo de critério, numa tensão crescente e palpável.

Em L’Accident de piano, o realizador regressa ao seu estilo inconfundível: polémico, irreverente, enfant terrible. Porque é esse, afinal, um dos seus objetivos ao fazer cinema: incomodar, infligir-nos personagens detestáveis, esfregar-nos um grau de insanidade até nos fazer ver que isto não é cinema caricatural, mas o reflexo de uma sociedade anestesiada, hipnotizada pelo scroll. Só despertamos quando deixa de haver filtro e o espelho já não mente, devolvendo uma imagem que nos repugna.

Ana Matos

 

Apesar de se tratar de uma comédia assumida, talvez não seja assim tão fácil perceber ao certo se o núcleo de L’Accident de piano realmente se sustenta no seu humor negro, com pitadas de drama e mistério, ou se este tende a alimentar-se essencialmente do drama que constrói, com pequenos rasgos de comédia – um filme que vive do contraste entre o que se mostra e o que se esconde por trás do seu humor e das suas superfícies.

O objetivo de L’Accident de piano parece limitar-se ao apontar do dedo e à chamada de atenção, e não propriamente à análise. A crítica social está deveras presente em diversas escolhas de enredo e na construção das personagens, mas Quentin Dupieux mostra-se assumidamente mais preocupado em provocar do que em aprofundar-se. Há no filme uma procura por representar temas como a ambição pela fama mediática, o sensacionalismo permitido (e premiado) pelas redes sociais, e os sacrifícios, físicos e mentais, que tais ambições implicam. No entanto, nunca se chega realmente a presenciar uma tentativa de perceber a origem ou a causa destes problemas, muito menos de se encontrar uma solução.

Esta falta de profundidade analítica é, no entanto, compensada por uma construção visual rigorosa, sendo que a comédia não reside propriamente no seu texto, mas na direção de arte que o adorna nos adereços, nos aparelhos ortodônticos, nos cabelos excessivos e nos figurinos que gritam artificialidade – e na postura das personagens que habitam este espaço. É neste ambiente visualmente caricato que Dupieux consegue criar um solo fértil para a humanização da sua protagonista. Enquanto toda a estética nos procura entreter e aliviar, Adèle Exarchopoulos, no papel do fenómeno mediático Magalie Moreau, caminha gradualmente na direção oposta e oferece-nos uma performance visceral, ainda que cómica, que desmente toda a artificialidade que a rodeia, à medida que se desloca do caricatural e tosco para o humano e, de certa forma, melancólico.

O ritmo narrativo de L’Accident de piano, assim como a estrutura da sua montagem, arranca de forma simplista e banal, mas rapidamente se molda e diversifica com o avançar do enredo. Transformase numa mecânica de flashbacks e retornos que misturam momentos e criam significados, num exercício de paciência e cinismo focado na revelação gradual dos seus conteúdos, dos seus eventos, das suas críticas sociais e das suas personagens, sendo que tanto o enredo quanto a sua protagonista nos são entregues a conta-gotas, num puzzle que se monta peça por peça, sem a ânsia de nos revelar a imagem final.

Paulo Ventura