Críticas a Kontinental ’25, de Radu Jude

EquipaJaneiro 13, 2026

Sempre prolífico, Radu Jude regressou às salas de cinema em 2025 com dois títulos (para além de outros projectos paralelos, seus). Um deles, Kontinental ’25, estreia agora em Portugal, após uma primeira passagem pelo LEFFEST, em Novembro passado. Um ano depois do nosso melhor filme de 2024, um conto moral na Roménia contemporânea, Jude reencena Europa 51, de Rossellini. Quatro críticas.

 

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Kontinental ’25 pode ser entendido como uma espécie de adenda a Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo (2023). Se nesse filme Radu Jude abria ao máximo o plano da sua crítica (à Roménia no contexto europeu, à precarização estrutural do trabalho e à violência simbólica e material da economia neoliberal globalizada), aqui o gesto é mais concentrado, quase ascético. Jude afunila o olhar para problemas domésticos e para o desconcerto e a alienação individuais na experiência pós-moderna, explorando até que ponto o colapso das grandes narrativas inviabilizou a moral e esvaziou a dor de qualquer potencial transformador.

O cenário escolhido é decisivo para esse efeito. Cluj, terceira cidade da Roménia, encontra-se em expansão económica e demográfica e está mais aberta do que nunca ao capital estrangeiro. Permanece, contudo, uma cidade de província, carregando contradições que o crescimento não dissolve. Situada na Transilvânia — região historicamente disputada entre romenos e húngaros até meados do século XX — funciona como microcosmo de tensões étnicas e identitárias, hoje reacendidas por um nacionalismo oportunista e pelo ressentimento social.

Orsolya, figura central do filme, corporiza essas fraturas de forma simultaneamente passiva e ativa. Por um lado, a sua origem húngara é destacada pela imprensa aquando do suicídio do sem-abrigo que fora encarregada de despejar do espaço onde vai nascer o hotel Kontinental. Por outro, ela própria ajusta a retórica identitária conforme o interlocutor: ora exalta uma Roménia europeia e liberal ao confrontar a mãe (que é húngara e nacionalista militante), ora responde com piadas xenófobas dirigidas a romenos às provocações de um ex-aluno com quem partilha uma noite de copos e amassos. Jude não a apresenta propriamente como hipócrita, mas como sintoma: moldada pela violência simbólica do seu ambiente, a identidade transilvana surge defensiva e performativa; instável e pronta a ser instrumentalizada.

Paralelamente a este quadro de instabilidade social, o episódio do suicídio vem agudizar a análise da crise de valores em torno da qual o filme se organiza. Devido à sua profissão, Orsolya sente que é parte dos problemas de fundo da Roménia, mas Jude (que não a isenta totalmente) está menos interessado em apontar-lhe o dedo do que em observar como a culpa, enquanto experiência subjetiva, se instala sem horizonte de resolução, refletindo uma condição contemporânea marcada pela impotência moral.

É a partir desta dinâmica que Kontinental ’25 estabelece um diálogo em negativo com o filme no qual se inspirou: Europa ’51. No filme de Rossellini, a personagem interpretada por Ingrid Bergman (sobrevivente da 2ª Guerra Mundial) sofre, com a morte do filho, um golpe espiritualmente irreparável. Essa perda conduz a uma rutura absoluta com o mundo tal como ele se organiza: família, política, Igreja e psicanálise tentam resgatá-la e reinscrevê-la na normalidade, mas falham perante alguém que já não se consegue rever em qualquer narrativa racionalista e que, optando pela marginalidade ética, se entrega de corpo inteiro ao mistério da caridade. O gesto radical de Bergman funda-se na possibilidade — ainda historicamente imaginável no imediato pós-guerra — de um verdadeiro fora-do-mundo.

Jude parte da mesma premissa para chegar à conclusão oposta. Orsolya não é alienável da sociedade contemporânea. Numa realidade de produtividade incessante e de ligação permanente (à rede, não ao outro), qualquer espiritualidade e, consequentemente, qualquer grande rutura são inconcebíveis. Por isso, onde em Europa ’51 a culpa é sublimada em empatia e ação abnegada, em Kontinental ’25 é circular e estéril. Onde Rossellini encenava a luta da sociedade para reinstituir um dos seus indivíduos, Jude, em sentido contrário, mostra o indivíduo à procura de um amparo que as instituições não sabem dar. Orsolya esbarra num automatismo desresponsabilizante, feito de frases batidas e senso comum: suficientemente “benévolo” para não a hostilizar e labiríntico quanto baste para não permitir um vislumbre de alternativa.

Assim, a caridade possível, em Kontinental 25, reduz-se a 500 lei enviados por Revolut a uma amiga que poderá ou não usá-los para ajudar famílias ciganas desfavorecidas. O ato, mediado por uma aplicação bancária e desligado de qualquer relação concreta com o outro, funciona como paródia cruel da entrega radical de Bergman, em Rossellini. Troca-se a presença física, o risco e o sacrifício pessoal do gesto caridoso por uma transação digital, confortável e moralmente ambígua, tão incapaz de produzir transformação real no mundo quanto em quem a pratica.

Apesar da escala mais modesta de Kontinental 25 face a outros dos seus projetos, Jude mantém-se um observador de precisão notável e um estruturalista rigoroso na organização da sua mise-en-scène. Não há um quadro que não funcione dialeticamente. Os “planos de corte” da cidade narram a sua história e as suas sucessivas submissões a diferentes poderes; a desigualdade social inscreve-se na sua arquitetura; a voracidade do capital estrangeiro manifesta-se na omnipresença da publicidade. A estes elementos juntam-se detalhes que condensam comentários de natureza diversa: o toque de humanismo num livro de André Malraux sob a ordem de despejo do sem-abrigo suicida — imagem do potencial por cumprir de um país e do seu povo; a composição cínica de um pai-nosso rezado diante de um dinossauro mecânico; o escarro amargo e gozão do “sou romeno” escrito sobre a mochila de entregas de um estafeta que mal esconde a canzana num parque público… Tudo é observado com uma lucidez que nunca abdica do humor, mesmo quando este se torna desconfortável. Ao negar as possibilidades de redenção, transcendência e mudança estrutural, o filme oferece um retrato implacável do presente: um mundo em que a dor já não funda comunidades nem revoluções, apenas se acumula em sujeitos exauridos, isolados e sem propósito, reféns de um poder cada vez mais invisível e entregues à crescente inutilidade das instituições que organizam as suas vidas.

Gil Gonçalves

 

Haverá poucos cineastas em actividade a retratar o presente de forma tão comprometida e mordaz como Radu Jude. O seu anterior trabalho, Nu Aștepta Prea Mult de la Sfârșitul Lumii (“Não Esperes Demasiado do Fim do Mundo“), foi aquele que melhor sintetizou a sua visão singular das relações laborais e afectivas dos seres humanos contemporâneos. Em 2025, regressa com uma dupla, Dracula e Kontinental ’25, filmada em conjunto com o mesmo elenco e equipa, mas com duas propostas inteiramente diferentes. Este Kontinental ’25 surge-nos como uma visão contemporânea do sentimento de culpa pequeno burguês de Rossellini e Bergman (Europa 51, 1952) na face do sofrimento humano. Em Cluj, uma cidade em franco desenvolvimento no coração da Transilvânia e de uma Roménia em evolução europeísta, deambula um sem abrigo (Gabriel Spahiu) à procura de lugar numa sociedade que o marginaliza. Percorre parques e vielas, praças recheadas de gente e cantinhos isolados, a resmungar a sorte enquanto pede trabalho e uns leis para se governar. A construção de um hotel de luxo no seu local de ocupação e seu consequente despejo por uma oficial de justiça gregária (Eszter Tompa) leva-o a optar pelo suicídio da forma mais crua possível.

É desse confronto da sociedade dita média e média-alta com a sujidade e a abjecção dos escombros de uma civilização que tão facilmente se auto-condiciona para a ignorância que fala aqui Radu Jude. O rombo mental para Tompa é profundo e vêmo-la na procura incessante de formas para sossegar a própria consciência, por entre encontros com o chefe, a mãe ou um sacerdote conhecido. Este choque é, de resto, de imediato evidente nos primeiros planos de Kontinental ’25: o sem abrigo debate-se na sua procura por peças de lixo para trocar por migalhas de consideração num enorme parque da cidade, populado mais por dinossauros robóticos e sons metálicos. A Roménia moderna é, na lente de Jude, vista por uma série de planos de contexto, espalhados por todo o filme como se de separadores de acção se tratassem, onde vemos monumentos, construções, pessoas que passam, mudanças que ocorrem, riquezas que se ostentam. Na verdade, a dicotomia de condições é tão evidente como a mera ausência do sem abrigo que nesses mesmos planos se deslocava no prólogo de Kontinental ’25.

Kontinental é um futuro hotel de charme. Deixa um rasto de morte que os seus futuros hóspedes certamente não conhecerão. Mas para Tompa, delega-lhe um confronto imediato com aquilo que passou uma vida a ignorar. Tompa, afinal de contas, é uma cidadã modelo: ainda que húngara de origem (e por isso alvo das mais variadas pequenas desconsiderações), foi professora, é uma profissional exemplar, e faz questão de doar dois euros por mês às mais variadas caridades com que tem contacto (desde que isso surja de forma conveniente na sua conta de telemóvel). A sua amiga conta-lhe que também lida com um persistente e indesejado contacto com um sem abrigo perto de sua casa: no verão faz-lhe confusão o cheiro a dejectos, no inverno a forma como ele se contorce perante o rigor do frio. O padre tranquiliza-a: podemos não conhecer os caminhos de deus, mas tudo, incluindo a morte do homem que tentou despejar, tem o seu desígnio. O encolher de ombros de toda uma sociedade é a sua forma de justificar a enormidade de deixar cair uma parte dos seus. Em 2018, Jeremy Corbyn candidatou-se a primeiro ministro do Reino Unido com a promessa de acabar com a situação de sem abrigo a curto prazo. Hoje, o Reino Unido é governado pelo partido que abandonou, mas é a extrema democracia direita que lidera as sondagens. O mesmo acontece na Roménia.

Hugo Dinis

 

Kontinental ’25 agarra-nos pelo pescoço, encosta-nos à parede e obriga-nos a fixar o olhar no mundo que é, e não é, o nosso. Constituindo um díptico, de um lado observamos brevemente o quotidiano de quem vive as intransigências do capitalismo; do outro, alguém que experiencia as contrariedades deste último. Duas vidas aparentemente opostas, que a necessidade (das políticas habitacionais agressivas) obriga a comunicar: uma à margem, outra fragilmente integrada no sistema. De Ion, ex-atleta sucumbido ao vício, conhecemos, por pouco, os lugares que ocupa e os confrontos que trava com o ridículo neoliberal, com o qual também nos cruzamos diariamente – ainda que já não o notemos, e é aqui que a potência de Radu Jude mais transparece. Orsolya, oficial de justiça responsável por despejos, mantém uma relação atribulada não só com o trabalho que executa, mas também com o país onde habita, evocando tensões nacionalistas entre a Roménia e a Hungria – que se refletem em tensões geracionais entre a protagonista e a sua mãe. Enquanto Ion é vencido pela vida, Orsolya luta contra a culpa, mantendo-se num estado liminar exasperante, procurando incessantemente respostas claras, consolo, perdão e escusa. O filme faz um excelso trabalho no detalhe, no posicionamento das suas reflexões, ao levar-nos por um caminho assustadoramente reconhecível, abalando as estruturas que temos como protetoras e desafiando a passividade daqueles que consideram que tendemos para uma sociedade mais justa e com forte senso de comunidade.

Perde, no entanto, vitalidade ao longo do tempo – sujeito à tentação do individualismo, espelhando, de alguma forma, a crítica que faz – quando se concentra na interminável espiral de culpa de Orsolya, que se expande a uma intimidade risível, evitando um regresso àquele sem-abrigo disruptor, bem como ao confronto com as razões pelas quais a vida lhe falhou (embora nunca deixe de as sugerir, timidamente, nos seus planos). A consciência coletiva está ausente: substituída pela individual, é ancorada a uma visão distorcida e obsessiva em relação aos desfavorecidos, explorando a necessidade egoísta de dar porque se deve, e não porque se quer ou sente, um alerta para as dúbias boas ações que potencialmente praticamos.

Construído a partir do humor ácido e da ambiência cáustica, uma das vozes mais desafiantes do cinema mostra-nos como a bandeira segue voando, lenta e triunfalmente, enquanto a brutalidade se propaga na forma de betão selvática e desenfreadamente ereto.

Laura Mendes

 

Basta um olhar ligeiramente atento para perceber que a experiência cinematográfica que Radu Jude procura conduzir não é a da projeção, mas a do reflexo. E, se o especial carinho que guardo pelo neorrealismo italiano me trouxe algo de bom, foi a capacidade de apreciar o esforço dos que tentam construir uma ficção sobre as raízes daquilo que precisa de ser documentado. Não que Kontinental ’25 se faça passar por uma tentativa de emular o movimento artístico dos anos 40 e 50, ou que se aproveite da sua assumida inspiração em Europa ’51, de Roberto Rossellini, para evitar o desenvolvimento de uma identidade própria. Trata-se, em vez disso, de uma demonstração clara do desejo – já presente na Itália do pós-guerra – de deixar marcada no cinema a sensação, o mais real possível, do que é viver numa determinada sociedade, num determinado momento.

Embebido tanto na obra de Rossellini quanto na situação económica e geopolítica atual, o enredo simples, sem grandes reviravoltas dramáticas, permite uma navegação fluida entre o caricatural e o humano, entre a comédia e a ligação emocional com Orsolya (Eszter Tompa), uma oficial de justiça que acredita ter causado um… infortúnio que nada pode fazer para reparar. Aquilo que a princípio é opaco – o tom cómico do filme – torna-se um elemento transparente que ora chama a atenção e traz leveza, ora se camufla por breves instantes e dá lugar a uma sinceridade genuína, enquanto revela uma realidade social manchada pela burocracia e pelo egoísmo, incapaz de sentir o peso da dor alheia.

Dispensando rodeios técnicos ou grandes truques cinematográficos, Jude simplifica a estética ao nível da narrativa e abriga-nos de distrações desnecessárias. Há uma rigidez na câmara (de iPhone), quase inteiramente estática, que complementa a severidade do constrangimento cómico, sem o tornar monótono (muito pelo contrário). A inação da sociedade representada (infelizmente semelhante à nossa) é espelhada pela inércia do enquadramento, pela teimosa imobilidade do plano fixo e longo, enquanto um jogo de ritmos (muito bem jogado) permite a contemplação sem comprometer o impacto do corte. A estética, tanto visual quanto da montagem, é bastante crua e bruta e de certa forma compactua com o espírito do enredo. Enquanto Orsolya se remói em pensamentos, conflitada pela angústia do que acredita ser culpa sua, não é apenas o marido, a sua mãe ou o padre que lhe exigem uma superação rápida do luto, mas também o próprio corte seco, que termina cada plano de forma imponente, muitas vezes interrompendo diálogos ou expressões, como se o ritmo do filme exigisse o avançar de uma história que não tem tempo nem espaço para a empatia.

Um olhar quase documental paira por cima da ficção, mas não a confronta nem desafia, apenas a contextualiza e a coloca em paralelo com a nossa experiência. Tal como Kontinental, o hotel de luxo que há de vir a ser construído, Kontinental ‘25 não se destaca por aquilo que é, mas pelo que simboliza. Há um desconforto no tom cómico de Jude que traduz a sua impotência, a das personagens e a nossa, como um espelho que nos devolve o rosto, permitindo-nos, com leveza, rir da nossa própria cara.

Paulo Ventura