Críticas a In The Grey, de Guy Ritchie – Tocar os Hits

EquipaJunho 9, 2026

Guy Ritchie está de regresso. O hiato não foi longo, de facto, após um relativamente desinspirado Fountain of Youth, exibido no ano passado em exclusivo na plataforma de streaming Apple TV, mas o nome de Ritchie evoca sempre a ideia de um cinema populista, ao serviço de sequências de espionagem, assalto, ou simplesmente criminalidade que primam pela elegância e a velocidade de execução. Em In The Grey, Eiza González é uma cobradora de dívidas ao serviço de um grupo de gestão de activos que emprega uma dupla de operativos (Jake Gyllenhaal e Henry Cavill) habituados à eficácia que o ofício obriga. Os tribunos David Bernardino e Hugo Dinis assinam as críticas.

 

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O novo filme de Guy Ritchie procura fazer casar a força da violência convencional com o poderio deificado do mundo da finança de hoje. Os seus heróis estão firmemente no primeiro grupo, mas a face da influência perniciosa dos gestores de activos que hoje são responsáveis pelo domínio da economia ocidental quotidiana nunca nos surge inteiramente visível. O seu ethos está plantado decididamente na cultura de desresponsabilização que Wall Street tem vivido já há largos anos. Em In The Grey, Ritchie emprega a sua criação narrativa Soderberghiana, pela voz de vários narradores, com o seu habitual dispositivo exploratório que faz casar o adereço visual concretizado pelo aparecimento de auxiliares de texto no ecrã com a montagem frenética que procura transmitir urgência às ocorrências. Aqui, Eiza González é uma espécie de cobradora de dívidas dos mais ricos. Contratada para pressionar um multimilionário a pagar o que deve a um fundo de gestão de activos, emprega Henry Cavill e Jake Gyllenhaal para lidar com a parte mais braçal do ofício. São eles, de resto, os verdadeiros protagonistas. A forma como se infiltram na operação de Carlos Bardem para forçarem o pagamento da dívida surge como o principal foco de Ritchie.

Todas as incidências de maior relevo ocorrem na ilha de Bardem, perante o domínio tentacular da sua operação. O que Gyllenhaal e Cavill se propõem a fazer neste espaço é, para Ritchie, um enorme exercício de preparação para o acto final de extracção de González da própria ilha caso as coisas dêem para o torto. Gyllenhaal, Cavill e a sua equipa ensaiam um conjunto de tentativas de fuga, com toda a maquinação intencional dos filmes de Ocean’s Eleven, mas com pouca da sua sofisticação visual e narrativa. Todo este trabalho está, por força da quantidade de tempo que Ritchie emprega nele, condenado a vir a ocorrer, pelo que, quando eventualmente as ocorrências saem do controlo de Gyllenhaal e Cavill, temos sempre a sensação de uma rede de segurança em torno das personagens principais. Por muito espectacular e inventivo que esse terceiro acto pudesse ser, e nem sequer o é, o seu impacto é, logo à partida, condicionado pela noção que o espectador tem da sua inevitabilidade.

Ainda que Ritchie se socorra dos seus auxiliares formais familiares, a ideia com que se sai de In The Grey é que nunca o vimos tão estafado e moroso. A acção demora a emergir do pântano da sua preparação, e, quando surge, é desapontante. Sem a urgência de outros trabalhos, fica também complicado de justificar a escolha desinspirada de González e Cavill, sobrando a Gyllenhaal a referenciação de um qualquer trabalho menor de Michael Bay com que o espectador possa ficar em mente após o visionamento de In The Grey.

Hugo Dinis

 

Outrora um autor com uma linguagem cinematográfica muito bem vincada que se movia no submundo do crime britânico (Lock, Stock & Two Smoking Barrels e Snatch serão sempre dois grandes filmes do género, talvez até obras-primas num certo sentido), Guy Ritchie tem vindo certamente desde RocknRolla (portanto, há quase 20 anos) a viver uma guerra interna. Se por um lado existia (e existe) um público fiel ao seu estilo mais sujo de humor negro e peripécia criminal, Ritchie viu-se preso algures entre os grandes estúdios misturados com um estilo de “cinema para toda a família” (Aladdin, Sherlock Holmes, King Arthur). Nos últimos anos tem parecido querer marcar presença em todos esses mundos, com filmes realizados em catadupa que saltitam de forma movediça diferentes linguagens e plataformas (sala vs streaming), nunca atingindo a personalidade dos seus dois primeiros filmes. Mas Guy Ritchie parece sem dúvida preocupado com a sua identidade enquanto realizador. Não sabe é como desatar o nó.

Na linha de Operation Fortune e da linguagem de humor chico esperto que se vai vendo aqui e ali em toda a sua filmografia, In the Grey será sempre um filme “porreiro”, mas a sua crise identitária impede-o à partida de poder ser algo mais. A narrativa coloca Jake Gyllenhaal e Henry Cavill como braços fortes de Eiza González, uma cobradora que procura saldar por quaisquer meios dívidas contraídas por alguns dos maiores criminosos do planeta. É concretamente com um déspota sul americano chamado Salazar (Carlos Bardem) que este trio e demais capangas terão que lidar. Através dos seus planos engenhosos confortavelmente explicados ao espectador num misto conscientemente montado de acção, crime e humor, cola-se à primeira vista o estilo de Soderbergh, não só de Ocean’s Eleven e sequelas, mas dos seus filmes de acção e crime de uma forma geral (ou se quisermos de forma mais directa: Haywire, Logan Lucky, Black Bag). Mas nem só de Soderbergh se faz este pastiche. Existe um outro, a quem apelidaremos de vilão, chamado Aaron Sorkin, não a versão argumentista mas sim a de péssimo realizador (Molly’s Game, The Trial of the Chicago Seven).

Calma, Guy Ritchie continua a ser um bom realizador, mas os tiques preguiçosos e demasiado autoconscientes em passar uma visão de confiança no seu próprio filme levam-no a assinar este seu In The Grey como um filme ferido de várias enfermidades, e uma delas é a montagem urgente de uma narrativa arrogante na forma como julga ser inteligente (ou espertalhona). Nunca tão grotesca e constrangedora como a de Sorkin realizador, atenção. Guy Ritchie consegue sempre dispor bem, ainda que pouco inspirado, mas aqui estará no meio caminho entre a habilidade de Soderbergh e a mediocridade de Sorkin. Sobra o carisma dos actores e o entretenimento das peripécias. No fundo In the Grey é um filme de gente bonita, como os que costumam passar na televisão, e a exigência não seria tão grande se não fosse de quem é. Talvez o Guy Ritchie de hoje esteja mesmo reduzido a este tipo de filme rotineiro que vai preenchendo as salas de cinema e os canais por cabo aqui e ali sem grande prejuízo, com o seu cunho autoral manietado, mas ao menos sempre q.b. interessante. Também é preciso.

David Bernardino