Os filmes metafóricos, e não só, sobre a experiência da maternidade e pós-parto parecem ter ganho tracção nos últimos tempos. O mais recente a chegar às salas portuguesas é If I Had Legs I’d Kick You, de Mary Bronstrein, protagonizado por Rose Byrne com uma interpretação muito elogiada e nomeada a um Óscar. O filme fica também marcado pela estreia do comediante Conan O’Brien como actor, no papel do terapeuta da protagonista. Cinco críticas ao filme
Tentando de não ceder à ansiedade e perder o controlo da própria vida, Linda divide-se entre os cuidados da filha, as pressões do quotidiano, agravadas pelo parco apoio do marido (Christian Slater), e as sessões com o seu próprio terapeuta (Conan O’Brien), pouco atento às suas dificuldades. Os dias tornam-se cada vez mais exigentes, e, lenta e inexoravelmente, Linda encaminha-se para um agonizante colapso físico e psicológico.
*

Há filmes que nos deixam desconfortáveis de forma produtiva. E depois há filmes como If I Had Legs I’d Kick You, que nos deixam desconfortáveis e pouco mais. Rose Byrne está ali, entregue de corpo e alma a uma personagem que parece construída para nos esgotar, e é difícil não reconhecer o esforço. Mas esforço e resultado são coisas distintas e aqui a distância entre um e outro é considerável. Linda (Rose Byrne) equilibra-se no fio da navalha: a doença misteriosa da filha, o marido (Christian Slater) que existe mais no papel do que na prática e um terapeuta (Conan O’Brien) que começa a olhar para ela como se fosse o problema.
A realizadora e argumentista Mary Bronstein aposta numa abordagem quase clínica ao colapso materno, com uma câmara que se recusa a afastar de Linda, que não oferece distância de segurança nem ao espectador nem à personagem. Há uma honestidade nessa escolha que se respeita. Mas o problema é que o filme confunde intensidade com profundidade, e acaba por nos deixar presos numa espiral que não evolui, apenas aperta. A miséria agressiva que Bronstein constrói é, muito simplesmente, extenuante.
O argumento é onde o filme falha de forma mais evidente. Byrne não tem momentos para modular o que está a fazer, para deixar perceber quem Linda é fora do pânico cego em que vive. A personagem passa de crise em crise sem que alguma vez tenhamos acesso a outra versão dela, a um registo diferente, a qualquer coisa que não seja a urgência constante. É uma escolha que empobrece o filme: sem contrastes e sem respiração, a intensidade deixa de surpreender e passa a ser apenas ruído. Bronstein opta também por nunca mostrar o rosto da filha, uma decisão que acaba por tornar abstrato o centro emocional da história num momento em que precisávamos de o sentir concreto. O que fica, e fica mesmo, é o rosto de Rose Byrne. A câmara insiste nele e faz bem, porque é ali que o filme justifica a sua existência. Byrne regista fadiga, frustração e fúria com uma fisicalidade que transcende o argumento que lhe foi dado. Há alguns (poucos) momentos em que If I Had Legs I’d Kick You é amargamente engraçado, em que a consciência do absurdo aflora e o filme respira. São os melhores momentos e passam depressa demais.
Paira sobre tudo isto a sombra de Requiem for a Dream. A dívida é demasiado evidente para ser ignorada: a gramática visual da descida, a montagem que amplifica o desespero, a recusa em oferecer qualquer alívio ao espectador. Aronofsky fez disto um estilo com uma lógica interna poderosa e uma coerência quase cruel. Aqui, a influência parece menos inspiração do que cópia do ambiente ali criado. Requiem sabia exatamente porque nos fazia sofrer. Este filme parece sofrer ele próprio sem saber muito bem porquê. Numa altura em que o cinema dedicado à maternidade como território de crise tem ganhado espaço, If I Had Legs I’d Kick You fica atrás do que o género já mostrou saber fazer. Nightbitch, com Amy Adams, conseguia ser simultaneamente mais selvagem e mais rigoroso: a raiva tinha mitologia, tinha camadas, tinha para onde ir.
Ainda assim, está acima de Die My Love, onde Jennifer Lawrence parecia lutar contra um argumento que não lhe dava material suficiente. Este filme tem, pelo menos, a coerência da sua visão, mesmo que essa visão resulte numa experiência mais extenuante do que reveladora. No final, a sensação dominante é alívio. Não o alívio catártico que o bom cinema proporciona, mas o alívio mais prosaico de quem sai de uma sala e respira fundo. Os problemas de Linda são tão incessantes que os nossos, por comparação, parecem subitamente geríveis. Se era essa a intenção, foi conseguida. Mas parece pouco. Rose Byrne merecia mais. O tema também.
![]()
Raquel Sampaio

Na senda dos horrores da gestação no cinema contemporâneo, surge agora o terror maternal. Por muito que o cinema independente americano faça por conquistar mais públicos, a verdade é que cada vez mais se centra sob os mesmos temas e as mesmas escolhas formais. Aqui, Mary Bronstein vê a maternidade como um calvário para o isolamento de Rose Byrne. A actriz, que certamente produz uma representação digna de registo neste contexto, vê-se martirizada pela condenação da figura de mãe a uma solidão cada vez mais debilitante. A sua filha padece de uma qualquer maleita que requer cuidados permanentes e ligação às máquinas para passar a noite, mas Byrne faz-nos debruçar sob o espectáculo castigador da experiência maternal, não necessariamente de mãe solteira mas de mãe isolada, no intenso foco sob a sua cara. Formalmente, Bronstein parece ter encarado uma nomeação de Byrne como melhor actriz nos Óscares como uma das suas primordiais funções neste filme. A sua performance é perturbadora e genuinamente evocativa, mas drena todo o filme de qualquer outro tipo de significados ou apontamentos.
Em If I Had Legs I’d Kick You, Bronstein cavalga o género do terror elevado como uma espécie de missão de lastro performativo. As provações de Byrne enquanto mãe amontoam-se num intensificar de tensões mas nunca de significados. Ora enquanto mulher que se debate no mundo laboral pela força do isolamento, e Bronstein certamente retrata a profissão de psicólogo como profundamente decorativa, ora enquanto membro do sexo feminino em busca de qualquer tipo de interacção com o sexo oposto, como aqui se revela a relação entre Byrne e Conan O’Brien, Byrne vê-se a entrincheirar-se progressivamente numa prisão de sua própria concepção. Bronstein ecoa este miserabilismo através de uma formalidade permanentemente fechada perante si própria e redutora para o próprio espectador. Nesse aspecto, If I Had Legs mimetiza muita da energia paranoica de The Substance, fechando o filme em sucessivas sequências que trancam a sua protagonista num crescente frenesim de perspectiva isolacionista.
Do ponto de vista conceptual, a colocação de profundidades de campo inusitadamente curtas permite que demos por nós a decorar cada pormenor da face de Byrne em sucessivas cenas de exasperação ou genuíno terror, mas também faz com que a mise en scène se esgote em pouco mais que isso. Bronstein evita qualquer tipo de noção de espaço e de fechamento físico em prol deste formalismo operático. Byrne vai navegando situações e personagens secundárias com pouco a acrescentar para além do seu efeito de amontoar de pressões sob a sua condição de maternidade, mas a sua própria evolução enquanto personagem é barrada através deste princípio formal. Se o objectivo seria garantir a Byrne a tal nomeação para os Óscares através de uma avalanche de terrores maternais, Bronstein parece ter encontrado a fórmula certa, atravessando a especificidade e a expressividade da face de Byrne com todos os dramas individuais que a perseguem. Da mesma forma que em The Substance, contudo, If I Had Legs acaba por se esgotar assim que o seu conceito se torna ubíquo.
![]()
Hugo Dinis

O brilhante desempenho de Rose Byrne (Linda) é provavelmente o maior destaque desta obra, que se alimenta, na sua essência, da exploração da decadência emocional e psicológica da sua protagonista – da sua perceção e subjetividade – transformadas em combustível visual para a significação de um enredo já em si interessante e invulgar. Nota-se, na composição, no enquadramento e até mesmo na escolha do aspect ratio, um apego quase constante do plano em relação a Linda: uma câmara que faz de tudo para se manter o mais perto possível da protagonista, sempre que pode, seja em grande plano, em plano médio ou até em plano subjetivo, e que se afasta apenas quando é estritamente necessário respirar, para mais tarde se aproximar de novo, numa estética que nos mantém enclausurados e transforma a experiência de visualização numa viagem claustrofóbica pelo consciente e inconsciente desta mãe, presa num desamparo irresoluto e pressionada pela expectativa social de carregar em si o dom natural da maternidade.
Apesar de o comentário social ser evidente e de a experiência pessoal ser retratada de forma concreta e palpável, há também, em If I Had Legs I’d Kick You, uma experimentação quase onírica que pontua a narrativa e cria um contraste com a sobriedade formal dominante, expandindo a representação da experiência da protagonista do campo físico para o simbólico, sem tornar a narrativa abstrata ou comprometer o avanço do enredo. Como complemento coerente desta experimentação, a montagem não tenta esconder-se e assume a continuidade como uma escolha e não como uma obrigação. O corte deixa de ser apenas um conector de momentos interligados pela narrativa e afirma-se como uma verdadeira ferramenta de ritmos e cadências cíclicas – de calma e tensão – que se afunilam na implosão emocional e psicológica de Linda.
A comparação com o ritmo de Uncut Gems, dos irmãos Safdie, tem-se popularizado e, de facto, se If I Had Legs I’d Kick You pretende também deixar-nos ansiosos, consegue-o com igual intensidade. Porém, ao intensificar a representação da experiência asfixiante da maternidade, esta estrutura emocional e sensorialmente extenuante acaba por, em certos momentos, sacrificar a credibilidade das personagens e, por consequência, a empatia que sentimos por elas. A exaustão da protagonista é transmitida – e, de certa forma, transferida – para o espectador, tornando a experiência marcante pelo seu excesso de estimulação; no entanto, acaba por depender excessivamente do exagero, seja na forma como a protagonista age, seja nas reações que apresenta aos conflitos do enredo. São diversos os momentos em que as personagens comunicam quase exclusivamente através de gritos e choros, ou em que Linda simplesmente reage de forma desmedidamente negativa, tornando percetível uma certa construção forçada de tensão, o que dificulta a criação de empatia pela protagonista. Se, por um lado, nos sentimos incentivados a ligarmo-nos a Linda pela proximidade que a câmara nos impõe, por outro lado, essa mesma proximidade evidencia os seus traços mais excessivos e compromete a sua verosimilhança. É evidente que, como espectadores, deveríamos torcer pelo sucesso – ou, pelo menos, pela paz – desta mulher sobrecarregada pelas suas circunstâncias; contudo, tal tarefa nem sempre se revela fácil perante tanta gritaria e estridência emocional.
No final de contas, ao abandonar a subtileza, If I Had Legs I’d Kick You oferece-nos um novo prisma sobre o peso da maternidade e questiona as expectativas sociais irrealistas associadas ao papel da mulher enquanto mãe. Tal como a sua protagonista, acaba por se encostar demasiado à hipérbole e ao melodrama; mas, como ela, fá-lo com coragem, revelando na sua falha – o exagero – a sua própria assinatura.
![]()
Paulo Ventura

O mundo acordou para Rose Byrne. Depois de interpretações fantásticas em Bridesmaids (2011) e no muito subvalorizado Spy (2015), parece que a crítica, o público e a indústria se aperceberam finalmente do talento da atriz australiana. Em If I Had Legs I’d Kick You, Byrne interpreta uma mãe à beira de um ataque de nervos. Quando as circunstâncias trágicas que a rodeiam são tão complexas que parece que ela não aguentará mais, Linda é levada ainda mais ao limite. Produzido por Josh Safdie, If I Had Legs é verdadeiramente a versão maternal de Uncut Gems (2019). Ambos os filmes são autênticos geradores de ansiedade, de tal forma que se sai da sala exausto, mas sem que isso comprometa a experiência estimulante e, na verdade, cómica que é assistir a estas obras. Para este efeito contraditório muito contribui a realização frenética mas controlada de Mary Bronstein, bem como a interpretação excelente de Byrne, talvez o papel mais dramático e impressionante da sua carreira. Há que saudar também A$AP Rocky, o músico que protagonizou não um, mas dois filmes em 2025 – Highest 2 Lowest e If I Had Legs – e que é aqui deveras convincente e cativante no papel de empregado de motel.
![]()
Pedro Barriga

If I Had Legs I’D Kick You tenta entrar no ritmo frenético dos Safdie e talvez consiga colmatar um espaço de quem esteja a ressacar de outra recente estreia. A claustrofobia gerada pela ausência da imagem da filha, que se impõe pela sua saúde e insistências e que tanto pode ter 5 como 10 anos, oscila perante a presença de todos os outros que levam a Linda ao ponto de ebulição, sejam eles os pacientes obcecados, o psicólogo indiferente ou o marido arreliado, que não só distorce a própria figura da criança – permitindo-nos a imaginá-la como quisermos – e, principalmente, destrói a dedicação materna estabelecida, restabelecida e constantemente exigida ao longo do filme, num artifício que retira o espectador.
Se Linda é humanizada, a filha é tratada de modo completamente oposto. Sem nome e sem cara, está fortemente implícito que sofre de um distúrbio alimentar, doenças que afetam principalmente raparigas, cada vez mais novas, muitas vezes incompreendidas e chamadas de vaidade. Se o filme destaca as mães, em particular Linda e Caroline – uma paciente obcecada com a saúde do seu recém-nascido – e o impacto que ser consumida pelos seus filhos toma na sua personalidade e, inevitavelmente, saúde, então esta menina não é mulher ainda, mal sendo um ser humano. A ausência da sua face cria um dispositivo narrativo para o arco de Linda, fazendo com que se perca o seu próprio, existindo somente para uma aparição final e obstáculo na vida da sua mãe.
A psicoterapeuta que trata o seu próprio psicólogo como a tratam a ela, que desacredita da terapia de grupo e do quadro médico que a sua filha enfrenta e que, claro, só não dá pontapés porque não pode, é muito óbvia e, nas mãos erradas, teria tornado o filme ainda mais desastroso. Rose Byrne traz os tão necessários realismo e empatia a este esgotamento ao qual se junta um comportamento errático e uma dependência de substâncias. E, falando em óbvio, não pode ser ignorado o misterioso buraco no teto. Ou o self-insert da realizadora Mary Bronstein, enquanto médica da filha da protagonista, que repete incessantemente que a culpa não é das mães, não fosse o filme ser mal interpretado ou, ainda, para o caso de a sua própria ferida não estar ainda bem curada, já que o filme se inspira num episódio que a própria viveu.
![]()
Maria Inês Opinião



