Gregg Araki andava desaparecido. O cineasta associado ao movimento independente americano durante os anos 90 tinha sido visto pelo grande ecrã na última vez em White Bird in a Blizzard (2014), e, mais recentemente, enquanto realizador televisivo em The Jeffrey Dahmer Story (2022). O seu regresso, mais de uma década depois, está motivado pela auto-proclamada vontade em criar um filme desinibido na sua apresentação da intimidade e do sexo. Em I Want Your Sex, Cooper Hoffman é um jovem estagiário no atelier de uma artista risqué aclamada (Olivia Wilde). A relação entre ambos vê-se desde cedo a deslizar para uma dinâmica de poder em que Hoffman cumpre o papel de escravo sexual para Wilde, com consequências espalhafatosas e improváveis. A Tribuna saudou o regresso de Araki ao grande ecrã e voltou com as críticas.
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Ninguém está a fazer sexo em 2026. Quem o diz é Gregg Araki, a internet e, talvez também, a própria realidade. Araki, de resto, ostensivamente concebeu este I Want Your Sex como uma espécie de carta aberta à geração Z sobre a necessidade de representação do sexo como algo necessariamente positivo. Ao ouvi-lo falar, é difícil não simpatizar com a sua cruzada. “What is wrong with you guys? Your generation is all about FOMO, but you don’t care about missing out on the sexual prime of your life. You’re gonna be 45, 50, and are you going to look back with regret?“, diz à Vanity Fair. Esta afirmação, em todos os sentidos possíveis, é repetida quase à palavra pela personagem de Olivia Wilde em I Want Your Sex.
Infelizmente, a verdade é que a aversão geral à representação sexual no grande ecrã, seja esta fundada em puro conservadorismo ou não, é bem real. Will Gluck, o realizador de comédias românticas como Anyone But You ou Friends With Benefits, dois filmes cuja representação sexual é necessariamente central, revelou ter cortado inúmeras cenas de nudez e sexo do seu mais recente registo, One Night Only. “It takes you out of the movie“, é o seu argumento. O inefável Joe Russo junta-se ao coro de “sex-negatives” com o argumento de que as cenas de sexo não fazem avançar o enredo dos filmes.
Independentemente do conservadorismo societal em voga, ou não, importa sobretudo perceber o que leva alguém a associar algo tão mundano a uma perda necessária de intimidade no grande ecrã. Afinal, se o sexo é o último bastião de uma intimidade cada vez mais ameaçada por apps de encontros e assistentes de inteligência artificial que passam por namorados, o que representa a representação do sexo no cinema? Gregg Araki vê em I Want Your Sex um mundo fundamentalmente dividido entre gente reprimida e gente expansiva no domínio sexual.
Essa é uma realidade que se encontra até espelhada nas condições materiais de cada um. Aqui, Olivia Wilde é uma artista plástica de altíssima cotação, a gerir um estúdio de arte que conta com um batalhão de assistentes, e uma mulher que usa o sexo como ponto de venda. Um desses assistentes é Cooper Hoffman, a braços com uma carreira pouco digna desse nome, numa relação profundamente distante com Charli XCX, e a partilhar casa com uma melhor amiga (Chase Sui Wonders) que também se debate com a sua própria sexualidade em definhamento.
A tríade estabelece uma coligação tóxica que expõe sobretudo a visão negativista de Araki sobre o que uma das personagens define como a “sad reality of now“. Hoffman realiza-se na sua própria submissão, incapaz de se divorciar das suas repressões sexuais, enquanto Wilde usa e abusa da cultura de celebridade para se colocar à margem da representação do sexo como intimidade, como Gluck ou Russo a enquadrariam. A resolução é tão feliz para os envolvidos como insidiosa na sua capacidade de enquadrar uma sociedade doente, não apenas na sua construção de mitos em torno de celebridade como também na sua negação do sexo enquanto pura forma de libertação e realização fisiológica. Araki vê-nos como sedentos de sangue mas não sexo, a ansiar por drama mas não por diversão. I Want Your Sex é, nesse sentido, tudo o que a carta aberta de Gregg Araki à navegação pretendia ser.
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Hugo Dinis

Não tendo visto nenhum filme da filmografia de Gregg Araki, foi-me recomendado que neste Verão de particular secura cinematográfica fosse assistir a I Want Your Sex. Um filme particularmente bem sucedido em quase todas as frentes onde vai à luta. Araki constrói um pequeno manifesto sobre a sexualidade em 2026, nomeadamente na dicotomia da Geração Z vs Millennial. É verdade que “todos os filmes já foram feitos antes”, mas a forma descomplexada e sempre no fio da navalha entre a leveza e o peso da manipulação emocional fazem de I Want Your Sex um filme particularmente colorido nos dias que correm, principalmente quando está na mesa uma realidade que tem servido de linfa para qualquer pequeno cineasta fazer o seu pequeno filme.
Aplicando rótulos e generalizações de forma casual, e assim menos evidente e de forma muito mais respirável, Cooper Hoffman e Olivia Wilde protagonizam uma relação sexual baseada nas dinâmicas de poder de patroa dominadora e jovem empregado submisso, um pouco como o espelho de Babygirl (Nicole Kidman e Harris Dickinson). Mas se em Babygirl essa dinâmica jogava com um agridoce muitas vezes negro e fetichista, I Want Your Sex apresenta uma versão muito mais colorida, equilibrada e com um verdadeiro cunho autoral no que diz respeito a montagem, diálogo e metamorfose de géneros. Nesse sentido, o filme só é possível devido sobretudo à dedicação de Cooper Hoffman. O jovem actor (Licorice Pizza, The Long Walk), transporta várias emoções, entre o foco e o desleixo, a luta de ser um jovem em início de carreira no mundo das artes numa pequena função na galeria de uma prestigiada artista, numa realidade onde os jovens parecem estar cada vez mais reprimidos sexualmente. A certa altura afirma: a nossa geração foi educada de forma a limitar as interações sociais, é por isso que nos é tão difícil estabelecer contacto visual.
É na linha ténue entre as dinâmicas de personagem que derretem e se confundem com a própria realização que I Want Your Sex obtém a sua eficácia. Os saltos temporais, logo desde o início do filme, que nos permitem observar a relação entre os dois protagonistas, tem um cunho de comédia plástica que funciona, algures entre o absurdismo e o dilema moral. E depois temos as personagens secundárias, que tão bem ilustram as dinâmicas de amizade de uma certa franja social dos Estados Unidos. Chase Sui Wonders é a melhor amiga e colega de casa de Hoffman, receptora de segredos e divagações, com uma dinâmica reprimida ainda por descobrir com o protagonista. Em simultâneo Mason Gooding, carismático como já o tínhamos visto nos mais recentes Scream, entre outros papéis, na qualidade de amigo do trabalho disponível para tudo, desde que não lhe estrague os encontros. Um filme bastante completo e um balão de oxigénio na seriedade doutrinária que se vai produzindo aqui e ali, autoconsciente na medida certa para saber brincar consigo próprio, e sendo subversivo o suficiente para beliscar sem impor o apertão.
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David Bernardino



