Críticas a I Know What You Did Last Summer, de Jennifer Kaytin Robinson

EquipaJulho 23, 2025

Passaram 28 anos desde o lançamento de I Know What You Did Last Summer e, por alguma razão, a saga está de volta — desta vez sob a forma de uma requel, tentando apanhar a boleia da nostalgia slasher e, em particular, seguir a fórmula de sucesso do franchise Scream. Novas caras e o par de sempre, traumas reciclados e o mesmo assassino de gabardina e gancho em punho… David Bernardino e Rafael Fonseca foram ver se havia algo de novo (ou digno de nota) neste inusitado regresso.

Quando cinco amigos provocam inadvertidamente um acidente de carro mortal, decidem encobrir o seu envolvimento e fazem um pacto para manter o segredo. Um ano depois, o passado regressa para os assombrar e são forçados a enfrentar uma verdade aterradora: alguém sabe o que fizeram no verão passado… e está decidido a vingar-se.

 

Vamos fingir por um momento que Sei o Que Fizeste no Verão Passado foi, alguma vez, um franchise relevante, que foi algo mais do que apenas um slasher visto por alguns adolescentes no final dos anos 90 (que provavelmente nem viram o Scream no ano anterior). Vamos também fingir que, em 2022, o filme Scream (o quinto capítulo) – esse sim um reboot/sequela consciente, que deu a volta ao conceito, quebrando por vezes a quarta parede e brincando de forma cínica com a sua própria lógica comercial – não existiu. Só neste universo será original esta nova versão de Sei o Que Fizeste no Verão Passado que tenta capitalizar o mesmo conceito, apresentando um novo elenco de “jovens”, mas trazendo de volta os “originais” Jennifer Love Hewitt e Freddie Prinze Jr.

Apesar de ser óbvio à distância o que está a ser feito, o filme de Jennifer Kaytin Robinson — terrivelmente realizado e montado — consegue lançar, com um ritmo agradável, uma série de frases e situações absurdas que apimentam o seu espírito assumidamente camp e rasca. As personagens, orgulhosamente limitadas nas suas ações e desenvolvimento, funcionam como marionetas saltitantes, cheias de referências sócio-culturais contemporâneas (criptomoedas, xanax, a ideia de que os homens precisam de ir à terapia). É muito divertido, e quase se torna num daqueles filmes tão maus que acabam por ser bons. Freddie Prinze Jr. está particularmente desajeitado enquanto ator, um canastrão sem lugar no cinema — a não ser para dizer as pérolas que lhe cabem aqui. É difícil de avaliar, mas é inegável que há algo de mágico neste tipo de filmes quando vistos em grupo, sem vergonha de reagir, sem medo de soltar gargalhadas — e isso não é fácil de encontrar. Este Sei o Que Fizeste no Verão Passado é um belo pedaço de cinema conceptual, manhoso e foleiro… mas quem procura um verdadeiro slasher de terror, não é aqui que o vai encontrar.

David Bernardino

 

Desde que David Lynch lançou Twin Peaks: The Return, em 2017, que se tornou claro para todos o poder estupendo e brutal do regresso da personagem e do seu intérprete à cena após uma travessia de décadas através do tempo real. Sendo consensual a supremacia dessa obra no exercício, e existindo outras iterações de qualidade (Halloween, de David Gordon Green), é também mais que sabido que a legacy sequel – portanto, a sequela que retoma personagens e circunstâncias do filme original, datado ou ‘clássico’ para recontextualizar um elenco jovem e enquadramento renovado – se tornou há já algum tempo cash cow para todo o tipo de grandes produções. O que nos interessa, e que já tivemos a oportunidade de sobrevoar várias vezes, seja com Halloween Ends ou com Leos Carax, é a forma como em mãos certas ou erradas o efeito do feitiço temporal difere e, dando para o torto, a tentativa de aglutinação do tempo vivido produz só um efeito surdo e sinistro, seja o actor velho a cumprimentar o ensemble novo, o pai a emocionar-se a ver o filme com o filho, ou outro delírio corporativo.

Este acto falhado é mais uma vez muito claro em Sei o Que Fizeste no Verão Passado (2025), sequela de Sei o Que Fizeste no Verão Passado (1997), um filme onde, à semelhança do original, um grupo de adolescentes comete um erro estúpido e veranil numa estrada, provocando a morte de um condutor que se despista falésia abaixo. Um ano depois, começam a ser assassinados membros deste grupo de amigos, no seguimento de uma mensagem ameaçadora com o título do filme deixada num envelope, com a suposição de que estão a ser alvo de uma vingança executada pelo falecido ou um familiar deste, etc.

O filme quer muito que achemos a situação similar à de 1997, ou que nos lembremos nós que vivemos outrora um ano com esse número, a começar por deixas como “há muitas semelhanças com 1997”, ditas assim, por extenso e tudo, ou como uma sequência delirante de tribunal onde irrompe um dos protagonistas do primeiro filme, exclamando “isto não é a primeira vez que acontece!”

A coisa chega a tal ponto que existe um segmento de visita ao cemitério onde estão enterradas as vítimas do original, o que podia ser uma cena e pêras, textualmente densa, tudo isso, não fosse o grau zero de esforço ou pensamento, triste e generalizado, que vemos aí como ao longo do filme.

Esse grau zero é igualmente vísivel nas constantes ‘referências à actualidade’: uma das personagens tem um podcast sobre o massacre de 1997, com merch que vende no Etsy. Outra roga ao assassino “podes levar a minha crypto wallet!” enquanto é perfurado por um harpão, há igualmente referências a skin care, gaslighting, Adderall, Xanax, Mercúrio retrógado, gajos beta, apertar o pescoço no sexo, o meme da Nicole Kidman no cinema, homens não fazerem terapia, besties, e The Body Keeps The Score; antes de morrer, a podcaster exclama: “I fucking hate it here!” e ficamos sem saber se os executivos realizaram um censo desesperado, se recorreram a inteligência artificial ou se pediram ajuda ao ‘estagiário da geração Z’.

Depois de Halloween, tudo o que restava de interessante a fazer com o conceito da legacy sequel no género do slasher já foi feito nos muito bons Scream (2022) e Scream VI (2023), e de forma peremptória: não só funcionam bem enquanto filmes como também, fiéis ao conceito desse IP, explanam com sucesso os mecanismos e idiossincrasias presentes, como os confirmar ou subverter, parecendo posicionar-se sem grande questão como os pontos finais na matéria.

Por cá, as personagens vagueiam por entre as campas dos falecidos do tempo do antigamente. Dentro de um barracão no cemitério repousa o carro folclórico usado por Sarah Michelle Gellar no original, uma Buffy que aparece aqui numa sequência de sonho com a cara de-aged – também na vida real se parece ter ido desempoeirar o barracão com os adereços desta franquia mal-amada. E porquê? Para uns trocos? Jennifer Love Hewitt é o grande destaque do elenco, num papel de mentoria e protecção dos míudos, mas está tão claramente desligada, parece tão ausente de si mesma, que há uma cena com ela sentada no sofá sozinha em casa, à espera de uma presença oculta, que juro que se sente como um atavismo o deslizamento dela (e o nosso) para os anos de protagonismo na série Ghost Whisperer / Em Contacto. Não é num bom sentido: de repente, estou de volta a casa a ver a SIC à tarde, como se não tivesse passado tempo nenhum. Freddie Prinze Jr., também retornado da obra original, parece uma verdadeira assombração que emergiu grisalha e com a voz mais grossa das profundezas do meu antigo videoclube para nos relembrar que vamos todos morrer. Deixem lá a malta em paz.

Rafael Fonseca