O mais recente projecto de Glen Powell junta-o a John Patton Ford, o realizador de Emily The Criminal, numa história de um homem deserdado pela própria família que se lança num plano para se voltar a infiltrar nela. Readaptado a partir de Kind Hearts and Coronets e baseado num romance de Roy Horniman, o filme lida com ressentimentos de classe através de um registo satírico. Os tribunos Raquel Sampaio, Hugo Dinis e David Bernardino lançam o seu olhar crítico a How To Make A Killing, já em exibição nas salas portuguesas.
Condenado à morte por homicídio, Becket Redfellow passa as suas últimas horas a falar com um padre. Nessas conversas, relembra a infância com a mãe, que foi expulsa da família rica por não querer interromper a gravidez. Cresceu na pobreza, com muito esforço dela, e recorda uma vida de dificuldades, revolta e sonhos por cumprir. No fim, o plano de matar tios e primos – que via como obstáculo à herança que achava ser sua – levou-o a esse destino.
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Glen Powell é uma das últimas movie stars no sentido clássico do termo e isso não é dizer pouco. Powell traz qualquer coisa de diferente ao ecrã: presença física, ironia natural, o raro talento de ser simultaneamente acessível e magnético. É distinto de Zendaya ou Timothée Chalamet que pertencem a outro registo mais distante, mais oblíquo. Powell é outra coisa: é cinema de corpo inteiro. O problema não é ele. O problema é que os filmes continuam a ficar aquém. How to Make a Killing chega com credenciais tentadoras. John Patton Ford estreou-se com Emily the Criminal, um neo-thriller de classe trabalhadora com Aubrey Plaza no seu melhor. O elenco de How to Make a Killing inclui Margaret Qualley, Topher Grace, Ed Harris e Bill Camp. Os ingredientes estavam todos ali. Et pourtant…
O filme arranca com Becket Redfellow (Powell) numa cela, a horas da execução, a confessar os seus crimes a um padre. É o pretexto narrativo para um flashback longo: somos levados até uma Nova Iorque onde Becket, neto ilegítimo de um milionário cruel (Ed Harris), decide tomar o que lhe pertence por direito. O obstáculo? Há sete pessoas à sua frente na linha de sucessão. A solução apresentada pelo argumento é, portanto, óbvia e o filme sabe disso, o que significa que teria de compensar com estilo, com comentário social, com brutalidade cómica ou com humanidade (tal como, muito recentemente, Park Chan-Wook fez no seu No Other Choice). Não faz nenhuma dessas coisas com convicção suficiente. O que se segue é uma sucessão de assassínios, onde cada vítima aparece apenas o tempo necessário para morrer. Há um primo de Wall Street hiperativo (Raff Law), um artista pretensioso que se autointitula o herdeiro branco de Basquiat (Zach Woods), um evangelista bronzeado que lamenta ter sido mal compreendido pela sua amizade com El Chapo (Topher Grace, subaproveitado). São personagens esboço, nunca personagens inteiras e o filme paga um preço alto por isso. Sem investimento nas vítimas, os crimes tornam-se eventos sem peso, nem dramático nem cómico.
Bill Camp surge como a exceção, injetando alguma espessura moral numa figura que o argumento usa para complicar Becket. Jessica Henwick faz o que pode com uma professora de escola que representa a consciência emocional do filme. E Qualley aparece e desaparece ao longo do filme como se tivesse saído dum set para outro, sensual, calculista, claramente mais interessante do que o espaço que lhe é dado. Quanto a Powell: tenta. Tenta à séria. Mas o argumento entrega-lhe uma personagem cujas motivações nunca ficam verdadeiramente claras; e o ator, que em Hit Man de Richard Linklater encontrou o tom perfeito entre a superfície e o fundo, aqui não consegue encontrar o fio. Becket muda de homem comum para assassino sem fissura, sem o que quer que seja que nos prenda. A performance fica na superfície porque o guião nunca lhe oferece outra profundidade. How to Make a Killing quer ser ao mesmo tempo comédia negra, thriller de classes e retrato de um psicopata charmoso e não é nenhuma dessas coisas com suficiente intensidade para se justificar. Comparando com os exemplos recentes que fazem o mesmo comentário – com a crueldade saborosa de The Menu (2022), ou a engenho narrativo dos Knives Out -, este filme parece uma sobremesa que ficou no forno tempo a menos. Não é mau por ser ambicioso e falhar. É mau por ser morno, e ser morno, neste género, é pecado capital.
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Raquel Sampaio

A proliferação recente de peças mais ou menos satíricas, e mais ou menos dramáticas, sobre considerações de classe tem levado a uma crescente redundância de propósitos. Entre No Other Choice (2025), The Housemaid (2025) ou Glass Onion (2022), por exemplo, a influência de Parasite (2019) no discurso de classe no cinema recente tem sido praticamente omnipresente. A forma como cada um destes trabalhos tem decantado a narrativa de desigualdades também se poderá dizer que é representativa da forma como cada sociedade as acaba por encarar. Park Chan-wook leva-nos por dentro do mundo do trabalho coreano, com a marca identitária de um país profundamente envolvido na sua cultura profissional. Já Paul Feig e Rian Johnson confrontam-nos com a podridão de uma classe endinheirada que se auto-consome e se mantém alheia a tudo o que a rodeia. Nesse enquadramento, não é surpreendente que John Patton Ford (realizador de Emily The Criminal) se posicione muito mais dentro daquilo que é a abordagem deste segundo grupo, pelo que um remake de Kind Hearts and Coronets, de Robert Hamer e Roy Horniman, estaria necessariamente sujeito a esse tratamento dramático. Em How to Make a Killing, um herdeiro distante de uma família abastada (Glen Powell) é colocado à distância pelos próprios familiares, forçando a sua mãe a educá-lo no mundo dos comuns mortais. A morte prematura da mãe e, em particular, as suas derradeiras palavras no leito mortal levam Powell a restabelecer contacto com a família que o abandonou, desta feita com o intuito de recuperar, à força, o seu lugar de herdeiro da sua fortuna.
Ao passo que Kind Hearts empurra Alec Guinness, o seu protagonista, para uma jornada de vingança tingida a comentário social mordaz, mostrando a implausibilidade dos seus delitos como uma intrusão num circulo de gente excêntrica e alienada, empedernida na sua crença de superioridade genética perante os demais, Patton Ford, tal como Johnson e Feig, vê esse revanchismo de forma menos subtil e mais marcado pela vontade de produzir uma trama verdadeiramente investida nos meandros criminais de todo este absurdo. Powell, um dos actores do momento, dono de um maxilar impecável e um sorriso de milhões de dólares, parece ser uma bizarra escolha de elenco para uma personagem que é, com efeito, um outcast. Em todo o caso, o seu voluntarismo para aceitar este tipo de papéis de protagonismo marcados pela componente humorística tem o condão de produzir cinema populista de assinalável eficácia, como em Twisters (2024) ou Anyone But You (2023). Tal como nesses filmes, Powell é aqui igualmente colocado no centro de uma dinâmica romântica que procura desencadear os mecanismos da trama. A sua missão de eliminar os herdeiros da fortuna familiar, um por um, com o intuito de vingar o final humilhante da sua mãe (Patton Ford repetidamente nos lembra disso mesmo, pelo uso recorrente da imagem de um medalhão com uma madeixa do cabelo da mãe nas mãos de Powell) leva-o a travar conhecimento com Jessica Henwick, namorada de um dos pobres coitados que passam à história.
O romance entre ambos representa o principal arco narrativo que diverge do material de origem face ao filme dos Ealing Studios. E, de facto, essa escolha está longe de ser inocente. Não seria até difícil de imaginar que o envolvimento entre Powell e Henwick tenha sido decidido numa sala de conferências com base numa bateria de testes de audiências. A cena em que ambos se conhecem coloca o par a completar as suas próprias frases, uma cumplicidade motivada por ambos conhecerem o nome de um dos mais populares romances de Dickens e da história da literatura, por arrasto. O que How To Make A Killing tem de fiel ao seu material de origem também acaba por ter o condão de conferir às diferenças uma infeliz incapacidade de extensão de argumento. A cumplicidade entre Powell e Henwick coloca a nu a falta de verdadeiro propósito narrativo de Patton Ford. Os diálogos estão desprovidos da argúcia mordaz que poderia satirizar todos estes herdeiros desenxabidos que Powell vai eliminando, de forma crescentemente menos criativa (não foi apenas Topher Grace, um absurdo pastor de uma mega igreja evangélica que também se encontra na linha de sucessão hereditária, que viu a sua bebida ser envenenada), da mesma maneira que reflectem um vazio presente no coração romântico da história entre Powell e Henwick. Por outro lado, a introdução de Margaret Qualley (também ela uma herdeira de realeza de Hollywood, filha de Andie MacDowell) como antagonista que deslinda as intenções criminais de Powell para proveito próprio lança Patton Ford numa tangente desenhada para terminar com o figurado e literal encarceramento de Powell numa prisão abastada de sua própria construção. A voz off de Powell cedo nos explica que toda a sua história é sobretudo uma tragédia, não fosse esta confessada à sisuda figura de um padre. O seu destino está traçado com a impiedosa voz de um filme apostado a dizer-nos que o dinheiro não compra… felicidade.
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Hugo Dinis

Existe um certo prazer rotineiro em ver filmes como How to Make a Killing, por sua vez um remake de Kind Hearts and Coronets (1949). Filmes assumidamente medianos que compõem a maior parte do tecido de novidades que vão passando em sala e justificam a existência, cada vez mais rara, desse lugar chamado cinema. E é com todo o gosto que nos deslocamos para ver novamente Glen Powell. Talvez já seja o novo grande leading man de Hollywood, dotado de presença, carisma e uma particular habilidade interpretativa, e continuar a observar o desenrolar da sua carreira talvez seja o ponto de maior interesse no filme. A personagem Becket pedia Powell: um espertalhão habilidoso, com tiques de Hit Man de Linklater, charmoso quanto baste, e que se insere tão bem na linguagem do thriller como na da comédia. Mas o filme não o acompanha.
Movendo-se nos meandros da metáfora de classes — Powell interpreta o último na linha de sucessão a uma herança desmedida, filho de uma mãe deserdada — a verdade é que How to Make a Killing nunca assume uma posição absolutamente clara sobre o seu próprio tema. O que até acaba por funcionar. A agilidade do género híbrido thriller/comédia, com toques de romance, puxa claramente, talvez sem plena consciência, um pouco da Hollywood clássica do filme original. Isso faz com que o filme apresente uma razoável solidez, mas nada parece realmente robusto. O elenco secundário, recheado de talento (há Margaret Qualley, Ed Harris, Topher Grace, Jessica Henwick) — não fosse este um filme de actores — nunca sai da caricatura, da simbologia. É aí que a engrenagem começa a falhar e o filme se transforma numa sucessão previsível de cenas onde Powell vai colando a sua presença, dando algum brilho ao tempo que vai passando.
Seríamos injustos, no entanto, se não realçássemos o terceiro acto do filme, evidentemente desconexo de tudo o resto, mas perfeitamente autonomizável no seu interesse. A mise en scène leva-nos ao confronto final entre Becket (Powell) e o magnata-avô Whitelaw Redfellow (Ed Harris) na gigantesca mansão de família. Ao aproximar-se do portão da propriedade, e assim dessa classe ou sociedade dominadora que opera nas sombras nos Estados Unidos, surge inevitavelmente no pensamento Eyes Wide Shut, de Kubrick. Um mordomo por trás da porta, a noite escura, as divisões em estilo gótico vitoriano, uma caçadeira, um arco e flecha. John Patton Ford terá pelo menos o mérito de ter construído essa mansão, referida ao longo de todo o filme como uma espécie de El Dorado, quase como se se tratasse de uma personagem. É quase suficiente, mas no final é precisamente o que se espera: um filme rotineiro, sem riscos, sólido quanto baste, apetitoso o suficiente para justificar um serão no cinema.
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David Bernardino



