Críticas a Hope, de Na Hong-Jin – Que a Besta Morra

EquipaSetembro 17, 2026

Depois de uma estreia mundial polémica no Festival de Cannes e de uma sessão lotada no MotelX, Hope, o mais recente filme de acção do realizador sul-coreano Na Hong-jin chegou finalmente esta semana às salas de cinema portuguesas. A película chega-nos exactamente dez anos após The Wailing, que catapultou em definitivo Na Hong-jin para consciência cinéfila global. Hope conta a história de dois polícias no encalce de uma estranha criatura que causa o caos na pequena povoação fronteiriça sul-coreana de Hope Harbor, apenas para descobrirem que o monstro é muito mais do que parecia à primeira vista. A Tribuna não pôde deixar de marcar presença em sala e deixa agora as suas críticas. Se por um lado David Bernardino elogia o filme como um dos melhores do ano, Hugo Dinis vai em direção diametralmente oposta classificando-o como medonho. Algures no meio destas duas opiniões, sem grande entusiasmo, escrevem também André Filipe Antunes e Rafael Fonseca. A conferir abaixo.

 

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Existia nos anos 80/90, e também 2000, no cinema norte-americano um certo estilo de blockbuster de acção pejado de habilidade, movimento e palpabilidade, numa era ainda fascinada com as potencialidades dos efeitos especiais gerados por computador. Filmes como Aliens (1986), Terminator 2 (1991), Die Hard (1998), mas também Gone in 60 Seconds (2000) ou Bourne Identity (2002), fizeram as maravilhas desse cinema escapista que poucos anos depois foi sendo ferozmente substituído pela amálgama totalmente digital dos “green screens” da Marvel e outros que tais. Já muito foi escrito sobre Hope, e como o novo filme de Na Hong-jin (realizador de The Wailing (2016) e The Chaser (2008), ambos excelentes, talvez até definidores) consegue capturar esse sentimento que parece estar ausente das grandes produções ocidentais.

Hope está longe de ser um filme consensual. Se por um lado uns elogiam esse revivalismo do thriller de acção-espectáculo, outros condenam o filme por confuso, cliché e portador de um CGI que não deveria ser admissível em 2026. Falando então em nome próprio, foram raras as vezes em que senti recentemente numa sala a adrenalina e entusiasmo sentido com Hope, com todas as suas “falhas” e atalhos que apenas existem a bem do espectáculo e da criação de peripécia. A tão falada primeira hora de Hope é uma obra prima. Uma perseguição em “tempo real” em busca de uma criatura que terá morto gado e criado destruição numa vila rural Sul Coreana de média dimensão. Introduzindo logo várias personagens, desde o chefe da polícia ao casual cidadão de meia idade armado com uma espingarda, todos os pequenos momentos estão pintados por detalheszinhos de personalidade e tontices mundanas num diálogo que se quer de alta pressão, mas quem sabe se em alta pressão as pessoas não falariam mesmo assim. “- Vou contar até 3 e avançamos”, “- Mas avanças tu ou avanço eu?”, “- Inútil de merd*!”. A misteriosa criatura vai sendo revelada aos poucos, com muito sangue e uma violência desproporcional típica desse thriller a alta velocidade que parece ser cada vez mais raro, aqui com toques de terror que irão coçar o gene da adrenalina do espectador mais disponível.

É verdade que a partir do momento em que a criatura é finalmente revelada existe um sentimento de estranheza perante um visual gerado por computador que parece vindo de outro tempo, mas ultrapassando essa barreira estética (Avatar é assim tão melhor?!) rapidamente percebemos que Hope não é tanto sobre credibilidade, mas sobre movimento e criação de set pieces que sejam capazes de encher o olho e intrigar o espectador disponível para estes exageros de acção e ficção científica que nada têm de real. E não é suposto terem. A construção do Mundo de Hope que se segue na hora e meia seguinte, entre investigações e autópsias à “Ficheiros Secretos”, sempre no fio da navalha do intrigantemente ridículo por entre motoserras e um testemunho de um velho caçador com incontinência fecal aterrorizado na floresta, Hope é demasiado surreal e desavergonhado para ser verdade, mas nunca deixa de ser altamente eficaz. As sequências na floresta, os cavalos, os limites do cinema de perseguição e do uso da câmara lenta, da estereotipação de personagens, mas sempre pintadas com as suas idiossincrasias, o filme de Na Hong-jin consegue voltar a captar a cadência incessante de The Wailing (2016) e The Chaser (2008). Esse sentimento por si só, faz de Hope um dos filmes do ano.

David Bernardino

 

À entrada para a sala de cinema, Hope apresentava-se como um caso curioso. Já lá vão dez anos desde The Wailing (2016), o trabalho anterior do realizador coreano Na Hong-jin, e a indústria agora é decididamente uma besta diferente. Na construiu reputação como realizador de policiais com sabor a fantástico e o relativo sucesso de culto de The Wailing deixou no ar a afirmação de uma marca de água no cinema coreano que pudesse transpor a acção como exportação de sucesso. Os rumores que surgiram de Cannes, onde o filme gozou a sua estreia mundial, variaram entre críticas ao CGI abundante em Hope e loas à ambição e abrangência do material apresentado. Certo é que Hope parece ser a submissão de Na aos grandes estúdios americanos como potencial mão de serviço para a realização de blockbusters sem alma nem propósito para além de dinheiro rápido. Hope é um trabalho que faz por atirar tudo à parede, na esperança que algo lá fique colado, sem que necessariamente tenha de passar pela chatice de ter algo a dizer ou de construir personagens minimamente envolventes.

Já que a intenção passará mesmo pela conversão hollywoodesca da super-acção ao serviço de super-heróis sem nome nem ideal, importa olhar para Hope como tal. Do ponto de vista tonal, o que imediatamente salta à vista é a necessidade imperativa de colocar um registo humorístico em praticamente todos os momentos. A certa altura, uma das personagens laterais (haverá alguma verdadeiramente central?) brinda-nos com um monólogo de vários minutos de piadas sobre um caso bicudo de diarreia. O polícia que seguimos em busca dos diferentes monstros, bestas e alienígenas que vamos encontrando arrasta as palavras e entoa-as com o enfado próprio de quem está velho demais para isto tudo. Só por si, esta sinalização para a parvoíce não é, convenhamos, um óbice para desfrutar de Hope. Não faltam por aí excelentes filmes de acção coloridos por inúmeros momentos felizes de humor. Mas onde a manta pode tapar de um lado arrisca destapar do outro. Hope aponta para um terceiro acto de um peso temático cujas facturas já tem enorme dificuldade em passar.

Afinal este não é apenas um mero filme de acção, destinado a comprar duas horas de diversão com um conjunto de humanos imperfeitos em busca de criaturas destrutivas. Na apresenta, desde a sua incepção, um mundo marcado pela intolerância com o Outro. A pequena localidade coreana que é alvo do ataque por parte de estranhas criaturas oriundas de parte incerta, de nome Hope Harbor, situa-se perto da zona desmilitarizada, carregada de sinalética a alertar para a necessidade de vigilância constante perante a ameaça da infiltração e da contaminação exterior.

Em conjunto, o tosco grupo que se junta para discutir a natureza da criatura que procuram no seguimento de um ataque num campo de pastagem local especula sobre a passagem de um tigre por campos minados e arames farpados. A perseguição que se segue, primeiro por parte dos humanos, depois por parte da criatura, e novamente com o culminar da imposição humana, desfia a vila e apenas revela ainda mais vícios: o grupo que parece ver na busca um foco de fama pessoal, o homem que abate uma criatura imberbe na esperança de lhe valer algum dinheiro, o polícia que alveja os próprios aldeões por mesquinhez. Este registo, por altura em que Hope atinge o seu clímax, facilmente podia ser confundido com niilismo não estivéssemos nós a falar de um filme perfeitamente incapaz de construir sequer uma personagem digna de reconciliação com o espectador.

Hugo Dinis

 

A primeira das quase três horas do novo filme de Na Hong-jin gere de forma eficaz a tensão inerente ao seu cenário inicial: a perseguição de um inimigo invisível, o mistério sobre o que atormenta, afinal, esta cidade, culminando por fim numa ótima e pulsante sequência de ação pelas estreitas ruas da vila coreana (ainda que aldrabando de forma por vezes óbvia as regras do seu espaço geográfico). É o ponto alto do filme, que a partir daí perde rapidamente todo o embalo e boa vontade, tomado pelo excesso maximalista e vazio de significado (a bizarra e prolongada divagação escatológica de uma personagem secundária é a este respeito presságio), um desenho narrativo soluçante e enfadonho, uma sequência final tão longa e elaborada que começa a fazer lembrar os piores devaneios de Michael Bay ou Velocidade Furiosa, para não dizer nada de um insultuoso cliffhanger e sugestão de sequela por devir – um final que trai as reais aspirações do exercício, a de pretenso blockbuster industrial à escala do seu megalómano (para o contexto asiático) orçamento. Hope parece assim exemplificar as piores tendências da ocidentalização do cinema sul-coreano, cada vez mais um pré-requisito para a aceitação empacotada dos principais festivais de cinema europeus (a seleção em competição para a Palma de Ouro em Cannes é, à luz do objeto, incompreensível). Haja paciência.

André Filipe Antunes

 

The Wailing é um grande filme, e a minha sessão preferida de sempre do MotelX (MotelX 2016): Na Hong-jin compreende que o desespero é a moeda mais interessante no cinema de terror e distribui-o no seu filme anterior de uma forma que vai além de uma série de picos para formar um contínuo em crescendo, mais longo e mais incessante do que qualquer outro filme que tenha visto. Foi essa experiência paroxística que procurei rever no curioso primeiro acto de Hope, onde o protagonista, também um polícia, corre atrás do rasto de destruição de um monstro que acaba constantemente de ter passado nos instantes anteriores, um just missed him imensamente curioso que parecia estar a encaminhar-nos para uma espécie de Godzilla metafísico, sublinhado, para mim, numa cena onde o polícia e uma personagem recém-chegada matam sem querer um civil. Mais tarde, no acto final, uma sequência de perseguição e combate na floresta enormemente decoupada, caríssima em matéria de trabalho e orçamento, procurei ainda reencontrar essa experiência de desespero numa espécie de ideia duracional ou experiencial do registo de acção, terreno mais que fértil para grandes pensamentos de cinema. Crank (2006), de Neveldine/Taylor, é para mim um filme perfeito. Cloud (2024) de Kiyoshi Kurosawa termina num tratado fílmico sobre as intensidades envolvidas numa sequência de acção. Transformers: The Last Knight (2017) de Michael Bay, é o mais virtuoso dessa saga… (o pior, Revenge of the Fallen, é o que mais se pode comparar com Hope, que numa piada extensiva sobre diarreia parece evocar os “testículos de robô” desse filme de Bay). Estava, resumidamente, disponível para entender a infindável acção de Hope. Infelizmente, é muito difícil de entender aquilo que interessa a Hong-jin e ao filme, pois os elementos que o realizador parece querer que sustentem tudo isto são incompreensivelmente fracos: uma invasão de alienígenas cada vez mais banais e antropomorfizados ao longo do filme, contestada por um elenco de personagens que inclui, por exemplo, um gajo muito burro para comic relief. O filme, de modo meio infame, termina com os aliens a discutirem os passos seguintes, numa espécie de lore drop que ainda nos informa sobre a sua biologia. É um contraste directo com a primeira hora onde não se sabe nem vê nada, onde pensei inclusive “filme de acção antonioniano”, e inferior ainda a um momento curioso onde vemos, a meio de uma perseguição, aquilo que parecem ser lágrimas a sair dos olhos de um monstro. Nessa altura, desconhecemos ainda por completo a razão, que será, aparentemente, elucidada na sequela.

Rafael Fonseca