Críticas a Honey Don’t! de Ethan Coen

EquipaOutubro 3, 2025

Segundo filme de uma trilogia de lesbian b-movies imaginada por Ethan Coen (aqui sem o seu irmão Joel) e Tricia Cooke, Honey Don’t! dá continuidade a Drive-Away Dolls, comédia/road movie/thriller estreada no ano passado. Aqui, o humor dá lugar a algum desencanto, mas o filme nunca perde o gosto pelo absurdo. Margaret Qualley regressa como protagonista (a titular Honey, detective privada), acompanhada por Aubrey Plaza (uma polícia) e Chris Evans (um pastor evangelista). As críticas são de Carla Rodrigues e Miguel Allen.

 

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Sou fácil de conquistar com boas sequências de créditos, e Honey Don’t! abre com uma dessas pérolas. A câmara vagueia por Bakersfield, a terreola que dá chão ao filme, transformando a cidade num mural para os nomes da equipa envolvida no filme: aparecem escritos como graffiti em comboios, letreiros de lojas, rabiscos na parede, cartazes escritos à mão… Cativou-me logo. Prometia muito. Mas como não há regra que não tenha exceção, depois disso, foi (quase) sempre a descer.

A história segue Honey O’Donahue, uma detective privada interpretada por Margaret Qualley. No segundo capítulo de uma trilogia meio improvisada, unida mais pelo tom (casos de crime que descambam para o trapalhão, sempre com protagonistas queer) do que pela narrativa, Honey tropeça numa série de mortes potencialmente ligadas a uma pequena congregação liderada pelo Reverendo Drew Delvin (Chris Evans). E vai daí, tropeçamos nós também pelo filme fora.

Qualley tem sido quase sempre o ponto alto das obras que protagoniza, e esta não é exceção. É talvez a única personagem que nos prende, encarnando uma versão feminina dos detectives que habitam os melhores film noir: respostas rápidas, sarcasmo à flor da pele, seriedade quase cómica, um certo desprendimento cool. Só que tudo o que a rodeia é um desperdício. O enredo atira-nos com vários fios que nunca chegam a formar uma teia, a intriga evapora-se mal dá sinais de querer espreitar, e para um filme que supostamente presta homenagem ao noir, falta-lhe aquilo que define o género: suspense, tensão, o prazer de sentir que estamos a entrar cada vez mais fundo num buraco sem saída.

Juntos, os manos Coen sabiam transformar o absurdo em ouro cinematográfico. Ninguém equilibra gravidade e macacada com a exactidão quase mágica que eles conseguiam atingir. Aqui, com Ethan Coen sozinho, sente-se a intenção de chegar a essa energia, mas falta nervo. O guião falha os actores de todas as formas possíveis: não lhes dá espaço, não lhes dá diálogos com peso, não lhes dá nem arcos nem resoluções, não lhes dá nada que valha o esforço. Chris Evans, em particular, parece perdido. O Reverendo Drew é uma caricatura preguiçosa de vilão, sem a calibração meticulosa que Ethan e Joel costumavam dar até às figuras mais estapafúrdias. É doloroso vê-lo tentar segurar um papel que não tem substância nenhuma. Entre os personagens mal construídos e os subplots inconclusivos, fica a impressão de que o filme existe sobretudo para explorar a titilação da relação entre Aubrey Plaza e Margaret Qualley, como se isso fosse suficiente para aguentar o filme. Mas apesar dos curtos 88 minutos de duração, não é.

Honey Don’t! parece querer entrar na comédia, mas não tem coragem de se entregar ao humor. Parece querer ser um noir,mas esquece-se de construir um mistério decente. Parece querer ser tenso, mas mistura tantos subplots que o saltar incessante de uns para os outros arruina qualquer suspense que nos estivesse a trepar pela espinha acima.

E pensar que tudo começou tão bem. Honey, I wish I didn’t.

Carla Rodrigues

 

Ainda que consideravelmente melhor do que Drive-Away Dolls (o primeiro filme de uma trilogia imaginada por Ethan Coen e Tricia Cooke de lesbian B movies), Honey Don’t! vive de um estranho e frequentemente ausente foco de interesse. De fora ficou Russ Meyer, a quem o primeiro filme prestava homenagem de uma forma muito trapalhona, para dar lugar a um exercício mais assumido de noir B. Em Bakersfield não existem árvores e este será, na verdade, um noir sem sombra e sob um sol ofuscante. Honey O’Donahue percorre aquela povoação numa investigação informal (há sempre algo de muito “informal” neste filme, mas nem sempre num bom sentido) a uma série de crimes relacionados com uma igreja evangelista local. Esta igreja pouco nos interessa (e nada parece poder nos salvar da existência de Chris Evans), tal como pouco interessa, afinal, qualquer linha narrativa das várias propostas durante o filme. Poderíamos supor que esse emaranhado seria o ponto forte de uma qualquer narrativa noir, mas a verdade é que, aqui, as pontas soltas são também, e sobretudo, bastante redundantes. Numa galeria de personagens temporárias (mais do que secundárias), o filme muito depende, então, de Margaret Qualley e, um pouco, do seu romance sexual com Aubrey Plaza. Honey cedo (e frequentemente) nos relembra: I like girls, uma das poucas ideias que o filme parece reter, dada a sua narrativa fragmentada e com franca dificuldade em propor a mínima construção de um ritmo. E se pela montagem se procuram algumas deixas (sonoras, formais, …) para uma continuidade cinematográfica que raramente existe, tudo no filme se assemelha às introduções de cena que Coen e Cooke tiram do catálogo de Thelma Schoonmaker: aceitável, mas sempre pouco assumido e, nisso, um tanto mal conseguido. É então que a imagem de Qualley – que assume o projecto de cabeça e parece aqui crescer enquanto actriz relativamente a Drive-Away Dolls -, ao volante, olhar distante sobre aquelas ruas despojadas, se torna num quase leitmotiv que virá dar algum sentido (quiçá acidental) ao filme enquanto todo. Uma deambulação cansada, sob o céu branco daquelas terras. Enredo sobre um “lugar” que nunca chega a sê-lo, um amontoado de coisas e pessoas deixadas no meio do deserto, onde, na ausência de uma noção tradicional de urbanismo, de urbanidade e, portanto, de sociedade, o que resiste serão os piores instintos de uma dita identidade americana. E embora essa vitória seja um tanto imerecida, Honey, inconsciente, deitada no chão daquela sala tão middle America, não deixará de ser uma das imagens mais fortes do ano.

Miguel Allen