Críticas a Hokum, de Damian McCarthy: Arrepios

EquipaJunho 24, 2026

Damian McCarthy regressa à realização com o aguardado Hokum, dois anos depois do sucesso de Oddity, um dos filmes de terror de melhor efeito do ano de 2024. Adam Scott interpreta Ohm Bauman, um aclamado escritor de terror que viaja até uma remota localidade do interior da Irlanda para espalhar as cinzas dos pais no hotel onde estes passaram a lua-de-mel. À medida que os dias passam e o escritor se envolve com os habitantes locais, uma sucessão de acontecimentos estranhos começa a perturbar a sua estadia. Entre lendas, crimes por resolver e memórias que regressam de forma inesperada, Ohm vê-se confrontado não apenas com os segredos daquele lugar, mas também com episódios traumáticos da sua própria infância. Carla Rodrigues e Miguel Allen viram o filme em sala e assinam as críticas na Tribuna do Cinema.

 

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Embora um pouco abafado pelo sucesso de Obsession e Backrooms, Hokum vinha com embalo antes de estrear por cá. Como fã devota de folk horror, andava há uns meses a deitar-lhe o olho. Só que às vezes é mesmo esse o problema. Excesso de expectativas. Hokum não é um mau filme. Peca por ficar muito aquém do potencial. Tem um setting formidável para a história de fantasmas que se propõe contar (um hotel meio decrépito e congelado no tempo), uma atmosfera plena do misticismo de um qualquer recanto rural da Irlanda, e um Adam Scott num raro papel de palerma arrogante (não me lembro dele tão detestável desde Step Brothers).

Contudo, aquilo que dá em ambiente, não entrega em sustos nem em suspense, apesar do rótulo de “aterrador” que se lhe colou aquando da sua passagem pelos cinemas norte americanos. O rol de personagens é construído de forma pobre, com alguns a aparecerem e a desaparecerem logo de seguida sem conseguirem relevância. Toda a narrativa, mesmo disfarçada de novelo emaranhado, é previsível para quem estiver habituado a filmes de fantasmas e/ou a jogos sobre mistérios sobrenaturais em pequenos vilarejos, mais ou menos à la Alan Wake. Pouco de novo nos é apresentado. A ingenuidade que Damian McCarthy mostrou em Oddity parece ter sido sufocada por um orçamento maior. Ironicamente, o dinheiro extra matou a criatividade que outrora fez o meu coração disparar.

Carla Rodrigues

 

Como o fora Oddity, Hokum é um filme sobre e com muita coisa. Trata-se, desde logo, do remake de The Shining (ou melhor de muitas peças do filme de Kubrick), com a acção transposta para o interior irlandês, que nunca pensáramos precisar. Mas, sobretudo, ainda que involuntariamente, este será afinal um filme de horror “para crianças”, mas com sustos “a sério”. Murder mystery com bruxas e bunnies, ecos (tímidos…) de folclore irlandês e um velho hotel no meio da floresta, poderia tratar-se de um episódio de Goosebumps / “Arrepios” (R. L. Stine), não fosse a relativa competência criativa que McCarthy demonstra cena a cena, alimentando sucessivamente o interesse do espectador. Existe aqui (novamente!) uma interminável lista de compras, repleta de artigos de que até gostamos (mas nem tudo…), sistematicamente sobrepostos uns aos outras até que o filme em si deixe de se parecer com grande coisa. Não ajudam, é certo, os diálogos confrangedores, constantemente a resvalar na comédia (mas sem graça), nem que o protagonismo tenha recaído sobre um actor de televisão perfeitamente inapto para algo que vá além de conteúdo para streaming (um mau actor não tem mal nenhum num bom filme, mas é algo de intolerável num filme mau). Enfim, pelos seus intermináveis desvios, e apesar do desinspiradíssimo motivo do “conquistador” no deserto, Hokum vai seguindo consistentemente animado. No seu “room 237” (sim…) os décors são competentes e eficazes – algo importante, neste caso, ao enquadrar a acção num ambiente muito mal sustentado pela figura, pretensamente niilista, ao centro da trama -, mas a execução é demasiadamente ligeira para suster um sortido de género que nunca compreendemos verdadeiramente o que pretende. “Nobody knows what it means, but it’s provocative and gets the people going” – não é uma deixa do filme, mas quase… e antes assim fosse.

Miguel Allen