Remake de “High & Low” (“Céu e Inferno“), de Akira Kurosawa, Highest 2 Lowest é o mais recente filme de Spike Lee. Nova colaboração do realizador com Denzel Washington (a quinta da sua carreira), o filme tem sido recebido com alguma hesitação. Hugo Dinis e Miguel Allen parecem partilhar essa ideia do filme.

Em muitos aspectos, Highest 2 Lowest é uma história geracional para Spike Lee. Um filme que expõe a insegurança de Lee com o passar dos anos, à medida que a sensação de desligamento com as gerações de hoje se vai instalando. Não é difícil ver no David King de Denzel Washington uma representação generosa do próprio Lee. Apresentado por Lee com enorme candura, King é um empresário da indústria musical universalmente adorado, um homem de família dotado de um “best ear in the business” que o torna num excepcional detector de talentos, mas que, não obstante todo o sucesso, ainda retém a tão fundamental credencial de rua numa Nova Iorque de reputações. As considerações de classe que populavam o original de Kurosawa são enquadradas no espectro de uma paranóia geracional. O rapto do filho do seu principal confidant precipita o confronto da dualidade de uma personagem perdida entre a necessidade de persecução das suas ambições profissionais e a força da família. Na verdade, Lee nunca parece especialmente preocupado em fazer valer o verdadeiro impacto dramático da trama. Ao contrário de Kurosawa, Lee explora fundamentalmente a solidão do homem no topo, não necessariamente ignorando mas certamente secundarizando as repercussões de classe.
Ainda que Highest 2 Lowest faça caso de uma primeira metade inteiramente posicionada na construção de contexto, com a banda sonora afectada de Howard Drossin, as intenções de Lee nunca parecem estar próximas do melodrama familiar tanto quanto se acercam do estudo de personagem face a King. É preciso que se diga que esta bizarra exploração apenas se torna confiável pela presença da imprevisibilidade maníaca de Washington. Impecavelmente posicionado, é nas construções de acção que Highest 2 Lowest faz realçar o melhor Denzel, em particular nas sequências no metro nova-iorquino e no Harlem profundo na busca do mano-a-mano final. As situações confrontacionais apenas surgem como pontuação para a personagem de King, contudo. A sua motivação principal está sempre no homem e não nas suas envolventes. Tudo isto apenas reforça a ideia de um filme essencialmente individualista e amargurado.
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Hugo Dinis

Quase invertendo a lógica do título, em Highest 2 Lowest, tanto tempo passamos num low, que os highs modestos do filme talvez nos pareçam ainda mais altos. Curioso exercício formal e narrativo em cinema digital, um tanto sobre perder a nossa mão sobre o mundo, envelhecer, sobre perder um certo… swag – os valores do filme parecem-nos sistematicamente (quase?) acidentais. É com alguma incredulidade que assistimos aos travellings sobre o East River que enchem o genérico de abertura, num interminável back and forth entre o Brooklyn natal do protagonista e a money making Manhattan, ao som de um auspicioso Oh, What a Beautiful Mornin’ de Norm Lewis. Será uma das primeiras escolhas musicais discutíveis de um filme que parece obstinado em mascarar-se com a banda sonora caricatural, ostensivamente desastrosa, de Howard Drossin.
Numa primeira metade que se mastiga como a mais genérica refeição para micro-ondas na forma de telefilme, Lee parece mesmo estar a brincar, a divertir-se com o espectador. Mas a este seu divertissement respondemos nós, inevitavelmente, pela incessante interrogação quanto às escolhas – narrativas, dramáticas, formais ou estéticas – do filme. A Spike Lee Joint, é certo, sempre muito interessado na sua blackness, é através da figura de Denzel Washington, do seu pomposo David King, que tudo (ou quase tudo) parece aqui poder funcionar. Produtor de música lendário, um hustler no seu highest (ou até nem tanto, veremos), a narrativa tentará construir essa ponte (figura repetida à exaustão pelas imagens do filme) entre o topo ocupado por King e o fundo a que terá de chegar para atingir os seus objectivos. Dado o (já conhecido) rapto que dá o mote à história, tirada do filme de Kurosawa, muito se joga aqui entre o highest e o lowest das diferentes personagens, seja essa dicotomia horizontal – King e Paul (Jeffrey Wright), seu amigo e motorista -, vertical – King e Yung Felon (A$AP Rocky) – ou individual – o próprio percurso de vida de King, como o seu percurso pelo filme. Ainda assim, o discurso de Lee sobre classes parece-nos bastante superficial, uma qualidade que identificaremos afinal em muito do filme.
Como se também oscilando entre esse muito baixo e um hipotético muito alto, a fotografia digital de Matthew Libatique é outro motivo da nossa curiosiade. Potencial foco de um interesse futuro como da discussão actual em torno de Highest 2 Lowest, a Libatique parece ter sido pedido que tudo nos surja aqui resplandecente pela sua artificialidade ultra contemporânea. Como que espelhando as arquitecturas de vidro do genérico, a fotografia do filme é um verdadeiro tour de force em superficialidade (de novo…), onde, sobre as texturas de uma perfeita correcção digital, quase se estranha a pele envelhecida de Washington (hoje com 70 anos, mas no filme, seguramente, com menos 15). Mas se é difícil nos habituarmos às imagens consistentemente feias da sua primeira metade, é com uma certa inteligência que Libatique brinca (também…) com o filtro da imagem na sequência charneira do filme.
Denzel Washington desce ao metro nova-iorquino e é a fotografia que enfim se eleva, quase inusitadamente, através do tratamento “novo” que Libatique experimenta. Grão, cor, exposição, tudo alterna quase de instante para instante, como se, de repente, nos lembrássemos de que, afinal, estamos “mesmo” a ver uma Spike Lee joint. Podemos imaginar o realizador a rir-se de barriga cheia, e não é para menos: segue-se enfim uma das cenas mais interessantes e empolgantes do filme, com Washington “perdido” numa carruagem cheia de fãs dos Yankees (“Boston sucks!”), os seus movimentos controlados, à distância, pelo raptor, enquanto a mochila com o dinheiro do resgate se perde pela parada do Puerto Rican Day. Estamos em Junho e é Eddie Palmieri, apresentado por Rosie Perez, quem anima a festa. Confusa, mexida e musical, é uma cena que parece introduzir o espectador num outro registo, no “verdadeiro” filme – que se segue. Narrativamente num lowest, será pela caminhada de regresso ao highest que Lee parece querer nos oferecer, enfim, aquilo a que poderíamos ter esperado da sua versão de Kurosawa. Se muito continuará, então, a não funcionar – e por mais que a inautenticidade plastica e dramatica do filme seja deliberada -, enquanto Wright conduz o seu King, por Brooklyn, ao som de Payback de James Brown, é impossível não desejarmos que tudo aqui fosse, de facto, um pouco mais assim. Pouco depois, o embate verbal no estúdio de gravação, com um quase rap de Washington, é outro ponto alto. Mas a perseguição que se segue, se empolgante, será novamente manchada pelo trabalho absolutamente horrível de Drossin. Num filme sobre um homem com um ouvido infalível, é inaceitável o quão surdo tudo consegue parecer.
Highest 2 Lowest revela-se, então, um exercício de apreciação difícil. Como em tantas outras venturas de um “old man cinema”, o nosso agrado dependerá da disposição em aceitar as costuras expostas desta encenação. Se não se trata do trabalho “preguiçoso” que parece sugerir durante uma boa parte da sua duração, os encantos deste curioso thriller – onde o “drama” é inexistente e o espaço se enche de superfícies lisas e volumes ocos – ficam-nos, em certa medida, por descobrir. Lee insiste nessa suspensão até aos créditos finais e, após uma cena concludente, onde consegue alinhar, num mesmo enquadramento, os dois pólos opostos da trama – “I said I was going to bring you to hell with me” –, eis que oscilamos novamente de highest a lowest com uma conclusão musical que nos relembra algumas das ideias centrais do filme: música, moeda, e montagem terrível. Conflituoso, um trabalho coerente na sua própria indeterminação. Attention is the biggest form of currency these days?
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Miguel Allen



