Críticas a Her Private Hell, de Nicolas Winding Refn – Pesadelos em Néon

EquipaAgosto 7, 2026

Her Private Hell representa o regresso do dinamarquês Nicolas Winding Refn ao grande ecrã, dez anos após The Neon Demon. O realizador está de volta com uma proposta apropriadamente estilizada para os seus padrões, carregada de terror assassino. Em Her Private Hell, Sophie Thatcher é Elle, uma jovem em busca do pai pelas ruas de uma metópole futurista envolta numa misteriosa bruma, que traz consigo o espectro de um assassino anónimo. Pelo meio, Charles Melton é um soldado americano também à procura de alguém querido. O mais recente trabalho do cineasta dinamarquês polarizador foi visto pela Tribuna após a sua estreia em sala na passada semana. A seguir, as críticas.

 

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Nicolas Winding Refn sempre calcou a linha que separa o auteurismo do brega. As referências a Anger ou a Antonioni no seu cinema sempre se cruzaram com as de Argento ou Korine. Her Private Hell acaba por vir a encher este espaço com a previsível estilização das suas imagens. Na sua irredutibilidade para comprometer uma visão de identidade visual, Refn faz alarde de uma coligação entre um enredo minúsculo e apresentado de forma glacial e a necessidade de imersão do espectador na incerteza da bruma, literal e metafórica. A força da suas visualizações herméticas nunca se coloca, de resto, num local de vulnerabilidade perante algum tipo de concretização melodramática do enredo em Her Private Hell.

Este enredo é, claro está, apenas uma cortina de fumo. Sophie Thatcher é uma filha a lidar com uma relação ambivalente com o pai (Dougray Scott) e a nova madrasta (Havana Rose Liu). Charles Melton é um militar americano em busca da filha. No meio, a bruma traz uma figura assassina com um nome apropriadamente pateta (The Leatherman) e uma ameaça sem nome nem cara. Há personagens que proferem deixas como “I don’t love you expecting to be loved back, I just do” sem que se comprometam verdadeiramente a algo. Essa tensão sexual que se impõe à impenetrabilidade da bruma que envolve a cidade está sempre a um ligeiro toque de se desmoronar por entre acessos de violência arbitrária ou interlúdios em que as personagens imitam latidos e ladrares de cães.

A colocação destas barreiras de harmonia serve os intentos de Refn na perfeição, contudo. Sim, Her Private Hell é um filme declaradamente vápido, entregue à sua própria ausência de mensagem. Para Refn, é esse o objectivo. Vivemos num mundo feio e frio, no qual cada um está entregue a si mesmo, às suas vinganças pessoais e aos seus impulsos mais primários. Não é por acaso que a cidade de Her Private Hell se assemelha à Megalopolis de Coppola – uma gigantesca criação que tem tanto de fantástico como de ausência de espírito humano. Em muitos aspectos, a versão de Refn contrapõe a ilusão optimista de Coppola e a sua opressividade minimalista com a subtileza de um machado. Aqui, as declarações de amor caem em saco roto. “Only love can conquer time“, diz o soldado Charles Melton, na pista da filha. A profusão de violência no seu encalce esconde a apetência pelo niilismo destrutivo.

Enquanto Refn nos mergulha na frieza das suas composições, não conseguimos, apesar de tudo, deixar de sentir que tudo isto funciona muito mais enquanto exercício estilístico do que outra coisa. Um giallo que quer ser noir, ou um noir que quer ser giallo. Pouco importa, à imagem dos seus enredos. Ainda assim, o que Refn desvaloriza também acaba por deixar rasto. Não necessariamente de violência, mas sobretudo de significado por detrás da bruma.

Hugo Dinis

 

Será difícil não ficar assombrado perante a vacuidade atroz de tudo isto. Muito provavelmente a tontice mais ostensivamente masturbatória que passará pelas salas de cinema este ano. Algo de um giallo lynchiano que consistentemente se assemelha a um sonho erótico orquestrado pelo The Weeknd (autor de cinema). Ou uma releitura kitsch, sob um céu de néon e temas musicais de um faux-Delerue (Pino Donaggio é, sem dúvida, um dos poucos pontos positivos do filme), do conto da Branca de Neve (supomos… embora A Menina dos Fósforos de Andersen seja mencionada por duas vezes), que coloca a mais corajosa das questões imagináveis para um miúdo de treze anos: o que seria se a Branca de Neve e a madrasta fossem ambas umas hot mamacitas e se sentissem atraídas uma pela outra? Fascinante.

Mas nem tudo será desperdício. Ri-me com a senhora ao meu lado quando um homem, na fila de trás, começou a ressonar forte e feio. Porque, para além de se parecer, do princípio ao fim, com uma sessão fotográfica de revista, Her Private Hell arrasta-se, perdido pelo seu literal nevoeiro, até um ponto de exaustão extrema. Um interlúdio japonês que se estranha, o filme vai-se agitando aqui e ali, de tempos a tempos, com algumas mortes graficamente divertidas, lutas entre gatinhas, um papão vistoso, e diálogos maioritariamente muito estúpidos. Numa cena, três mulheres comunicam ladrando umas para as outras. Enfim, este é um filme tão encarcerado pelo seu male gaze que se torna particularmente intrigante pensar como “NWR” parece completamente alheado da forma como tudo isto resulta na tela. Mas está longe de ser o pior filme de sempre, claro. É apenas muito mau. Convém levá-lo com humor.

Miguel Allen