Após Eternals (2021), o estranho e desacreditado capítulo da MCU, Chloé Zhao regressa com Hamnet aos “malickismos” que a tornaram célebre em Nomadland (Óscar de Melhor Filme, em 2021). O filme, protagonizado por Jesse Buckley e Paul Mescal, é uma adaptação do romance homónimo de Maggie O’Farrell, uma ficção em torno do luto de William Shakespeare e da sua mulher, Agnes (ou Anne) Hathaway, após a morte de Hamnet, o filho do casal, aos 11 anos. Cinco críticos da Tribuna foram ver o filme.
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Pela sua distância temporal, a vida de Shakespeare tem sido objecto de um conjunto de obras mais ou menos especulativas no que toca à intimidade do bardo inglês. De Shakespeare In Love (1998) ao livro de Maggie O’Farrell no qual este Hamnet se baseia vai um mundo de distância, contudo. O’Farrell conjectura uma teoria inteiramente plausível tendo em conta a cronologia autobiográfica de Shakespeare: a de que a escrita de Hamlet terá sido fortemente inspirada pela perda de Hamnet, o seu filho varão, por força da peste bubónica (pelo menos alegadamente). Este reducionismo criativo no que à concepção do trabalho artístico de Shakespeare diz respeito informa toda a base de Hamnet: este é um filme centrado na figura da sua mulher, alguém sofredor e sensível, marcada pela profecia de uma morte ao lado de dois filhos apenas. A morte é, de fresto, um tema recorrente em Hamnet, tratado precisamente como se de peste estivesse em causa. Tudo em Hamnet parece servir de preâmbulo para o seu acto final, no qual assistimos à estreia da peça perante uma plateia embasbacada. A formalidade de Chloé Zhao também a isso assiste: este é um filme de actores, centrado nas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal enquanto casal nuclear, repetidamente investido em planos aproximados nas faces dos mesmos, evitando deter-se na construção de qualquer outro tipo de mise en scène que pudesse auxiliá-los.
Mas se este melodrama de 2025 nos envia para um sofrimento criativo da parte de Mescal, a sua opção pelo olhar de Buckley cria uma ligação maior com o espectador a nível emocional. Senão vejamos: o nome de Shakespeare apenas surge mencionado de forma explícita já no preâmbulo para a sequência final de exibição da peça, e Mescal canaliza uma qualquer introdução de história de origem dos filmes de super heróis nos quais Zhao recentemente se investiu. Ao invés, Buckley formaliza a ligação do espectador ao núcleo familiar através de um conjunto de cenas de intimidade com os filhos e com o marido, mediadas pela relativa superficialidade com que o filme explora as personagens dos filhos. É também sobretudo por conseguir elidir o processo criativo do bardo, reduzindo-o à simples inspiração autobiográfica, que Zhao e O’Farrell parecem indicar que Shakespeare se resume a uma figura mitológica que necessitou de passar por um trauma pessoal para se assumir como artista, da mesma forma que o Homem Aranha precisou de ser picado por um aracnídeo para ganhar os seus super poderes.
A partir da obra de Hamlet, colocada no interior da obra de Hamnet, o filme apresenta-se como uma tragédia levada a cabo para a expiação de Shakespeare face à morte do seu filho. A reacção de Buckley perante a peça é espelhada pelo espectador. Perante a estupefacção e o choque da mera menção do nome do filho falecido, o bardo desenvolve uma interioridade que não lhe reconhecíamos: uma pantomima desenhada para substituir o lugar do filho na morte. O sorriso de Buckley, finalmente reencontrada com o rapaz falecido, fisicamente marcada pelo encontro de mãos entre esta e o actor que o representa, é partilhada pelo público. Uma dor global para uma perda tão pessoal.
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Hugo Dinis

Curiosa carreira, a de Chloé Zhao. Depois da estreia no circuito indie de Sundance, de um segundo filme que se tornou no marasmo pandémico um vencedor de Óscares por falta de comparência (e sejamos honestos, cinco anos depois, ninguém se lembra de Nomadland) e de um salto para a máquina dos super-heróis que resultou num dos mais mal-amados filmes do género e na quebra da hegemonia Marvel, chegamos a Hamnet, exercício de ficção especulativa que, adaptando o livro homónimo, se propõe a imaginar a vida privada de William Shakespeare, e a tragédia (não de Macbeth) que o levaria ao príncipe da Dinamarca.
Os ingredientes estão cá todos para agradar: elenco de luxo, tema e cenário de época, figuras históricas e uma mensagem empacotada e pronta-a-servir sobre o poder da arte para dar sentido à vida… enfim, mais do mesmo, assim seja. Cumpre os seus desígnios, enquanto obra feita para ganhar estátuas e pouco mais. Mas é só disto que é feito o suposto “grande cinema” atual? Uma mixórdia melosa, um oscar bait saído direitinho dos anos 90, que na sua segunda metade sucumbe ao melodrama fácil – nadir do filme quando Paul Mescal/Shakespeare, num momento de desespero, se prepara para se atirar ao Tamisa, quando ALTO, eis se não quando começa a debitar, com as vírgulas todas no sítio, o célebre “to be or not to be”, uma referência tão sublinhada (e reveladora daquilo que Zhao acha da inteligência dos espectadores) que tem direito a um reprise mais à frente.
Essa cedência ao facilitismo é especialmente frustrante porque trai as qualidades que o filme, na sua primeira metade, até ia desenvolvendo: a exploração de um misticismo pagão, um conto de bruxas e fantasmas sugeridos, ecos na paisagem dos “sonhos que hão de vir no sono da morte”. E tudo isto filmado num registo interessante porque distante, em planos gerais muitas vezes de ângulos desafetos e afastados das personagens, quase encenando uma janela indiscreta para um passado onde o espectador é intruso. Mas depois, claro, há que fechar o plano, focar nos prantos de Jessie Buckley para que a atriz possa ganhar o tal Óscar. E certo, quando se encenam momentos tão trágicos como a morte de um filho, é natural que até este que escreve se emocione. Mas as lágrimas secam rápido, e na sua ausência não se percebe que algo fique.
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André Filipe Antunes

Enquanto Will (Shakespeare) encontra a validação na grande, suja e deplorável Londres do início da Idade Moderna, este é um espaço despropositado para Agnes, filha da “bruxa da floresta” que lhe ensinou tudo o que sabe, tornando-a numa curandeira exímia que se move pela sua ligação com a natureza. Naturalmente, o seu saber não é o suficiente para salvar o filho Hamnet, que sempre julgou a salvo das suas previsões. Pela lente de Łukasz Żal (Ida, Cold War, The Zone of Interest), a floresta perde qualquer factor aterrador, tornado-se no mistério confortável e familiar que só Agnes conhece e consegue desvendar; enquando a invulgarmente cinzenta Londres se torna no local onde o marido encontra a pobreza, a sujidade e indecisão que, mesmo quando encontra o sucesso, não o abandonam.
Paul Mescal é um perfeito Shakespeare, sempre meio ausente, primeiro emocionalmente e, depois, fisicamente, ainda que profundamente apaixonado. É apenas um dispositivo para contar a história de Agnes, mãe deixada sozinha com os seus filhos e, posteriormente, com o seu luto. Até a aclamada peça Hamlet serve para Agnes canalizar a sua dor, encontrando quem finalmente se junte a ela. Jessie Buckley, já bem familiarizada com as obras de Shakespeare, dá voz a esta mãe de um modo não menos do que exímio, como seria de esperar. Torna-a concreta e não somente numa sombra de alguém que viveu no séc. XVI. O restante elenco acompanha-os, em particular Emily Watson (Mary Shakespeare), Joe Alwyn (Bartholomew Hathaway) e, principalmente, Jacopi Jupe (Hamnet) que é fora do comum enquanto criança feliz que se torna desesperada. Hamnet marca o regresso de Chloé Zhao após o seu último desespero.
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Maria Ines Opinião

Hamnet propõe-se um drama intenso, para o qual devemos ir munidos de um pacote de lenços, e que afinal não deixa marca nem memória. O filme estabelece desde cedo uma relação quase pagã entre a personagem principal e a natureza: a floresta, os rituais de cura, a presença constante do mundo natural como espaço de refúgio. É criada uma atmosfera estética coerente e sugestiva, sustentada por uma realização competente e por um imaginário visual que poderia prometer alguma profundidade emocional. Esse aparato formal, porém, permanece à superfície, incapaz de transformar a atmosfera em verdadeira experiência emocional duradoura. Apesar do empenho dos atores, as personagens surgem como construções planas, sem especial densidade psicológica nem traços distintivos. A história de amor central é um bom exemplo disso: dois estranhos trocam meia dúzia de palavras, envolvem-se e criam uma família. É suposto sentirmo-nos próximos deles? Torcermos por eles? Porquê?
O retrato da família assenta em clichés visuais de felicidade, que vão das corridas às gargalhadas. Lamentavelmente, não é quanto baste para nos rendermos à sua história. Esta fragilidade torna-se especialmente problemática quando o filme entra no seu núcleo dramático. A morte da criança, que para muitos espetadores parece ter um impacto profundamente emocional, surge aqui como um acontecimento excessivamente explícito, prolongado de forma insistente, quase roçando um certo aproveitamento da dor.
A sucessão de acontecimentos nunca se converte, para quem vê, numa verdadeira progressão emocional, e o filme mantém uma linearidade que impossibilita a ligação ao longo de duas horas, deixando-nos sempre cientes do nosso lugar de espetador. Falta a Hamnet aquilo que é essencial ao cinema: a capacidade de transportar e de fazer com que o destino das personagens importe. Quando nos infligem aquilo de mais cruel que se pode mostrar, o sofrimento agonizante de uma criança, o filme aciona o gatilho da lágrima, mas é um curto-circuito por onde nunca passou a corrente da emoção.
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Ana Matos

Não li o livro de Maggie O’Farrell no qual Hamnet se baseia, por isso não posso recorrer com confiança ao velho chavão de “o livro é muito melhor”. Mas, pelo que vi no ecrã, desconfio que seja. O filme imagina a origem da tragédia de Hamlet, antes do palco e do crânio de Yorick. Arranca com um curto romance entre William Shakespeare (na altura, um simples tutor de latim) e Agnes, uma mulher misteriosa com interesses que oscilam entre a botânica e o misticismo. Contra tudo e todos, casam e têm três filhos: Susanna, Hamnet e Judith. Will é terno, porém ausente. Depois de abandonar a vida enfadonha do ensino de latim, passa longos períodos em Londres a tentar fazer arrancar a sua companhia de teatro. Agnes fica para trás, com as crianças, entregue a um quotidiano que o filme não se dá bem ao trabalho de explorar. Vemos pouco da dinâmica familiar entre os cinco, e isso cobra um preço mais tarde, quando o filme precisa que certos golpes emocionais aterrem com força. Os golpes chegam, claro, não fosse isto a origin story de uma das maiores tragédias literárias de sempre. Mas se aterram ou não… eis, como dizia o outro, a questão.
Hamnet funciona melhor antes de o enredo começar a espiralar para a desgraça. A fotografia de Łukasz Żal é deslumbrante e Chloé Zhao constrói, com isso, um mundo quase mitológico. Todavia, quando se começa a perceber por onde a narrativa está a seguir, o filme afunda-se num pântano de exageros. É difícil não pensar na expressão “oscar bait”. Quase tudo em Hamnet sofre de uma hipertrofia emocional. Zhao esfrega a cara do espectador no luto, pede que se fique ali a marinar nele, só que a manipulação é tão evidente que o resultado é o oposto do pretendido. As interpretações de Jessie Buckley e Paul Mescal resvalam, a espaços, para o histriónico. O filme insiste, sublinha, volta a insistir. “Reparem, isto é mesmo muito triste”. Há momentos em que essa insistência roça o voyeurismo, e a tragédia (que imagino no papel ser envolvente) acaba por empurrar o espectador para fora da cena. Quebra-se a imersão. A falta de subtileza estende-se a outras escolhas irritantes, como as aparições de Shakespeare a recitar excertos das suas peças antes de elas próprias existirem (de Romeu e Julieta a Hamlet) como se o filme estivesse a dar cotoveladas e a sussurrar: “apanhaste esta referência?”, uma personificação do meme do Leonardo DiCaprio a apontar para o ecrã. É uma pena, porque quando Hamnet confia na sobriedade, é capaz de momentos belos.
A cena mais comovente do filme envolve, curiosamente, não uma pessoa, mas um falcão. É uma sequência que encerra o equilíbrio agridoce entre a dor da perda e a esperança naquilo que a humanidade não conhece. Ali, sem gritos nem hipérboles, o filme encontra uma verdade que lhe escapa noutros momentos. A sequência final também tem méritos, apesar da mecânica algo forçada da sua realização. Durante a primeira encenação de Hamlet, o filme explora, com uma delicadeza bem-vinda, a sublimação da tragédia pela arte. À medida que Agnes observa a criação de Will a tomar corpo em palco, começa a compreender aquilo a que está a assistir: a transfiguração da sua perda numa ideia que vai viver mais do que qualquer um deles. A catarse final é, de facto, mais tocante do que o luto que a motivou.
Hamnet tinha muito a jogar a seu favor, especialmente no campo técnico. A fotografia é magnífica, o trabalho de cenografia e figurinos é notável. O problema é que nada disso se traduz em envolvimento. A dor é enfiada goela abaixo. O filme força a emoção de forma quase didática: não deixa espaço para interpretar, para sentir autonomamente. Entre o que Hamnet é e o que poderia ser, vai uma distância maior do que a que separa uma tragédia inglesa de um romance de aeroporto.
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Carla Rodrigues



