Se, em diversas encarnações distópicas, como espectadores, nos sentimos esmagados pela figura imponente de um autor que procura evidenciar a sua própria grandeza e superioridade moral, enaltecendo o valor das suas opiniões pessoais, em Good Luck, Have Fun, Don’t Die essa sinalização de virtudes ausenta-se. Gore Verbinski assume, desde logo, não possuir ferramentas para solucionar os problemas que formula, sendo que, na verdade, o que acaba por fazer é precisamente o oposto, ao representar os seus heróis de forma tão louca e ao articular a sua tese num discurso tão conspiracionista e exagerado. Tal recusa em assumir uma posição de autoridade moral oferece ao espectador liberdade para decidir o que leva a sério e o que aceita apenas como exagero cómico, ao invés de o conduzir de forma direta por meio de uma mensagem clara e unívoca. Assim, nivelando o ridículo e o plausível, Good Luck, Have Fun, Don’t Die apresenta um conjunto de cenários absurdos que, apesar do seu exagero, encontram eco em inquietações contemporâneas facilmente reconhecíveis. Estes elementos reforçam o impacto satírico da obra e permitem que a crítica social emerja não como imposição, mas como convite à reflexão individual, intensificando, assim, o seu alcance sem comprometer o seu carácter lúdico.

Sem qualquer intenção de subtileza, de realismo ou até mesmo de superioridade moral, Good Luck, Have Fun, Don’t Die cumpre, assim, a sua humilde promessa de entreter e não desperdiça o seu potencial cómico numa tentativa de glorificar a sua crítica social. Em vez disso, equilibra com destreza a sua comédia e comentário social, afirmando-se como uma distopia assumidamente extrema, mas bem direcionada, ainda que tal clareza de intenção não se traduza plenamente numa experiência emocional coesa e profunda, em virtude da sua estrutura fragmentada. As diversas temáticas abordadas, que vão desde a nossa relação com as redes sociais até ao domínio completo da raça humana pela inteligência artificial, revelam-se de forma gradual e esquemática, através das vidas das personagens secundárias, exploradas por meio de flashbacks, mas o avançar da narrativa central mantém-se claro e simples, sendo que o que complexifica Good Luck, Have Fun, Don’t Die acaba por ser a estrutura do seu desenrolar, e não propriamente o conteúdo do enredo em si.
Apesar do seu protagonismo temporário, Sam Rockwell sustenta, de forma energética e carismática, o núcleo narrativo do filme: a jornada do homem do futuro – personagem responsável por salvar a humanidade do seu eventual fim. No entanto, embora central, esta jornada desenvolve-se dentro de uma narrativa fragmentada que, embora a complexifique, lhe retira alguma urgência face às restantes pequenas histórias que se destacam pelo caminho. A constante divisão do filme em breves narrativas individuais, que vão culminando no “enredo principal” (se assim o pudermos chamar), permite um olhar mais amplo sobre as personagens, a sociedade e as temáticas que se procuram criticar, mas, em contrapartida, acaba por prejudicar a construção de uma linha narrativa concreta e emocionalmente envolvente, ao dispersar o envolvimento do espectador através de breves enredos secundários.

Estes pequenos “episódios” (que se poderiam comparar tematicamente aos de Black Mirror) revelam, cada um deles, um lado esteticamente perfeito, polido e plastificado, mas profundamente negro e catastrófico, de uma sociedade tecnológica e socialmente semelhante à nossa, e funcionam como breves contextualizações sobre as personagens que acompanham o homem do futuro na sua missão de impedir a ascensão da inteligência artificial, assim como adições ao conjunto de problemáticas que afetam a nossa realidade. Contudo, apesar de entrelaçadas e conexas, estas tramas individuais acabam por diminuir o peso da jornada principal e por fazer saltitar o protagonismo, que vai e volta entre temas e personagens, os quais vão perdendo relevância à medida que o seu momento de brilhar termina. O resultado é interessante e reflete uma maior diversidade na abordagem cómica, rítmica e até temática, mas expõe, pelo caminho, o sacrifício de parte da clareza emocional em nome da identidade estética.
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