Imaginado como peça de live-action primeiro por Nobuhiro Yamashita e depois com recurso a animação rotoscópica da autoria de Yôko Kuno, Ghost Cat Anzu (化け猫あんずちゃん – “Gato Fantasma Anzu“) chega às salas de cinema para preencher aquela sede por animação japonesa. Ciente da sua identidade e influências, com Miyazaki e os estúdios Ghibli à cabeça, passando por Doraemon, entre outros, o filme sobre a amizade entre uma menina de 10 anos e um gato mágico antropomórfico é uma fábula sobre perda e fantasia. David Bernardino, Miguel Allen e Hugo Dinis foram ver o filme e, por entre aquarelas e piadas com flatulência, saíram mais ou menos enternecidos.
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Num ano com um calendário particularmente fraco, um filme de animação, em 2D, vindo do Japão, com pastiches visuais a piscar o olho a um Miyazaki mais juvenil, parece uma dádiva vinda dos céus. Ghost Cat Anzu afirma desde cedo a sua identidade campestre, focando-se na jovem Karin (do quinto ano), órfã de mãe e “abandonada” pelo pai em casa do avô. Anzu, o gato antropomórfico que desafia a morte, por entre tarefas domésticas e comunitárias, torna-se o protector da jovem, formando uma dupla inesperada. Mais do que a simbologia de ambas as personagens – juventude vs experiência, revolta vs pacatez, etc – importa olhar para a harmonização entre a carga dramática, hermética e contida, veiculada por Karin e o contexto de fantasia que parece inquestionável dentro da lógica do próprio filme. A partir do primeiro momento o facto de existir um gato falante que conduz motas e vai à pesca parece um dado adquirido e aceite pelas demais personagens deste universo, bem como os seus espíritos da floresta de todas as formas e feitios, lembrando novamente as criaturinhas mágicas dos estúdios Ghibli. Ou seja, nunca estamos propriamente num plano real. Percorremos então, com relativo sorriso, as peculiaridades do Mundo do filme, por entre as birras de Karin e as bufas e fúrias de Anzu. O gato, espectacular, é mesmo a estrela, com a sua voz humana absolutamente desconcertante pela sua normalidade, soltando “miaus” e gargalhadas que ocupam todo o espaço. É muito giro. Naturalmente, nem tudo são rosas, e algures paira a sombra de um terceiro acto desencaixado. Se nos primeiros dois terços do filme observamos a cristalização de uma paisagem rural, um coming of age à la Totoro, que respira ar puro e uma carga dramática silenciosa puramente interna, o último terço muda-se para a cidade e para um desfile de acção que não só destoa do espírito do filme até então, como enverada por caminhos narrativos talvez desnecessários. Mais do que observar Karin a confrontar a materialização física do luto pela sua mãe, importa que a menina faça esse luto. Seria mesmo necessário entrar no “inferno” e numa longa perseguição automóvel com diversas personagens da mitologia budista, como o Rei Enma, que decide quem entra e não entra no inferno? Parece-nos que não. Mais do que a falta de ideias (ou serão ideias, ou “homenagens” a Miyazaki, a mais?), este desenlace narrativo acaba por iluminar embaraçadamente a superficialidade e unidimensionalidade de Ghost Cat Anzu. Talvez não se devesse ter levado tão a sério. É caso para dizer, o minimalismo assentava-lhe tão bem.
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David Bernardino

«Le CHAT, sou eu», afirmava o Artur à saída da sala, como que seduzido pelo desembaraço e naturalidade daquela personagem tão singular, pela sua boa disposição, que pode contagiar o espectador mais susceptível, nomeadamente aos quatro anos. Ghost Cat Anzu é, na verdade, “como Miyazaki”, mas muito mais “na boa”. Um relato a traços mais punk, as facetas mais excêntricas da trama são aqui assumidas de forma menos grave. Mas, também por isso, o exercício é algo aligeirado nos seus momentos mais solenes. Afinal, este não será nem um filme sobre “um gato fantasma gordo, que joga no casino e gosta de acelerar com a sua mota”, nem um filme sobre uma criança que, abandonada pelo pai, visita o reino dos mortos para reencontrar a mãe. É algo caricatamente entre os dois… mas sempre divertido. Se a reflexão que se propõe sobre o peso avassalador do capitalismo nas várias “dimensões” da nossa vida nos parece importante, o essencial é que o gato é mesmo giro. As miúdas de oito a dez anos ao nosso lado estavam, simplesmente, aos berros de excitação.
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Miguel Allen

A preparação para a morte parte de uma aceitação da eternidade. Haverá melhor maneira de o ilustrar do que através de um gato? Anzu é um gato eterno, um fantasma que parece viver para sempre ao sol de um templo do Japão rural. Não é apenas um gato falante, é um ser que ultrapassou a hora da morte. Em Ghost Cat Anzu, os seus destinos são cruzados com os de uma jovem a braços com uma solidão debilitante, por entre a ausência da falecida mãe e os desaparecimentos irresponsáveis do pai. Deixada pelo pai a cargo do avô no templo de Anzu, Karin personifica a irreverência de alguém à procura de perceber o seu lugar num mundo que a foi abandonando. A busca pela sua própria identidade está a galáxias de distância da placidez desavergonhada do grande gato antropomórfico. Ambos vivem na condição de solidão partilhada, mas não podiam ser uma parelha mais desajustada. Ao conformismo de um responde o enfado irrequieto da outra, à infantilidade desarmante do gato somos confrontados com um muito familiar desejo de crescer da parte de Karin.
Ghost Cat Anzu é um filme com um tom peculiar. A honestidade e a crueza com que ilustra a sua missão é quase desarmante só por si. O gato é quase sempre inconveniente, por entre flatulências e risadas de proporções mastodônticas, e os miúdos falam com uma candura surpreendente (“vai morrer longe” é algo que Karin diz a Anzu sem uma ponta de ironia ou malvadez). Em particular, serão imediatamente aparentes as comparações entre esta história e Spirited Away de Miyazaki, mas Ghost Cat Anzu divide o seu tempo entre as peripécias quotidianas do gato e as ruminações existenciais da jovem Karin de uma forma que elude a propulsividade criativa da obra do Studio Ghibli. Baseado numa obra de manga de Takashi Imashiro do virar do milénio, este é um conto que vive muito mais no mundo real do que Spirited Away, ainda que não vire a cara às incursões do imaginário pós-vida.
O desafio de Karin é o de aceitação da eternidade, de aceitação da morte da própria mãe em si. Anzu surge-lhe como um compagnon de route tão improvável como amável, com todas as peculiaridades de um gato real se os gatos reais tivessem empregos como quiropratas. Esta conexão com o real é exacerbada pela forma de produção de Ghost Cat Anzu, imaginado como peça de live-action primeiro por Nobuhiro Yamashita e depois com recurso a animação rotoscópica da autoria de Yôko Kuno. O desenvolvimento narrativo da relação entre Karin e Anzu é colocado a uma distância de segurança face às incidências, e Ghost Cat Anzu sofre com isso, mas o duo de Yamashita e Kuno cria um mundo próprio e delicado que se desmorona e torna a construir no caos da sua resolução. Há uma beleza apreciável na inconvencionalidade narrativa e formal de Ghost Cat Anzu, estejamos nós dispostos a aceitá-la.
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Hugo Dinis



