Rita Azevedo Gomes regressa com este “recordar” de uma viagem à Grécia. Um filme falado, ou contado, um exercício de correspondências entre diferentes autores e figuras perante a beleza natural e a herança cultural do país. Três tribunos escrevem sobre Fuck the Polis.
Por um lado, a experiência da minha primeira viagem à Grécia, em 2007; uma espécie de fuga ao anúncio de que a minha vida estava por um fio – era esse o prognóstico clínico. Eu, que sonhara toda a vida ir à Grécia, decidi partir imediatamente, antes que fosse demasiado tarde. Anos mais tarde, em 2019, durante um almoço com o João Miguel (Fernandes Jorge), falei-lhe da minha viagem, das coisas extraordinárias que me tinham acontecido… Alguns meses depois, apareceu na Cinemateca com um conto, A Portuguesa. Achei graça, pensei que fosse sobre o meu filme, que também se chama A Portuguesa [2018]. Mas não, a sua história contava a minha viagem (…) Foi como se dois rios se encontrassem.
Rita Azevedo Gomes, entrevistada por Cyril Neyrat, a propósito da génese de Fuck The Polis (tradução Tribuna)
*

Rita Azevedo Gomes apenas se sentiu verdadeiramente na Grécia quando ouviu a voz de Maria Farantouri. Havia-a ouvido vinte anos antes, quando entrou à socapa num concerto no Parténon em solidariedade com as vítimas dos incêndios. A forma como a cultura é capaz de mediar não apenas a nossa relação com o espaço, mas sobretudo com a memória, é apenas mais uma prova da sua vitalidade. Fuck the Polis é um filme que procura coloca em conversa passado e presente, e terreno e divino. Quando Irma, a mulher que desembarca em Syros nos instantes iniciais, resolve visitar a Grécia, fá-lo necessariamente sob o auspício da relação entre o espaço e a mitologia. As imagens de há vinte anos mimetizam essa oclusão da memória e do espírito: os contrastes e as sombras do vídeo sofrem pela claridade com a comparação com o digital.
Mas tal como a voz de Maria Farantouri, há também algo nestas imagens que é muito mais vívido e real que o que temos à nossa frente agora. Quando Rita Azevedo Gomes dialoga com a mitologia, também o faz por intermédio dessa imagem do passado. Aquilo que nos separa das divindades é, claro, a nossa própria mortalidade. À medida que Fuck the Polis coloca Byron e Keats à conversa com as ruínas de uma civilização passada, também se coloca o espectador na celebração dessa Polis que o passado legou ao presente.
Tal como Byron e Keats o fizeram, também Fuck the Polis encerra em si a recursividade da memória dos locais. A visita de Rita Azevedo Gomes em 2007, no rescaldo dos incêndios, é examinada em Fuck the Polis da mesma forma que os mortais sempre examinaram os divinos. Quando Azevedo Gomes aponta que a ilha de Delos foi o local de nascimento quer de Apollo quer de Artemisa (“agora procuro o Deus“, avisa), lembramo-nos da observação inicial sobre as duas igrejas, católica e ortodoxa (uma “bem mais interessante” que a outra), no topo dos montes de Syros, “a um e outro lado da cidade, como se abraçassem“. A memória dos humanos recria modelos e imagens do passado, ainda que os significados se possam perder pelo caminho. “São versos como quem saboreia um doce sono sobre o mar das ilhas“, diz sobre os poemas de Seferis e Elytis. Assim, também Rita Azevedo Gomes só se sentiu na Grécia quando ouviu a voz de Maria Farantouri.
![]()
Hugo Dinis

O novo filme de Rita Azevedo Gomes decorre em território grego e constrói-se a partir de uma panóplia de imagens captadas em diferentes formatos – da película ao digital – acompanhadas por leituras de textos e poemas que vão de Albert Camus a João Miguel Fernandes Jorge. Dentro da filmografia da cineasta portuguesa, é talvez com Correspondências que Fuck the Polis partilha maiores afinidades. Nesse filme, eram as cartas trocadas entre os poetas Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen que constituíam o eixo central da narrativa.
Em ambos os casos, Rita Azevedo Gomes procura estabelecer uma dialética entre a palavra dita e a imagem mostrada, explorando soluções inventivas e subtis que se enriquecem mutuamente. Filmar a Grécia é, inevitavelmente, confrontar o berço da civilização ocidental e o peso simbólico da sua mitologia, inscrito nas esculturas, nos monumentos e nas ruínas que atravessam o espaço fílmico.
Ao conjugar imagens de diferentes períodos e suportes com textos de distintas origens e tonalidades, a realizadora constrói um diálogo entre a antiguidade e o presente, traçando pontes que revelam a permanência e a universalidade da experiência humana.
![]()
Bruno Victorino

Acordou. Sabia que alguma coisa estranha acontecera.
Lembramo-nos do desconforto de Ingrid Bergman, em Nápoles, na sua visita ao Museu Arqueológico, perante aquele mundo de que lhe falara o poeta. Às estátuas que fitavam a visitante, que pareciam desafiá-la na sua ostensiva forma humana, responde este filme com o enigma de outras formas ainda mais antigas, para sempre silenciosas. Corpo queimado, pedra escura, bronze enegrecido. Diário de bordo, ou um auto-retrato a partir do itinerário de uma viagem revisitada, vinte anos mais tarde, pelas palavras de João Miguel Fernandes Jorge.
Um filme sobre sonhar o futuro através de uma terra de imagens passadas, relato de uma terra assombrada, de uma terra sagrada que se oferece ao sonho. Uma colagem de registos e um país, a Grécia, com a sua paisagem aberta a um infindo mar azul. As suas árvores de outro tempo, troncos de calcário, “mineral vertical ou deitado” sob um sol que queima a película. Esta é ainda uma cultura onde tudo nos parece possível, por nada saber negar, por reconhecer (nas palavras de Camus) um limite que nos impede de conduzir o sagrado, a razão, a um extremo, à opressão de uma certeza. Também o filme respira através dos limites narrativos que descobre. Da intensa sobreposição de imagens e ideias nasce uma vertigem estética muito pessoal de Rita Azevedo Gomes. Fuck the Polis é um filme de relembrar. Um lírio quebrado, A Portuguesa em viagem e uma canção de Maria Farantouri. Fala-se de Griffith e embala-nos aquele vento sobre os campos secos de Setembro, enquanto palavras doces vindas de ontem nos relembram o amor que quiséramos fazer sobre aquela terra de morte.
Num reconto de “como quem saboreia um doce sono sobre o mar das ilhas“, interpela-nos a violência do título de um filme tão ponderado. Mas será a partir dessa sua provocação que o seu cinema memorial mais directamente se alinha com a contemporaneidade. A polis, esse lugar de todas as vozes, hoje esmagada por um discurso societário que fechou os olhos à pluralidade, é aqui reacendida pela recordação, nesse abraço (a dança que abre o filme) a uma cultura que pode ser de todos. Rita Azevedo Gomes oferece-nos um filme feito de versos. Farto da doença. De uma tragédia solar, esse cheiro de fumo e cinza. Infelicidade dourada. Quero é viver.
![]()
Miguel Allen



