Foi Só Um Acidente (یک تصادف ساده / Yek tasadof-e sadeh / Un simple accident) seria, em Maio passado, uma Palma de Ouro bastante cómoda para o Festival de Cannes. Mas essa adequação diz-nos muito mais sobre o oportunismo político da presidente do júri desta edição (que repetidas vezes se veste das causas que advoga) do que sobre o filme em si. Trabalhando em segredo, Jafar Panahi constrói aqui um retrato íntimo de um país a braços com um regime opressivo, um longo diálogo partilhado sobre as feridas expostas da sua própria opressão. Críticas de Hugo Dinis e Miguel Allen.
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Em Death and the Maiden (1994), de Roman Polanski, Sigourney Weaver calcula reconhecer o seu torturador pela voz e pelo cheiro numa visita a sua casa. O que se segue é um jogo de moralidade em torno da situação: até que ponto poderia a vítima distinguir-se do seu torturador se a ele aplicar os mesmos métodos que nela foram levados a cabo? Será a compulsão da vítima em encontrar a culpa uma forma de justiça ou simplesmente vingança? Não será essa vingança inteiramente moral de qualquer forma? “Foi Só Um Acidente“, de Jafar Panahi, não desbrava nenhum terreno novo na sua premissa, mas destaca-se sobretudo pela forma como se permite afastar todas estas questões para dar lugar à dor e à revolta dos torturados, e à também verdadeira humanidade dos torturadores.
Já de si seria perfeitamente notável a colocação destas questões para um cineasta que tem vindo a ser alvo da opressão do seu regime, mas o que torna este filme ainda mais admirável na exploração destes temas é a sua filmagem na clandestinidade. Outrora, Panahi também poderia ser uma destas quatro personagens vitimadas em “Foi Só Um Acidente“. Torturado de olhos vendados, Panahi porventura também reconheceria os seus captores pela diversidade sensorial, como o fazem aqui estes homens e mulheres. Ainda assim, a capacidade para se tornar humano na sua maquinação fílmica coloca-o numa posição de distância, não necessariamente para impor moralizações perante as suas personagens, mas para as complexificar.
Nos últimos anos, a obra de Panahi tem-se vindo a tornar crescentemente menos fílmica, ou pelo menos cinematográfica, e mais intertextual. 3 Faces e No Bears exploram-no a si próprio enquanto personagem de um filme, colocando-o no centro da ruralidade iraniana, enquanto que This is Not a Film e Offside lidam com temas abertamente documentais. “Foi Só Um Acidente” vem explicitar a vontade de Panahi em regressar à dramatização e ao cinematográfico, colocando o enredo bem por dentro da urbe iraniana e da ameaça do regime. O seu olhar narrativo também está decididamente mais directo, colocado ao serviço de personagens de intenções e acções claras, ainda que nem sempre seguras de si próprias. Veja-se aqui o comportamento do ex-casal Hamid e Shiva enquanto antigas vítimas do regime. A dor de Hamid é profundamente palpável e facilmente apreendida, uma montanha de agressividade e revolta, mas a de Shiva, marcada pela ameaça da perda da sua condição profissional, não sendo de alguma forma menos forte, coloca-se perante a sua própria incapacidade de perceber o que procura obter. De certo modo, a forma decidida com que Hamid entra em cena na identificação do torcionário Eqbal é contrastada pela cautela de Shiva na relativa menorização da sua dor perante Hamid.
O que nos põe a pensar aqui é também o papel do próprio Panahi. Essa entrada em cena de Hamid coloca-nos perante a realidade da tensão palpável de uma filmagem em clandestinidade perante tudo e todos: Hamid empurra Shiva e esta cai desamparada, sem véu para cobrir a cabeça. Não nos conseguimos desligar dessa noção ao observá-la no grande ecrã, e talvez por isso “Foi Só Um Acidente” afinal sempre tenha o próprio Panahi como personagem de novo, ainda que apenas de forma implícita. O que todas estas personagens procuram não parece estar sequer ao seu próprio alcance, contudo. E é essa a grande mensagem de Panahi, muito mais do que a exploração de uma pretensa moralidade entre justiça e vingança. No final, apenas o reconhecimento desta imensa dor poderá ter algum tipo de valia para estes pessoas. Ainda assim, essa não será uma realidade alcançável enquanto o regime subsistir.
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Hugo Dinis

O sol deita-se sobre a paisagem branca do deserto, e, enquanto esperamos junto àquela árvore despida, lembramo-nos de facto da peça que Shiva contara um dia a Hamid. Por que esperamos, exactamente, naquele momento ? A redenção sobre um passado de violência ? A vitória, de cada um, sobre uma história que, transversalmente, se conta pelo ódio ? Panahi avança pela noite cerrada de um regime. Um acidente e avaria, e rapidamente se lança a atribulada – e muito acidentada – “história” deste filme. Procura-se aqui, pela linearidade narrativa, e sempre por adição, construir o retrato social (heteróclito, plural) de um país. Os que não conseguem esquecer, e os que não querem recordar. Os que não querem saber, e os que não sabem perdoar. Um comerciante, o livreiro, a fotógrafa, uma noiva e seu noivo, o louco – e aquele corpo, mudo e adormecido, figura humana de uma violência tão desumana. É uma longa discussão, política e contraditória, inevitável, sobre a relação onde cada um se posiciona (e existe) para com o regime. Thriller do insólito, é também com um certo deleite, que seguimos o invulgar roteiro que se desenha pelo interior daquele país. Tudo se conta aqui através de uma frágil evidência das coisas mais banais. E não existe então surpresa neste recito feito de surpresas, onde o absurdo espreita a cada viragem – qual necessidade vital do homem, qual marca desse regime sem rosto. Não arriscando respostas redundantes e, afinal, de uma certa bonomia, um filme de uma perfeita simplicidade cinematográfica, onde as questões se colocam através da “simples” acção em cena (Chaplin sendo a grande referência do realizador). E o desenlace, de uma precisão aterradora, deixa-nos enfim essa imagem, quase palpável, do alcance de um regime onde os “assassinos estão entre nós.”
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Miguel Allen



