Críticas a Father Mother Sister Brother, de Jim Jarmusch

EquipaJaneiro 14, 2026

Leão de Ouro na última Mostra de Veneza, mas um filme pouco consensual de Jim Jarmusch. Father Mother Sister Brother, um regresso, depois da comédia de horror The Dead Don’t Die, com um tríptico sobre relações entre pais e filhos (já adultos), onde cada história nos evoca uma família diferente, as suas peculiaridades, distâncias e desconfortos. A Tribuna regressa também ao filme de abertura do último LEFFEST com quatro críticas.

 

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O cineasta, que chegou a Nova Iorque ainda adolescente, é considerado um símbolo de resistência do cinema independente, desde que iniciou a carreira na década de 80. Ao longo dos anos, Jarmusch tem-se afirmado como autor de culto, em filmes como Para Além do Paraíso (1982), Vencidos pela Lei (1986), Noite na Terra (1991), Homem Morto (1995), Ghost Dog – O Método do Samurai  (1999), Flores Partidas (2005) ou Paterson (2016). Alguns destes títulos passaram ou foram premiados em festivais como Locarno, Sundance, Cannes ou Berlim. Faltava no currículo a competição oficial de Veneza, mas talvez nem os grandes admiradores do cineasta pudessem prever que o Leão de Ouro acontecesse à primeira.

Pai Mãe Irmã Irmão é um filme construído em três capítulos e em cada um deles, assistimos às relações entre pais e filhos, num encontro que decorre em algumas horas. No segmento Pai, Adam Driver e Mayim Bialik (que bom poder ver a atriz, fora do universo sitcom de A Teoria do Big Bang!) vão visitar o pai interpretado por Tom Waits, numa casa nos arredores de Nova Jersey, onde vive sozinho depois da morte da mulher. O encontro dos três é pautado pelo desconforto de quem não sabe o que dizer, como agir ou conviver. No segmento dedicado à Mãe, a atriz Charlotte Rampling desempenha o papel de uma escritora de sucesso que parece dedicar-se em pleno à carreira e que prepara um chá para receber as filhas Cate Blanchett e Vicky Krieps. Ficamos a perceber que as filhas se ressentem da frieza da mãe, e que as três mulheres só se encontram uma vez por ano, apesar de todas morarem na mesma cidade, neste caso Dublin. No último capítulo, Irmã Irmão interpretados por Indya Moore e Luka Sabbat, encontram-se em Paris, onde os pais moravam até falecerem vítimas de um acidente. Os dois têm de tratar da venda do apartamento da família, da qual já só restam memórias de infância.

Em cada um dos segmentos, Jim Jarmusch deixa fluir nas conversas, nos olhares e nos gestos, os sinais da complexidade que pode definir as relações familiares, vincando as marcas do seu cinema, sustentado na maior parte dos casos, por uma certa atmosfera muito particular, melancólica e poética. Jim Jarmusch não perdeu nenhuma destas particularidades, mas neste caso, tudo fica no domínio do superficial e o resultado parece afetado (nem sempre de forma positiva), pela intenção do realizador em sublinhar as dificuldades dos relacionamentos que o filme aborda. As personagens estão reféns de conversas de circunstância, em que pouco ou nada há para dizerem e o filme acaba por se reduzir a um objeto pouco elaborado e por vezes desinteressante. Salva-se o humor de Jarmusch, nunca gratuito e sempre inteligente e o segmento final dos gémeos que relembram e evocam uma família que sempre foi algo distante, e que já não existe, mas que ainda assim, os emociona e aproxima. Apesar do reconhecimento através do Leão de Ouro em Veneza, Pai Mãe Irmã Irmão não chega para ser um dos melhores filmes de Jarmusch, mas alimenta a satisfação dos admiradores do realizador que podem acrescentar mais uma obra, à galeria (cada vez mais restrita), de filmes que não falam a linguagem de Hollywood.

Lara Marques Pereira

 

O último filme de Jim Jarmusch parece querer perder-se unicamente na sua simples premissa. Este tríptico de interacções familiares coloca em evidência quer a proximidade quer a distância intergeracional no contexto do lar. A sua construção novelística coloca logo em evidência a forma directa com que Jarmusch nos apresenta as suas imagens. O plano de abertura conta com Adam Driver e Mayim Bialik numa viagem de carro para se voltarem a reunir com um pai distante (Tom Waits). Os planos são tradicionais, um de curtos para cada personagem e um para captar os dois, mas revestem-se de uma convencionalidade inflexível. O propósito de foco total na interacção entre os dois leva-nos, quase como num trabalho de Eastwood, a uma secura situacional que evita qualquer tipo de complexidade na abordagem fílmica. Esta simplicidade funciona, contudo, quase sempre mais contra aquilo que Jarmusch pretende dizer do que necessariamente o contrário. Bialik e Driver são pessoas inteiramente distantes do pai a todos os níveis, quer geograficamente (Waits mora no mais inóspito bucolismo, os filhos são claramente produtos da cidade), quer do ponto de vista relacional. O que se segue na interacção entre os três é um desconforto cómico tão comum no registo humorístico pós-modernista, mas que coloca tão poucos desafios à premissa aqui em evidência.

Esta repetição é usada como forma de reforço no que diz respeito à narrativa maternal, protagonizada por Charlotte Rampling. Cate Blanchett e Vicky Krieps são filhas profundamente diferentes em trajectórias de vida, mas, tal como Driver e Bialik, partilham a mesma inacessibilidade face à figura maternal. Ainda que utilizado de forma robótica, este ritmo expositivo não se impõe pela forma como se pode diferenciar do seu antecessor nem pela maneira como poderia colocar o filme sob um prisma de comentário social mais evoluído. As gerações confundem-se pela repetição da história e não pela forma como impõem a sua própria individualidade.

É por isso que a vinheta fraternal, representada por Indya Moore e Luka Sabbat, que inverte a lógica interna em Father Mother Sister Brother. A ausência das figuras parentais remete agora para um registo de memorial, ligado a relações outrora cúmplices mas que se perderam pela passagem do tempo e sobretudo pela aleatoriedade da vida. Moore e Sabbat conseguem evocar essa sensação de uma forma poderosa, no meio de um elenco carregado de nomes e figurões. Esta vinheta não chega a tempo de salvar a matriz anódina em que Jarmusch coloca Father Mother Sister Brother, mas faz por impor uma reversão emocional que traz consigo uma dimensão verdadeiramente naturalista ao filme. Um trabalho de mensagem, de desambiguidade e de convicção, mas também um filme de alguém à procura de algo para dizer.

Hugo Dinis

 

Se tivéssemos de descrever o novo filme de Jim Jarmusch numa só palavra, essa palavra seria “desconforto”. Não só o desconforto que nos chega diretamente das personagens, muitas vezes constrangidas, mas também o desconforto de não querer continuar a ver um filme que se prolonga sem justificar o tempo que ocupa. Tal como o título sugere, Father Mother Sister Brother é um tríptico onde exploramos, à vez, relações familiares que de íntimas têm muito pouco.

Em Father, dois irmãos, Adam Driver e Mayim Bialik, vão visitar o pai, Tom Waits, com quem raramente têm contacto e que vive isolado junto a um lago. Há silêncios incómodos, ninguém quer estar ali, mas todos cumprem o que é suposto fazer-se quando se é uma família: passar tempo juntos. Segue-se Mother, com mais 30 minutos de um desconforto estéril. Desta feita, uma distinta Charlotte Rampling prepara o five o’clock tea, no único encontro anual da família. O clima de austeridade contrasta com o registo das filhas, Cate Blanchett e Vicky Krieps, incapazes de se afirmarem perante uma mãe, que as intimida e julga sem precisar de pronunciar uma palavra. A sete minutos da chegada do Uber, queremos o fim da visita tanto como elas, não por proximidade emocional, mas porque a cena há muito se esgotou. É com algum alívio que vemos surgir no ecrã Sister Brother, a promessa de que o filme se aproxima do fim. Acompanhamos agora dois irmãos gémeos, Indya Moore e Luka Sabbat, que vivem o recente luto pela perda dos pais. Ao contrário dos capítulos anteriores, aqui há sentimento, ligação, afeto. Contudo, esta acaba por ser a história mais penosa de seguir (e bem sabemos que a concorrência é feroz). Os irmãos completam as frases um do outro, emocionam-se com fotografias antigas e riem com desenhos de infância, mas a emoção não passa. Em Father e Mother, havia pelo menos uma autenticidade que aqui se perde.

No seu conjunto, Father Mother Sister Brother insiste num mesmo mal-estar familiar, tornando as duas primeiras partes redundantes no prolongamento do desconforto. Sister Brother tenta afastar-se desse registo, mas fá-lo através de uma encenação artificial, assente em clichés emocionais que dificultam qualquer verdadeira proximidade com as personagens. Mesmo quando parecem vazias ou distantes, as relações familiares persistem como um cordão que nunca se rompe por completo, independentemente da importância que lhes queremos dar. É paradoxalmente na ausência dos pais, mais do que na presença dos vivos, que o filme parece ensaiar os seus laços mais fortes. Pelo caminho, surgem ainda elementos recorrentes — relógios, skaters, brindes — que atravessam o filme sem que o seu sentido se torne claro. No final, fica a sensação de um filme que se esgota na sua própria proposta. O júri do Festival de Cinema de Veneza atribuiu à obra de Jarmusch o Leão de Ouro. Porquê? Teríamos de lhes perguntar.

Ana Matos

 

Facilmente o filme mais fraco de Jarmusch até à data, Father Mother Sister Brother constrói-se a partir da linguagem mundana e das pequenas coisas já vista em Paterson para criar três histórias distintas sobre família que se entrelaçam no que toca a temas e sentimentos, procurando sustentar uma ideia de uma experiência quase universal através do humor e da excentricidade. É um filme de antologia, sim. A segunda história apresenta Charlotte Rampling no papel de uma mãe de classe alta afastada emocionalmente das suas filhas: uma, Cate Blanchett, a “nerd” trabalhadora, a outra Vicky Krieps, a rebelde. Este triângulo oferece facilmente o melhor segmento do filme. As três atrizes, carismáticas, delicadas mas possantes, texturais, transmitem um humor negro impassível que se encaixa perfeitamente na câmara cínica e pungente de Jarmusch. A primeira história, porém, limita-se a filmar a estranheza dos momentos vazios e constrangedores entre o pai Tom Waits, e os filhos Adam Driver e Mayim Bialik, o que por si só não é suficiente e só com muito boa vontade e respeito pelo nome e cabeça de Jarmusch se consegue espremer algo de interessante. Já a terceira, sem o carisma, a acutilância e a personalidade de nenhum dos actores anteriores, encerra o filme de forma solidamente decepcionante, especialmente após o leve impulso proporcionado pelas três notáveis atrizes na segunda parte. As cores e sons apresentados na tela para os três separadores que dão início a cada um dos segmentos são talvez o que de mais desconcertante se retirará de Father Mother Sister Brother.

David Bernardino