Scarlett Johansson estreia-se na realização com um argumento de Tory Kamen para contar a história de Eleanor, uma senhora de 94 anos. Quando vê partir Bessie, uma amiga com quem partilhou casa durante várias décadas, Eleanor depara-se com o peso da solidão. Por causa disso, decide deixar a Flórida onde viveu durante décadas e aceitar o convite de Lisa, a filha, para viver com ela em Nova Iorque. Movida por curiosidade a Tribuna do Cinema foi conhecer Eleanor the Great, esta estreia da actriz na realização protagonizada por June Squibb, nascida em 1929, quase com 97 anos. Raquel Sampaio, Lara Marques Pereira, André Filipe Antunes e Carla Rodrigues assinam as críticas.
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Há qualquer coisa de profundamente enganadora na ideia de que as grandes histórias já não se fazem. Eleanor the Great não vem contrariar radicalmente isso, mas também não se limita a confirmá-lo. É um filme assumidamente clássico, quase fora do tempo, económico e enxuto que aposta tudo numa personagem e numa atriz que não precisa de provar mais nada. June Squibb, aos 90 e muitos – e depois do brilharete do ano passado na comédia de ação Thelma, de Josh Margolin -, interpreta Eleanor Morgenstein com uma energia que não pede licença. É abrasiva, espirituosa, por vezes cruel, muitas vezes solitária. Vive uma velhice funcional e satisfeita na Florida, até que a morte da sua melhor amiga com que vivia a empurra de volta para Nova Iorque, para casa da filha. A partir daí, o filme instala-se no território desconfortável da mentira como mecanismo de sobrevivência. Por impulso, Eleanor apropria-se da história da amiga num grupo de sobreviventes do Holocausto e o que começa como um gesto quase infantil, cresce até se tornar moralmente difícil de defender.
O argumento não surpreende: sabemos que a mentira vai escalar, sabemos que haverá queda. O interesse está menos no quê e mais no como. Eleanor é charmosa sim, mas capaz de queimar quem se aproxima demasiado. É isso que torna a interpretação de June Squibb tão interessante. Ainda assim, o filme ganha outra espessura na relação que estabelece com Nina, uma jovem estudante de jornalismo também em luto (interpretada com delicadeza por Erin Kellyman). A relação funciona porque é construída com tempo, silêncios e pequenas cumplicidades. Há uma intimidade intergeracional que não soa falsa, mesmo assentando num equívoco. As cenas em que as duas falam sobre a perda, ou simplesmente vagueiam pela cidade, são, de resto, das mais satisfatórias do filme. Kellyman funciona como o contraponto ético e emocional perfeito para Squibb, permitindo que Eleanor, mesmo sem se redimir totalmente, se permita baixar a guarda e usufruir de uma amizade real. É a primeira vez que Erin Kellyman carrega um papel desta dimensão e percebe-se o porquê de já ter sido apontada pelo The Hollywood Reporter como uma das atrizes a seguir com atenção nos próximos anos. Ela sustém o filme com uma contenção admirável e luminosa: carrega o luto e a vontade de compreender o outro sem nunca se impor.
Na sua estreia como realizadora, Scarlett Johansson mostra inteligência e contenção. Não tenta impressionar com estilo; prefere desaparecer atrás das personagens. O resultado é um filme visualmente discreto, talvez até esquecível nesse plano, mas seguro na direção de atores. O elenco secundário (com Jessica Hecht e Chiwetel Ejiofor) cumpre sem grandes fogos de artifício.
O maior problema do filme está no centro moral que nunca chega a ser verdadeiramente enfrentado. A solidão explica tudo depressa demais; a dor funciona como atenuante universal. Falta risco aí. Falta permitir que Eleanor seja menos perdoável. Ainda assim, há algo de honesto nessa imperfeição: Eleanor the Great não quer ser um filme importante, quer ser um retrato humano, com falhas incluídas. Não é memorável, nem revolucionário. Mas é caloroso, bem interpretado e emocionalmente eficaz. Um filme pequeno, de personagens, com uma protagonista impossível de ignorar. Três estrelas dadas sobretudo a June Squibb, que transforma uma personagem discutível numa presença irresistível.
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Raquel Sampaio

Um drama cheio de bons temas e boas intenções, mas que não consegue ser mais do que um filme ligeiro para ver no sofá, em casa.
Aos 95 anos, a atriz June Squibb brilha como A Grande Eleonor e domina o drama e o humor do filme. Eleonor acaba de perder a grande amiga Bessie, com quem partilhava a vida e a casa, depois de ambas terem ficado viúvas, e decide deixar a Flórida e voltar a Nova Iorque para ficar em casa da filha. Na bagagem, leva um génio difícil e o pragmatismo de quem já viveu tempo suficiente para poder dizer, sem filtros, o que bem entender. Eleonor tem língua afiada, resposta pronta e não hesita em moldar a verdade em situações inofensivas como, por exemplo, levar uma jovem enfermeira a acreditar que a amiga internada foi fundadora do hospital onde se encontra, e por isso, tem de receber tratamento especial. As pequenas mentiras de Eleonor ganham uma dimensão diferente quando, já em Nova Iorque, participa por engano num grupo de terapia para sobreviventes do Holocausto e, em vez de assumir que é apenas uma judia convertida pelo casamento, resolve partilhar a história de Bessie, que nasceu na Polónia e ao longo da vida nunca ultrapassou o sofrimento de ter sido a única da sua família a sobreviver aos nazis. A mentira ganha ainda mais lastro quando uma jovem estudante de jornalismo, que assiste à sessão, se interessa pela história. As duas acabam por passar tempo juntas, criam laços de amizade e partilham o luto que atravessa as suas vidas. Eleonor ficou sem a amiga de há várias décadas, enquanto a universitária perdeu a mãe há poucos meses e sente que à sua volta ninguém consegue dar-lhe consolo ou sequer compreender a dor que sente. O encontro das personagens é um dos pontos a favor do filme e reveste-se de algum interesse por permitir explorar drama e comédia, com algumas situações caricatas ou divertidas tendo em conta a diferença de idades e de interesses. Scarlett Johansson afirma-se como uma realizadora com uma preocupação contra a corrente ao abordar o tema do envelhecimento, trazendo para primeiro plano June Squibb, uma atriz que só conseguiu ser protagonista já em fase final de carreira e de vida.
No entanto, há uma enorme fragilidade no tratamento dos temas maiores que estão em pano de fundo: o luto e a preservação da memória do Holocausto. O filme faz uma abordagem demasiado simplista e ligeira aos traumas dos que sobreviveram aos campos de concentração, numa altura em que poucos ainda estão vivos e há uma onda de negacionismos vários que ameaça essa memória.
Num determinado momento, Eleonor conversa com um rabino sobre uma história do Torá (livro sagrado do judaísmo) na qual é sublinhada a importância da pureza de intenções, mesmo que esteja em causa uma pequena mentira ou engano. Scarlett Johansson, ela própria de origem judaica, parece ter cristalizado esta ideia ao colocar o cinema ao serviço da intenção de abordar a memória do Holocausto, mas não ter a coragem de aprofundar o assunto e, de alguma forma, desculpabilizar que a protagonista desta história tenha mentido sobre algo tão importante. A Grande Eleonor põe à prova a capacidade de Scarlett Johansson, na sua estreia como realizadora de uma longa-metragem, apresentada na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, mas não se livra de ser um exercício de academismo, sem qualquer rasgo de ousadia. Salva-se a grande June Squibb, uma atriz capaz de carregar o filme por inteiro e deixar-nos à espera de que Eleonor possa não ter sido a sua última aparição no cinema.
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Lara Marques Pereira

Eleanor é um daqueles objetos que gera a sua própria boa vontade. De um lado June Squibb, a protagonista nonagenária e fofinha, que devemos estimar enquanto ainda cá está; do outro, Scarlett Johansson, estrela maior a picar o ponto que as estrelas picam a certa altura quando querem ser levadas a sério como “artistas” e “realizadores” dum filme “sério” e “independente”. Enfim, a máquina de vendas industrial agradece, os fãs/críticos do acesso às celebridades e da press junket ampliam com o megafone do seu alcance e o filme lá atinge uma aura de respeitabilidade capaz de enganar os incautos. Ficaria até mal a alguém denegrir uma proposta assim.
Sejamos claros: É um péssimo, péssimo filme. A estrutura narrativa assenta nesse mais cansado e frustrante dos clichés de Argumento: o mal-entendido, a personagem que mente ou oculta a verdade aos que a rodeiam porque, lá no fundo, tem um bom motivo para o fazer, sendo que o espectador é forçado a assistir a cenas confrangedoras em que a mentira cresce e cresce até que (claro), é revelada mais adiante numa cena qualquer tosca onde todo o elenco converge para descobrir ao mesmo tempo… enfim, só isso já esgota a paciência. Mas que Eleanor tenha o genuíno mau gosto de utilizar o Holocausto, esse horror maior da memória coletiva, não para o examinar, comentar ou sequer relembrá-lo à luz dos horrores modernos, mas para gerar um simulacro de tensão artificial e bacoca, sem qualquer interesse real na temática à mão senão como mero engenho narrativo – tal ofende a sensibilidade moral. E que tudo isto se resolva numa penosa cena em que Chiwetel Ejiofor, até aqui não mais do que “jornalista estoico/plot device” encarne o seu melhor Rodrigo Guedes de Carvalho, num monólogo moralista de quinta categoria e absolutamente inverosímil (que programa é este??? como é que está sequer no ar???) – tal ofende a sensibilidade artística.
É mau demais. Pior, porque Johansson, muita pena, gosto de alguns filmes seus, não é realizadora: não sabe o que fazer, onde colocar os seus players e a câmara, quando a movimentar. A imagem rasa e bidimensional, digna de televisão filmada ou anúncio de seguradora, é suficientemente imperdoável, mas a realizadora cede também ao instinto natural dos atores, que gostam de se ver em grande plano, e filma metade da obra em cima dos rostos do seu elenco. Resultado: as cenas emocionais perdem todo o impacto, tornam-se rotina, não produzem qualquer efeito. Não sabe mais, não pode mais. Enfim, ao menos é curto, e o elenco tenta salvar o que pode (Erin Kellyman é uma presença interessante). Ficam os votos de que no futuro Johansson, que é boa atriz, possa continuar a dizer “muita merda” antes de estar em frente à câmara, em vez de a fazer atrás dela.
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André Antunes

Até custa não cobrir de elogios um filme com uma idosa tão fofa quanto June Squibb, mas a verdade é que A Grande Eleanor não pareceu assim tão grande, pelo menos cinematograficamente falando. Trata-se da estreia de Scarlett Johansson na cadeira de realizadora, e esperava encontrar ali um pouco da mesma garra que tantas vezes mostra como atriz (isto desde que não nos lembremos de desaires como Jurassic World: Rebirth, embora ela esteja longe de ser o problema desse filme). Em vez disso, Johansson serve-nos algo morno, uma dramedy que, apesar da fartura temática, se contenta em ser um pãozinho de leite mole, uns pouquitos graus acima daqueles filmes que povoam o AXN White. June Squibb interpreta Eleanor Morgenstein, uma viúva espevitada de Nova Iorque que passa a velhice na Florida ao lado de Bessie, a sua melhor amiga de toda a vida, com quem divide um apartamento e os pequenos altos e baixos do quotidiano. O mundo de Eleanor estilhaça-se quando Bessie falece. Bessie era sobrevivente do Holocausto, marcada por um trauma que nunca conseguiu partilhar na sua horrível totalidade com mais ninguém além de Eleanor. Forçada a regressar a Nova Iorque para viver com a filha após a morte de Bessie, Eleanor vê-se privada da sua relação mais fundacional, substituída agora por um vazio abissal. Não há ali lugar para ela, nem escuta, nem paciência por aí além. Resta-lhe a companhia da solidão.
As curvas morais sinuosas que Eleanor decide, meio que por acidente, seguir para manter essa solidão à distância são o motor do filme e levantam questões às quais não falta potencial: como se vive com o luto, até onde vamos para fugir à solidão, de que formas tortas tentamos manter alguém vivo através da memória. O problema é que Eleanor se encurrala numa mentira terrível, ainda que bem-intencionada, e o filme acaba por se encurralar nesse dilema também. Propõe-se a extrair algum tipo de mensagem ou lição sobre luto, solidão a dor, mas parece ter medo das conclusões a que possa chegar por estes caminhos travessos. Fica preso a um tom que vai balançando meio torto, sem decidir se quer confrontar o gesto da protagonista ou só justificá-lo. Cada um dos temas aqui tocados daria, por si só, material para um filme denso, emocionalmente afiado, sem perder o humor e o coração que a rezingona Eleanor lhe dá. Mas tudo isso é desperdiçado porque não nos deixam ir além da superfície. O argumento de Tory Kamen é desdentado e avesso ao confronto. Não há verdadeira vontade de desmontar ou criticar as atitudes da protagonista. À primeira vista percebe-se esse receio: quem é que quer ser duro com uma idosa tão querida? Mas essa falta de coragem cobra o seu preço. O filme acaba por ser um snack sem substância, como aquelas rodelas de arroz que sabem a contraplacado. Não faz mal a ninguém, mas é inócuo, não dá prazer. Sabemos que comemos qualquer coisa para enganar a fome, mas nem nos lembramos muito bem do quê.
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Carla Rodrigues



