Três anos após o thriller criminal La Nuit du 12, o realizador franco-alemão Dominik Moll prossegue a exploração de uma sociedade francesa crescentemente marcada pela violência. Em Dossier 137, baseado em factos reais, Léa Drucker é uma agente dos assuntos internos da polícia francesa a investigar o caso de um jovem manifestante ferido gravemente nas ruas de Paris. A Tribuna foi conferir mais um competente trabalho de Moll.
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Como é ser uma polícia que investiga outros polícias, numa Paris a ferro e fogo, durante as manifestações dos coletes amarelos? Em bom português, é como ser preso por ter cão e por não ter. Ou, neste caso, gato. E será fácil alguém ser preso? Talvez uma má escolha de expressão. O filme parte do caso de um jovem gravemente ferido numa ação policial durante as manifestações de 2018 em Paris. Aqui, a investigação dispensa a fórmula dos thrillers americanos, sem voltas nem reviravoltas. Há até cenas em que os inspetores estão sentados diante de um computador e ouvimos, em off, o conteúdo de e-mails cheios de termos formais. Porque um investigador não tem só uma vida de adrenalina e ação. Há burocracias, esperas por autorizações e testemunhas que não colaboram.
O caso não é particularmente intricado, não tem demasiados elementos, a narrativa é bastante linear, e ainda bem. Este é um daqueles filmes que lembram que num mundo polarizado, nada é tão simples quanto parece. Quase tudo na vida é complexo, e este caso não é exceção, com as suas múltiplas camadas e diferentes ângulos. A própria investigadora, que está sempre a dar o seu melhor, nunca parece conseguir ser suficiente para ninguém. A força de Dossier 137 está em não dar respostas. Mais do que um caso, expõe um sistema e as suas limitações. Vemos a realidade e sentimo-nos frustrados porque dificilmente as coisas podiam evoluir de outra forma. O filme apresenta um mosaico de perspetivas: a família que saiu à rua por melhores condições, os polícias chamados à pressa para defender a República, a testemunha que teme represálias, a investigadora que tem de julgar os seus pares, o filho que questiona porque é que ninguém gosta da polícia.
A história é baseada em factos reais, mas não se sente qualquer tipo de aproveitamento ou sensacionalismo. Léa Drucker é exímia no papel de Stéphanie. Discreta, racional, humana. O realismo que dá o tom ao filme impressiona ainda mais por isso mesmo. Parece cinema sem esforço e, no entanto, saímos da sala inquietos, com tudo ainda por digerir. No fundo, é isto que um bom filme faz. Faz-nos pensar, sentir, e chega a comover, sem conclusões fáceis nem alívios artificiais. Fica-nos colado à pele nos dias seguintes. Parece simples, mas é cada vez mais raro encontrar filmes assim.
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Ana Matos

Depois do whodunnit de inspiração Chabrolesca que foi La Nuit du 12, Dominik Moll prossegue o seu foco policial, desta feita pelo prisma da polícia da polícia. Dossier 137 investe num dos casos tópicos da dissensão pública francesa mais globais e mediáticos: a insurgência do movimento dos coletes amarelos. Moll examina o caso de um jovem assistido pelos bombeiros depois de ser alvejado na cabeça por uma bala de borracha disparada por um grupo da brigada de intervenção. Desde logo, o destaque dado a Léa Drucker, a polícia encarregada com o caso na unidade de ‘internal affairs‘ de Paris, recai no mais forte dos ombros. A sua performance alterna entre uma impassividade sonolenta e uma atração constante pelo caso. A sua ligação com a família da vítima, residente na sua cidade natal, promove uma introspecção encadeada que concorre para ir subindo a parada afectiva gradualmente. No seu global, Dossier 137 tem o mérito de mostrar um enorme cuidado com o retrato fastidioso que rege a realidade das ocorrências, tendo sido elas inspiradas em factos reais. Somos levados a uma incursão no vasto rol de incidências relatadas com uma precisão admirável, ainda que nem sempre em busca de um ritmo urgente para as apresentar.
Dossier 137 apresenta, pois, um problema de ritmo que se vai adensando principalmente durante toda a sua primeira metade, à medida que assistimos Drucker a conduzir intermináveis entrevistas ao que parece ser quase toda a cadeia de comando policial em Paris. Em todo o caso, não deixa de ser em muito ajudado pela forma como consegue resgatar um crescimento de tensão por parte do argumento. É também aí que a incursão pelo mundo pessoal de Drucker se vai focando na sua componente de relacionamento parental. A partir do momento em que o Dossier é fechado com a produção inequívoca de provas, Moll reinventa o filme na sua componente moral. Dossier 137 incorre numa toada panfletária e urgente que reboca o filme até final. Este crescendo termina com a sensação de estarmos perante um trabalho que até faz por emendar a letargia inicial. Em todo o caso, a moralidade está entrelaçada com a noção de serviço público com a condução de Moll. A sua causa é justa mas amarrada ao prosaico dos prosseguimentos. Há um propósito unipessoal que Dossier 137 une à personagem de Drucker e a sua medida de sucesso é a mesma do próprio filme.
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Hugo Dinis



