Críticas a Disclosure Day, de Steven Spielberg – O Regresso da Caveira de Cristal

EquipaJunho 12, 2026

Há quatro anos, The Fabelmans era apresentado em Portugal pela primeira vez perante um Tivoli repleto em mais uma edição do Festival Leffest. A ocasião era especial. Afinal de contas, era o primeiro filme abertamente autobiográfico de Steven Spielberg. A recepção foi calorosa, mas ficou no ar uma sensação de fim de ciclo que fez com que muitos achassem que um dos cineastas de maior sucesso de bilheteira da história do cinema fosse deixar para trás a câmara. O hiato foi significativo, mas a resposta surgiu esta semana com Disclosure Day. Oficialmente o quinto registo de Spielberg sobre a possibilidade de vida extra-terrestre, Disclosure Day volta a lançar aos espectadores a milenar questão: estaremos sozinhos no universo? Um hacker (Josh O’Connor) contratado por uma misteriosa empresa independente luta para revelar a verdade ao mundo, enquanto que uma jornalista de meteorologia (Emily Blunt) se vê a braços com um conjunto de capacidades para as quais não tem explicação. Quase cinquenta anos depois de Close Encounters of the Third Kind (1977), a Tribuna foi à procura de respostas e regressou com quatro críticas ao filme.

 

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A primeira de várias surpresas de O Dia da Revelação é que, apesar da premissa inicial, estamos perante um Spielberg muito mais próximo de IA – Inteligência Artificial, da exploração autobiográfica de Os Fabelmans ou até do thriller especulativo de Relatório Minoritário, do que da referência óbvia aos Encontros Imediatos de Terceiro Grau. O mestre do mega-filme escapista, que para o bem e para o mal escreveu várias das fórmulas a que Hollywood se submeteu nos últimos 40 anos, não foge aos seus conhecidos impulsos de entertainer – há aqui sequências de ação brilhantemente executadas, uma em particular numa linha de comboio onde imaginamos o Spielberg de 12 anos a filmar em carris de brincar, sem nunca perder o entusiasmo juvenil; ou até, se formos atrevidos, a fúria cinética de Tony Scott. Entrega, contudo, um filme muito mais reflexivo, feito de questões desafiantes e irrespondíveis sobre a humanidade, o nosso lugar no mundo e a capacidade de definirmos o nosso próprio futuro coletivo.

Uma III Guerra Mundial em potência, nunca em destaque mas sempre presente como pano de fundo, não nos deixa esquecer que a humanidade já viu melhores dias. Enquanto isso, a fé, tema raro em Spielberg, aparece aqui como elemento narrativo central, no quanto as revelações que o filme aporta constituiriam alterações fundamentais na nossa relação com o desconhecido. “A Génesis diz que Deus nos fez como a sua maior criação…”, diz a certa altura uma personagem; “… Na Terra”, corrige singela outra, uma freira, num de vários fascinantes trechos do argumento assinado por David Koepp a partir de uma ideia do próprio realizador. Que acredita e nos faz acreditar – um feito não de somenos tendo em conta não só a bagagem que já trazemos de outros Spielbergs semelhantes, mas também a própria iconografia do género que pisa e repisa: estes são os aliens dos discos voadores, dos olhos pretos esbugalhados e da pele prateada. O engenho, a genialidade, está no facto de isso não ser um descuido ou preguiça criativa, mas uma escolha deliberada de alguém que quer enraizar este conto especulativo na memória popular coletiva — de Roswell, dos avistamentos de OVNIs, da ideia de que a verdade nos está a ser ocultada. Aproxima-nos da história, facilita a nossa entrada nela.

Porque Spielberg é, e sempre foi, um contador de histórias. O seu legado, o impacto que teve no desenvolvimento do complexo industrial do multiplex, na exportação e valorização de uma certa ideia balofa de liberalismo americano decrépito e incapaz face aos desafios e ameaças do mundo de hoje e que esse mesmo liberalismo ajudou a criar, complicam a narrativa, mas é também por isso especialmente mágico que essas reservas não nos impeçam de nos envolvermos tão sinceramente com o filme, essa máquina de empatia que quebra as nossas defesas e desconfianças – a propósito, não é a isto alheia a absoluta maestria técnica do cineasta: a barra pode estar no inferno, mas é ainda assim um deleite ver um filme iluminado para parecer um filme, com um trabalho de fotografia tão cirúrgico como aqui se evidencia. Tudo se conjuga para que se torne mais do que a soma das suas partes, para que supere o excesso de personagens e uma ou outra debilidade e facilitismo do argumento, alguns efeitos visuais questionáveis e momentos um tanto inexplicáveis (os sinais na seara são o único lugar-comum que soa a falso). É então essa empatia que se eleva nos momentos climáticos, quando Emily Blunt — a quem aqui se dedicaram poucas palavras e que, antes que estas linhas se esgotem, merece que se diga que é extraordinária – nos liberta da tensão e revela o que todos esperámos para ver. O que vem depois não está escrito teremos de ser nós a defini-lo assim tenhamos capacidade de escutar o outro e o que está lá fora. Sem medo do desconhecido.

André Filipe Antunes

 

A imagem é uma divindade. Se assim é, Spielberg é um dos xamãs da sua religião. Disclosure Day é uma celebração do poder do “ver para crer”. Alicerçado na ideia de que o poder da verdade está na sua divulgação enquanto imagem, Spielberg coloca-se na encosta de uma outra verdade particularmente escorregadia: a ideia de que, de facto, basta mesmo ver para crer. Escrito por David Koepp, que recentemente nos trouxe trabalhos da vacuidade de Indiana Jones and the Dial of Destiny ou o inqualificável Jurassic World Rebirth, Disclosure Day é uma premissa simples concretizada a partir do seu fim. Os humanos estão a ser impedidos de descobrir a existência de vida extra-terrestre por uma entidade nebulosa chefiada por Colin Firth, enquanto que um pequeno grupo intrépido de pessoas procura revelar a verdade ao mundo por intermédio de uma transmissão televisiva à escala global. No meio disto tudo estão dois predestinados: Josh O’Connor e Emily Blunt personificam a realeza humana na medida que foram escolhidos a dedo pelos forasteiros para funcionarem como emissários perante os nativos, dotados de uma excepcionalidade involuntária, mas particularmente poderosa.

Em Portugal há um partido político que faz cartazes com a palavra “verdade” apensada à sua sigla. A ideia é relativamente simples no seu populismo imediato: o acesso à verdade é-nos vedado e estão aqui pessoas para a defender intransigentemente. A sua lógica permite depois explorar os infindáveis buracos negros das teorias de conspiração das redes sociais. Apenas o refiro para recentrar a lógica interna de Disclosure Day, inserida que está nesta sua ideia do poder da imagem como força inultrapassável. De E.T. the Extra-Terrestrial a The Terminal, o cinema de Spielberg sempre foi feito de ingenuidades, mas, em Disclosure Day, Koepp conduz Spielberg para esta salada russa de situações que pouco se ligam entre si a não ser pela credulidade no poder da imagem. Se apenas todos pudessem ver, iriam compreender. Nos dias que correm, em especial, isto soa ligeiramente pueril, mas não é necessariamente por aí que o fio se descose em relação a Disclosure Day.

O filme começa como Bridge of Spies outrora havia também introduzido a sua trama: um set piece de espionagem que coloca inúmeras partes em movimento em torno de algo que todas procuram, no caso um peculiar artefacto de poderes especiais. Josh O’Connor funciona como o polegar em cima de Disclosure Day, alguém que está a par do encobrimento de Firth e seus acólitos, mas que se revela impotente perante os infindáveis e inexplicáveis recursos ao seu dispor. A motivação de Firth está sempre envolta na mesma nebulosidade que a sua organização. Afinal, tal como nas teorias de conspiração, fica sempre melhor aludir.

Mas se Koepp se desdobra em personagens que pouco parecem fazer, e ainda menos impacto emocional evocam, em Disclosure Day, Spielberg aparenta recauchutar aqui os seus temas populares em torno da possibilidade de vida extra-terrestre. A informação de que não estamos sós no universo evoca reflexão sobre as nossas próprias diferenças enquanto humanos, sobre a existência de um deus, e sobre como lidar com o Outro. Coligados, fazem uma montra de intenções sob uma trama de espiões inabilmente cozinhada por Koepp, mas que o xamanismo visual de Spielberg faz sublimar num dos seus clímaxes característicos. A imagem reduz-nos ao silêncio.

Hugo Dinis

 

E se, de um momento para o outro, deixássemos de estar sós no universo? Saber a verdade aproximar-nos-ia uns dos outros ou abriria um fosso ainda mais fundo? E o que seria da fé, com outros “seres supremos” a disputar o lugar? São perguntas destas que movem Steven Spielberg no seu regresso à ficção científica, vinte e cinco anos depois de A.I. – Inteligência Artificial.

O mais surpreendente está no ponto de partida. Spielberg e o argumentista David Koepp dispensam aquilo que alimenta o género há gerações – o primeiro contacto – e colocam-nos dentro duma história que já vai a meio. Daniel (Josh O’Connor) descobriu o que tantas ficções prometeram: existem formas de vida não-humanóides e há gente com poder, empenhada em manter isso longe do mundo. Alia-se a um punhado de desertores chefiados por Hugo Wakefield (Colman Domingo), todos à espera do sinal que desencadeará a última fase do plano – despejar de uma vez todas as imagens já registadas desses encontros. O tal Disclosure Day.

Simultaneamente, Margaret Fairchild (Emily Blunt), meteorologista em Kansas City começa a viver o mundo de formas que não deviam ser possíveis. Fala russo fluente com o namorado (Wyatt Russell) sem nunca o ter aprendido; olha um polícia nos olhos e sabe que ele discutiu com a mulher àquela hora da manhã; entra em direto e o que lhe sai da boca soa a língua de outro planeta. Só Daniel a percebe. Daqui em diante, o que temos é basicamente uma perseguição: quatro histórias – Daniel, Margaret, Hugo e o antagonista Noah (Colin Firth) a correr para um mesmo cruzamento.

A máquina anda, e anda bem, porque há poucos como Spielberg a saber pô-la a andar. Boa parte da energia vem de Janusz Kaminski, cúmplice de longa data e duas vezes vencedor do Óscar, que filma quase tudo em movimento, a câmara a rodopiar à volta das personagens, a recusar os eixos do costume, a deixar-nos sem equilíbrio. Não é uma fotografia que se exiba, mas, quando se solta, tira o fôlego: um plano-sequência a caminho de uma quinta, uma colisão entre carro e comboio que justifica por si só a ida ao cinema. Por cima de tudo, mais uma partitura de John Williams a esticar a tensão na medida exata.

Mas nem tudo cola, claro. Koepp tropeça ao explicar a mitologia que inventou, os diálogos escorregam vezes de mais para o chavão, e há umas criaturas em CGI francamente toscas que furam a magia de um filme que, no resto, acerta nos efeitos. A mão pesa também na temática: o passado religioso de uma das protagonistas e os encontros com a antiga Madre Superiora dizem em voz alta o que ganhava em ficar sugerido. Ainda assim, mesmo aí, sobra sempre matéria para a cabeça remoer e há uma camada meta irresistível numa sequência erguida sobre o que é, no fundo, um cenário, gente a reconstruir algo para arrancar uma emoção. Depois de Os Fabelmans, é quase impossível não a ler como confissão: o cinema, este cinema, leva-nos aos cantos mais bem trancados da memória.

A ficção científica de Spielberg nunca foi só passatempo – do divórcio dos pais a pulsar por baixo de E.T. e Encontros Imediatos, à Guerra dos Mundos (lida como ferida do 11 de Setembro), ao braço-de-ferro entre destino e controlo de Relatório Minoritário. Disclosure Day é demasiado cheio, mas é vivo, curioso e generoso a entreter. E é por isso que custa tanto. O filme atrapalha-se com o próprio peso e, quando devia fechar com um murro, fecha com um encolher de ombros. A mensagem de Disclosure Day bateria muito mais fundo se não chegasse de forma tão anticlimática.

Raquel Sampaio

 

Um traço recorrente dos filmes “de extraterrestres” de Spielberg é a sua apetência para assumir a existência de alienígenas. Se se encena o espanto, a surpresa ou mesmo a mortificação perante essa revelação, o foco da narrativa está quase sempre afastado da descoberta em si e muito mais interessado em explorar o confronto entre uma vida banal americana e a extraordinária existência de algo que a ultrapassa, de um “além”. Em Disclosure Day, por muito que o filme funcione, em certa medida, como um thriller de espionagem – um segredo perigoso que uns procuram proteger e outros revelar -, o mistério pouco faz para alimentar o valor dramático da trama. O espectador pode não “compreender tudo”, mas, a partir do momento em que a caixa é aberta, Spielberg desvia rapidamente a atenção para as lágrimas de Jane (Eve Hewson) perante a injustiça feita àquelas pequenas criaturas verdes, ou para a problemática da existência de Deus perante um corpo estranho, concreto, que possa ocupar o seu lugar.

Na verdade, em Disclosure Day aborda-se sobretudo o valor do mistério na sobrevivência dos humanos e, nisso, a existência de uma verdade que poderosos retêm do cidadão comum. Para Spielberg, a equação parece simples, o mistério sendo aquilo que “não vemos”, uma não-imagem, a verdade, por reverso, é aquilo que “podemos ver”. E neste seu épico de whistleblowers, o realizador parece justificar a importância da revelação através de uma quase ingénua convicção de que esta poderá aproximar-nos de novo da nossa própria humanidade. Num mundo em chamas, que em tudo se parece com o nosso – apesar da inevitável simplificação (ou americanização), com os Estados Unidos confrontados pela ameaça exterior de um Estado inimigo, neste caso a Coreia do Norte -, imagina-se uma espécie de fórmula mágica destinada a recordar-nos que, afinal, somos todos uma grande família debaixo do mesmo tecto.

Nesse sentido, e com cada filme a responder ao seu tempo, se em Close Encounters (1977) os extraterrestres se apropriavam dos objectos humanos mais prosaicos para se manifestarem, ou se em War of the Worlds (2005), num pós-11 de Setembro, uma gigantesca ameaça exterior acabava derrotada pela nossa maior “arma biológica”, os micróbios, em Disclosure Day essas mesmas criaturas encontram o seu meio de expressão num valor que Spielberg parece considerar essencial ao nosso Presente: a linguagem (ou discurso) e a sua inteligibilidade. Estes novos velhos extraterrestres compreendem que a grande força dos humanos reside na capacidade de compreender o outro – aquilo a que poderemos chamar empatia – e a sua permanência na Terra será deixada nas mãos de duas crianças, transformadas (por engodo, uma cena com ecos de Hänsel und Gretel)  em tradutores instantâneos e, portanto, em motores de entendimento.

O filme não irá tão longe quanto os seus extraterrestres no arrojo formal dessa sua demanda “humanista”. Se tanto se evoca ouvir e falar, para Spielberg tudo passará sobretudo pela tradução de uma mensagem através de uma imagem clara. E tal como os visitantes assumem formas que os humanos possam aceitar, a verdade passará aqui, necessariamente, pela entrega de uma imagem ao espectador; algo que possa, pela sua magnitude e simplicidade, suspender o curso de uma aparentemente inevitável corrente de destruição. Fala-se de fé, da crença em Deus, mas para Spielberg estes revelam-se conceitos demasiado abstractos, fontes de contradição porque dependentes de uma mensagem que padece de clareza pelo seu tradutor.

A conciliação através da evidência, a revelação do filme – um “regresso ao Kansas” depois de um périplo pela ilusão – expõe, ainda assim, as fragilidades importantes na reflexão do realizador. Descartando a crença religiosa, o filme resgata-se afinal na crença num meio de difusão (de discurso) tão omnipresente quanto Deus. Spielberg, fiel herdeiro da televisão, parece ainda acreditar que esta poderá salvar o mundo – sobretudo através das suas mais eficazes e agressivas versões contemporâneas -, esquecendo (ou omitindo) o seu evidente potencial manipulador. E se o desenlace de Disclosure Day evoca um singular resgate pela dependência dos media, que efectivamente vivemos, este constrange-nos, afinal, a uma imagem única, por ventura neutralizada, e a uma única voz que, iluminada (esperamos!), nos poderá conduzir por nova fuga do Egipto.

Na sua aparente ingenuidade, o narcisismo de Spielberg talvez lhe seja inevitável, é certo. E a solução final de Disclosure Day poderá chocar, precisamente, pela sua falsa humanidade e oportunismo programático. Ainda assim, não falta (como nunca faltou) a Spielberg um enorme talento, capaz de sustentar, pelo menos, dois terços do seu filme. De contornos menos precisos, mais esquiçados, do que lhe é habitual, Disclosure Day fortalece-se de ecos de outros títulos da sua filmografia, e é difícil não nos espantarmos com este “filme de velho” que se nos revela tão concentrado, tão entusiasmado pelo seu próprio percurso. Tanto se diverte e se comove com uma das suas personagens principais, uma encantadora Emily Blunt, como submete a outra (Josh O’Connor) aos sucessivos desvios de género com que torce a sua narrativa de espionagem. Talvez pudéssemos falar apenas de competência, não fosse a execução tão cativante (escapista?). Spielberg sabe mesmo “como fazê-los” e Disclosure Day, apesar do problemático discurso do último terço, parece, por boa parte da sua duração, querer equiparar-se a alguns dos melhores momentos da sua filmografia.

Miguel Allen