Die My Love (ou “Mata-te, Amor“, no deselegante título de distribuição português) marca o regresso de Lynne Ramsay à realização, oito anos após You Were Never Really Here. O retrato violento de uma mulher, no estilo imersivo, expressionista e solto de Ramsay. Três críticas.
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Este não é o primeiro filme a desmontar a fantasia cor-de-rosa e instagramável da maternidade, e de certeza que não será o último (nem sequer é o único este ano). Há cada vez mais histórias, muitas vindas do género do terror, a explorar este lado menos fofinho mas tão real quanto o outro. Além do tópico, uma das coisas em comum entre essas obras é que, a maior parte das vezes, a narrativa nos coloca do lado da mãe. Tal como ela, sabemos e sentimos que há qualquer coisa de errado, alguma força obscura a conspirar contra uma pobre fragilizada.
Die, My Love baralha a simplicidade dessas leituras. Grace, a jovem mãe interpretada por Jennifer Lawrence, não cria empatia facilmente. Se às vezes percebemos a angústia porque está a passar, outras vezes é difícil acompanhar a sua volatilidade. Não há uma força obscura a operar aqui, nem ela é uma pobre fragilizada, mas mais um tornado de raiva e inconformação, afligida por uma doença mental inominável que ninguém se esforça por compreender. Isolada com um bebé numa casa meio delapidada no meio de nenhures, a neblina emocional adensa-se. Não ajuda que o seu companheiro Jackson (Robert Pattinson) se torne cada vez mais ausente, talvez por não saber lidar com esta mulher em espiral. O que temos aqui não é, nem de perto nem de longe, um filme de terror, mas algo que nos faz sentir terror por sabermos que não há nada de sobrenatural em jogo. Só seres humanos e os cantos escuros da nossa mente. Só o apetite pela (auto) destruição versus a apatia.
Lynne Ramsay constrói com mão firme este desequilíbrio e a fossa que se escancara tanto entre o casal como no mundo interno de Grace. O seu colapso, sob o olho do diretor de fotografia Seamus McGarvey e uma capa de grão, faz lembrar um sonho típico de uma noite de febre, um daqueles aflitivos e não-lineares. Narrativamente, o filme não se preocupa muito em chegar a um sítio em particular: anda em círculos, preso de propósito ao mesmo mal-estar. O clássico arco dramático é substituído por um loop de desgaste em crescendo, um espelho da gravidade dos pensamentos intrusivos de Grace.
Como um todo, Die, My Love é desconfortável de ver na forma como acompanha alguém a desmonorar-se. Acaba por ser essa a sua força. Jennifer Lawrence é raiva, é acidez, é desespero, é instabilidade, é fogo. O filme fica ali com ela. E nós, mesmo que não a consigamos compreender, também.
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Carla Rodrigues

Die My Love é a história de uma pessoa que não está bem. “Some people are not well” como diz Pam (Sissy Spacek, numa interpretação cheia de empatia). Jennifer Lawrence é excelente no papel principal de uma mulher transtornada. São justas as comparações entre a sua ferocidade e a de Gena Rowlands, a título de exemplo em A Woman Under the Influence (John Cassavetes, 1974). Infelizmente, o filme à volta de Lawrence não convence. A sua personagem sofre de depressão pós-parto, mas não há aqui nenhum comentário relevante da parte da realizadora e co-argumentista Lynne Ramsay, apenas a exibição de muito histrionismo. Não há falta de vidros partidos, casas-de-banho destruídas, facas brandidas, discussões histéricas, e cabeçadas aleatórias. Oxalá Lawrence e Robert Pattinson (o marido ausente) tivessem partilhado mais cenas, pois são esses os pontos altos do filme. LaKeith Stanfield também integra o elenco, mas a sua personagem supostamente misteriosa nada acrescenta à narrativa – se bem que há um momento engraçado num parque de estacionamento em que Lawrence lhe diz “sorry to bother you”. Ao longo do filme, Ramsay vai retratando o tema da maternidade de uma forma naturalista, mas decide terminá-lo com um toque surrealista que é mais confuso e incongruente do que justificado.
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Pedro Barriga

Há em Die My Love uma fúria doméstica que se manifesta antes de qualquer colapso evidente. O filme surge desde o início num estado de desconforto constante, num espaço rural fechado e repetitivo, onde o desejo não encontra direção e a relação conjugal sobrevive por hábito. Grace (Jennifer Lawrence)aparece desde cedo deslocada, em atrito permanente com a vida que leva. A maternidade intensifica uma rutura já existente e empurra esse mal-estar para um ponto sem retorno.
A implosão de Grace é filmada com clara atração pela intensidade. Tudo tende para o excesso. O corpo é tratado como campo de batalha, sempre em movimento, sempre em choque com o espaço. Jennifer Lawrence entrega-se por completo a esse registo físico, numa performance exigente, marcada pelo desgaste e pela exposição contínua. O problema surge quando a encenação insiste em sublinhar cada gesto e cada explosão emocional. O desespero está sempre visível, raramente aprofundado. Nos momentos em que som e gesto entram em desajuste, o filme ganha força, ainda que de forma irregular.
É também aí que o filme começa a perder eficácia. A aposta constante na intensidade acaba por nivelar o conflito. Tudo é extremo desde cedo, o que retira espaço para variação e evolução. A encenação parece antecipar o impacto que quer causar, limitando a experiência e reduzindo a ambiguidade. O risco existe, mas é controlado.
A depressão pós-parto surge integrada nesse ambiente saturado. Está ligada a uma estrutura familiar que exige funcionamento contínuo e adaptação emocional. A sexualidade permanece presente, mas deslocada, sem lugar claro dentro da dinâmica doméstica. O sexo evidencia o afastamento entre Grace e Jackson (Robert Pattinson), cuja interpretação contida e opaca acentua a falta de sintonia. Robert Pattinson constrói uma presença marcada pela insuficiência e pela dificuldade em acompanhar a transformação da companheira.
A loucura é tratada com solenidade excessiva, convertida em espetáculo. Falta contenção, aspereza, corte.
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Rita Costa



