Com L’Accident de Piano já nas salas em França, e seguindo o atraso que tem vindo a caracterizar a passagem dos filmes de Quentin Dupieux por Portugal, estreia enfim o “filme de abertura” do Festival de Cannes de… 2024. Le Deuxième Acte mostra-nos quatro personagens apeadas em nenhures. Um longo discurso sobre o trabalho e valor da figura do “actor” nos dias de hoje, metaficção e absurdo. O exercício fora já abordado por Miguel Allen. Carla Rodrigues, Gil Gonçalves e Hugo Dinis dão-nos, desta feita, a sua opinião.

Le Deuxième Acte é frustrante, porque tem potencial. Consigo imaginar uma versão melhor deste filme, com mais acutilância, com vontade a sério de dissecar os temas que se propõe a tratar. Mas Dupieux preferiu tentar mexer com o público marretando em tantos botões quanto possível ao mesmo tempo. Quando alguém faz isso num piano, resulta num mistifório de notas irritante ao ouvido. Aqui, de certa forma, resulta no mesmo (mas irritante para mais sentidos). Le Deuxième Acte atira temas actuais e famosamente divisivos para cima da mesa (coisas como a “cultura do cancelamento”, o movimento #MeToo, a invasão da inteligência artificial na indústria cinematográfica, entre outros), e despeja tudo num caldeirão de presumível sátira, sem nunca se comprometer a explorar nada além da superfície.
Há uma diferença entre usar temas controversos como ponto de partida para questionar narrativas culturais e mencioná-los “só porque sim”. Dupieux parece mais interessado nesta segunda opção. Ao tentar justificar isso com a abordagem “meta”, o resultado soa mais a pretexto conveniente do que à consequência de um conceito bem trabalhado. O surrealismo, que costuma dar vida ao seu trabalho, fica limitado pelo peso de uma crítica social feita à pressa.
O elenco, no entanto, é excelente, e é graças a eles que algum do humor acaba por resultar, sobretudo nos momentos que apontam o dedo aos bastidores da realização ou à intromissão da IA nos processos criativos. Mas nem mesmo interpretações tão boas conseguem salvar totalmente um guião que anda às voltas com as mesmas ideias. O filme é curto, mas mesmo assim arrasta-se, preso na repetição e num certo tom de autoimportância.
Dupieux já fez filmes melhores quando não tentava dizer nada. Em Le Deuxième Acte, acontece que quando começa a tentar ser “sobre algo”, falha. Fica a sensação de que quer provocar só por provocar, para ver quem reage, e não porque tenha algo de interessante a dizer. O surrealismo fica encurralado pela mensagem, e a mensagem é demasiado dispersa para acertar em alguma coisa. No fim, tudo se mistura numa desorganização onde os limites se confundem, os temas perdem força, e o filme esvanece-se de forma pouco memorável.
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Carla Rodrigues

Sem querer para aqui chamar João César Monteiro, é difícil não pensar na expressão “fragmentos de um filme-esmola” ao ver Le Deuxième Acte. Só de esmolas se trata: de um lado, as migalhas de cinema que Quentin Dupieux nos atira — implorando, como uma certa figura mediática em decadência, que aceitemos a dádiva sem olhar ao seu valor; do outro, a atenção que o filme e o realizador nos mendigam, como se dela fossem automaticamente dignos. Apenas um santo (ou um tolo) aceitaria tal barganha… donde se conclui que o Festival de Cannes — que escolheu este filme para abrir a sua 77ª edição — anda particularmente bem servido de ambos.
Só quem nunca saiu da piscina pode confundir este charco de meta-cinema com o oceano. Só quem vê muito pouco (ou muito quer ver) encontrará algo de relevante, provocador ou genuinamente divertido nesta colagem de ideias gastas e recicladas sob o disfarce de sátira. Os atores são egocêntricos? Já não se pode dizer nada? Quanto mais moralista, mais hipócrita? O star system é cruel para os que não correspondem ao padrão? Que loucura. Já alguém tinha pensado nisto?
Para mal dos nossos pecados, a indigência conceptual é acompanhada por uma displicência formal ainda mais gritante. O travelling circular que estrutura grande parte das cenas torna-se um artifício cansado, mal coreografado, mal enquadrado, que nos expulsa constantemente do espaço fílmico. Ao invés de acompanhar a representação, a câmara chama permanentemente a atenção para si própria. Mais do que uma decisão estética, é um terrível tique de bastidor — um lembrete de que Dupieux está ali, de língua colada à bochecha e sorrisinho triunfante. A este recurso autocentrado junta-se uma quebra de quarta parede que nos recorda aqueles teatros escolares onde cada segundo sentido precisa de ser reiterado e cada piada explicada. Seria apenas tolo, se não servisse para tornar o disparate em isenção: Dupieux espalha bojardas “arriscadas” pelas bocas dos atores para, logo a seguir, se demarcar com um encolher de ombros. “Vêem como isto é estúpido?”, parece perguntar, como se esse reconhecimento fosse suficiente para transformar trivialidades em crítica. A ironia, aqui, é apenas a moeda falsa para nos impingir a inanidade de todo o exercício.
Pior ainda, há uma arrogância latente que torna o gesto especialmente irritante. A sensação de que o filme se julga imune à crítica por já ter antecipado todas as acusações possíveis. Como se o facto de se autoproclamar tolo o libertasse de o ser. A verdade é que Le Deuxième Acte não é nem sátira nem ensaio — é apenas um amontoado de frases feitas com ares de manifesto. Um filme que se apresenta como radiografia da futilidade contemporânea, mas que se limita a reproduzi-la em circuito fechado.
É provável, claro, que Quentin Dupieux receba todas estas críticas como troféus. Da minha parte, não tenho qualquer problema em devolver-lhe a medalha de imbecilidade que atribui ao espectador. E faço questão de o distinguir ainda com as de presunção e vacuidade. Parabéns, tricampeão!
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Gil Gonçalves

Aviso: as seguintes linhas poderão conter referências explícitas ou implícitas ao conceito de “meta”. Le Deuxième Acte é uma espécie de filme-perspectiva daquele que Quentin Dupieux considera ser o estado do ser humano do século XXI: absorto em si mesmo, preocupado com futilidades, a prezar a imagem acima de tudo. A força do trabalho de personagem de Dupieux, contudo, é sempre sabotada pelo próprio em busca da mais próxima blague tópica que esteja ao alcance. Consistentemente explorado a partir da terceira pessoa, apenas alude a uma narrativa antes de dela se descolar. Consistentemente a quebrar a quarta parede, apenas alude a uma ideia antes que seja forçado a dialogar com ela. Ao suposto filme em execução, marcado por um casal desfasado (Léa Seydoux e Louis Garrel) que combina um encontro num restaurante, reconhecemos uma comédia de peripécias que, noutro planeta, poderia servir de premissa a um filme de Woody Allen com Wallace Shawn. Claro que esta roupagem é apenas usada por Dupieux para retirar peso ao exercício em questão. Uma espécie de conceito anti-cinema, ou uma simples simulação de filme, Le Deuxième Acte não faz apenas paródia dos actores ou da indústria, faz querer que há algo de fundamentalmente patético no impulso cinematográfico de contar histórias. Essa é, de resto, a linha que conduz o comportamento aparentemente errático das incidências.
Contudo, a força do seu desconstruir esbarra desde logo na imposição de um discurso estafado em torno das gags, que apenas celebra os momentos mais fáceis e imediatistas como verdadeira comédia. Veja-se a interminável cena inicial em que Garrel e Raphaël Quenard discutem o seu potencial cancelamento na face de delitos de discurso em torno de minorias. Somos convocados a celebrar o absurdo de uma situação já milhentas vezes escavada e explorada ao serviço de um politicamente incorrecto que já há muito se infiltrou no espaço público. O mesmo se pode dizer da cena em que Quenard e Vincent Lindon debatem os méritos de poder vir a adoptar um cão, ou a sequência em que os actores interagem com um realizador em modo artificial. Todas estas cenas acumulam-se mais como mini-sketches do que propriamente peças de discurso valioso ou sequer interessante da parte de Dupieux. A ironia recai nos momentos humorísticos que realmente impactam a narrativa, como é o caso da agressão de Lindon a Quenard ou do figurante que se revela incapaz de uma tarefa aparentemente simples. E todas estas linhas acabaram por ser escritas sem uma vez se mencionar a palavra “meta”. Dupieux ficaria orgulhoso.
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Hugo Dinis



