Críticas a Dead Man’s Wire, de Gus Van Sant

EquipaMarço 2, 2026

Com ante-estreia em Portugal no LEFFEST 2025, Dead Man’s Wire é o novo filme de Gus Van Sant, a partir do caso real, em 1977, de um homem desesperado que pretende vingar-se do sistema bancário que o arruinou, tomando um refém e criando um circo mediático para toda a América acompanhar em directo pela televisão. Bill Skarsgård interpreta esse homem, coadjuvado pelo homem de voz de veludo Colman Domingo, Dacre Montgomery e a lenda viva Al Pacino, num papel limitado mas sempre carismático. O filme falhou as nomeações aos grandes prémios, mas nem por isso deixa de ter a sua estreia no período do ano que mais gente leva ao cinema. Hugo Dinis, David Bernardino e Ana Matos assinam as críticas.

 

*

Nos dias que correm, é seguro afirmar que Dead Man’s Wire é um filme firmemente colocado na categoria de crowd pleaser. A ideia de um sequestro de um executivo de uma empresa de hipotecas, similarmente abordado no passado em filmes como John Q (Nick Cassavetes, 2002) ou Dog Day Afternoon (Lumet, 1975), ainda que não abertamente no campo de qualquer um deles, pode soar derivativa mas tem um fundo de populismo enraivecido. Baseado na história de Tony Kiritsis (Bill Skarsgård), um pequeno empresário que rapta o filho do dono do banco que lhe emprestou dinheiro para financiar um projecto que depois veio a falhar, Dead Man’s Wire recupera a visão de criminalidade amadora de Drugstore Cowboy para recriar uma história inconvencional. Na verdade, é essa faceta de distorção de realidade corriqueira, posta em evidência na sua melhor encarnação no trabalho de Gus Van Sant em To Die For, que Dead Man’s Wire conquista o seu espaço. É também por isso que a escolha de Bill Skarsgård se revela uma decisão desinspirada para um filme que depende necessariamente do magnetismo do seu protagonista. A sua representação é apropriadamente agressiva mas fundamentalmente desprovida de real sentido de força interior que resultasse da convicção da personagem.

A história inacreditável de um sequestro em hora de ponta colocava Van Sant perante o desafio de estabelecer as incidências num campo de realismo banal confrontado por acontecimentos que desafiam a credulidade. Dessa forma, a importância da narrativa mediática assume particular relevo na visão de Van Sant, na senda de trabalhos como Elephant ou o já mencionado To Die For. O papel insidioso dos media, resumido na personagem de Myha’la, uma jovem jornalista negra que se vê a braços com uma reportagem cujo seu estatuto dificilmente conquistaria, funciona como um filme em separado, ao invés de englobar o ethos da narrativa principal. O que resulta é um filme perfeitamente bem executado sobre uma bizarria criminal, mas não necessariamente mais que isso. Ao contrário dos trabalhos mais abertamente maniqueístas sobre classe, Dead Man’s Wire consegue colocar também uma genuína afectação junto dos executivos da banca, particularmente pela força da performance subtil de Dacre Montgomery enquanto Dick Hall, o raptado.

Tudo isto atenua o discurso de classe subjacente a Dead Man’s Wire, por muito que este seja já, algo injustamente diria, um filme atribuído ao rótulo de cinema anticapitalista. Injustamente precisamente porque Van Sant deliberadamente evita um tipo de examinação do sistema de forma mais profunda. Saímos dele sem especial noção do que exactamente passou Kiritsis às mãos dos banqueiros, é muito menos com a noção de qualquer tipo de história de fundo sobre a sua vida pessoal e profissional. Em todo o caso, isso não deve servir de arma de arremesso contra Dead Man’s Wire ou Van Sant. A sua intenção por detrás deste projecto parece reflectir aquilo que já motivou muito do seu trabalho passado de qualidade e a execução é globalmente satisfatória. Desde a saída de Skarsgård e Montgomery dos escritórios do banco, acompanhados em directo pelas câmaras da televisão local e as armas da polícia de intervenção possível, Dead Man’s Wire é facilmente propulsivo na forma com que evoca a periclitante acção sempre a um passo de descambar para o caos. Um serviço necessário e suficiente, não mais que isso.

Hugo Dinis

 

Sim, o novo filme de Gus Van Sant é mais um filme político americano anti-capitalista, anti-corporativista e anti-milionários que joga pelo seguro e dá ao seu público alvo algo para aplaudir, neste caso à boleia de Luigi Mangione. Nada de novo para descobrir nessa vertente temática, mas por baixo dessa segurança narrativa existe um thriller habilmente realizado e protagonizado, que vai buscar inspiração directa a Dog Day Afternoon e à linguagem do thriller americano dos anos 70 de uma forma geral. Bill Skarsgård interpreta o homem trabalhador americano comum, enganado por uma grande empresa de crédito, que decide fazer justiça pelas próprias mãos ao raptar o filho do CEO da empresa. Curiosamente o manda chuva é interpretado por Al Pacino (protagonista no filme de Lumet) em mais um momento de grande ecrã deliciosamente viscoso que só peca por curto. O que começa de forma insólita, amadora e artesanal, a pouco e pouco se vai tornando num aparato mediático a nível nacional. Balançando entre a comédia e o suspense, Dead Man’s Wire tem alguma dificuldade em encontrar o tom certo para transmitir a moral da história, mas, ainda assim, é o filme mais relevante de Gus Van Sant desde Paranoid Park, assente numa excelente cinematografia e desembaraço interpretativo.

David Bernardino

 

Até onde pode levar o desespero? Em Dead Man’s Wire, leva ao rapto do filho do fundador de uma empresa de hipotecas durante mais de 60 horas. Esta é a história real, decorrida em 1977. O filme tem apenas 1h45, mas faz-nos viver a experiência com a intensidade de quem lá esteve. Logo na cena inicial, a tensão instala-se. O esquema, rudimentar mas engenhoso, montado para manter a espingarda apontada à cabeça do refém e evacuar o prédio, criando à sua volta uma espécie de bolha protetora, faz o espectador suster o fôlego e arrasta-o diretamente para o coração da ação. É-nos dado o mote para tudo o que seguirá.

Bill Skarsgård é estrondoso no papel de raptor. É daquelas personagens que são uma prenda para um ator: Tony Kiritsis, o homem que na vida real levou este plano até às últimas consequências, é tudo menos linear. Trata-se de alguém emocionalmente instável, profundamente humano, e é fácil sentir empatia. É um homem enganado por um sistema financeiro e empurrado até ao limite, sem recursos. Skarsgård não cai em estereótipos ou caricaturas; tem uma atuação subtil, como apenas os grandes atores conseguem, e deixa uma linha ténue entre criminoso e mártir, dependendo da forma como o público escolhe olhar para ele. Está determinado, mas preocupa-se com o refém e procura o diálogo. À medida que a exaustão se acumula, instala-se no seu olhar uma inquietação que oscila entre lucidez e loucura. O filme recria com cuidado o ambiente de 1977. Voltamos a um tempo pré-digital, em que os media tradicionais dominavam, mas em que já era evidente a sede de espetáculo e de narrativas sensacionalistas. O evento foi transmitido ao vivo e rapidamente transformado em espetáculo mediático que permanece profundamente atual.

Em Dead Man’s Wire, continua evidente o interesse de Gus Van Sant por outsiders e pela forma singular como cada um lida com a frustração e o isolamento, também retratados em Paranoid Park ou Elephant. Aqui opta por uma abordagem mais narrativa, quase clássica, de thriller baseado em factos reais, mantendo contudo um olhar atento aos detalhes psicológicos de cada personagem. Destaque ainda para Dacre Montgomery, que se impõe ao lado de Bill Skarsgård com uma interpretação segura e marcante. Raptor e refém são dois jogadores de xadrez que, apesar de nunca terem pedido para jogar, estão presos numa partida decisiva debaixo de holofotes que ninguém quer apagar.

Ana Matos