Críticas a Coyote vs ACME, de Dave Green: Quem Tramou o Coyote?!

EquipaSetembro 2, 2026

Cansado do inevitável e doloroso falhanço das suas intermináveis tentativas para capturar Bip Bip, Wile E. Coyote decide processar judicialmente a ACME. O propósito absurdo, inspirado numa crónica humorística de Ian Frazier, publicada em 1990 na New Yorker, serve de base a Coyote vs. ACME, um projecto que, depois de concluído, fora “arquivado” pela Warner Bros. em 2023. Chega enfim às salas, munido de uma imaginação hoje invulgar e da melhor irreverência dos Looney Tunes. Dois críticos da Tribuna escrevem sobre esta aventura judicial.

 

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Envolto numa grande confusão em torno do seu lançamento por a Warner Bros não o julgar vendável, preferindo entrar nas contas da empresa como despesa para benefícios fiscais, a mística em torno de Coyote vs ACME cresceu, e de que forma. Uns anos depois consegue finalmente distribuição, para benefício de todos os fãs do humor sádico a que Wile E. Coyote é frequentemente submetido no encalce de Bip Bip. A premissa só por si é louca o suficiente. Coyote junta-se a uma pequena firma de advogados para tentar derrubar a ACME, a maléfica empresa responsável por todos os gadgets e invenções usadas pelo Coyote para apanhar o seu arqui-inimigo, e que inevitavelmente falham resultando nas mais insanas doses de sofrimento para o anti-herói.

Construindo um Mundo em que os Looney Tunes não são “famosos”, mas apenas desenhos animados que de uma forma natural coabitam com os humanos de forma híbrida, Coyote vs ACME faz o brilhante trabalho de não ser apenas uma homenagem ou fan service a alta rotação como foi Space Jam. O estilo híbrido do filme é executado de forma surpreendentemente eficaz, nunca parecendo estranho ou forçado. É, com toda a evidência, um digno sucessor de “Quem Tramou Roger Rabbit?” (Zemeckis, 1988). Enfim, aqui o protagonismo vai finalmente para Coyote, relegado a personagem secundária no universo dos Looney Tunes, com excepção dos seus próprios cartoons clássicos. Mas não só. O filme constrói uma sátira em volta da intocabilidade das grandes empresas norte-americanas (no filme, a ACME claro) e da forma como estas governam as vidas do cidadão comum, ou neste caso desenho animado. Foghorn Leghorn, ou a galinha dos Looney Tunes como talvez seja mais conhecido, encarna o arquétipo do CEO carismático e indestrutível, auxiliado por um John Cena mais uma vez em grande forma no papel de advogado da empresa, e Tweety, o passarinho amarelo que ajuda a empresa nas suas maquinações. Portanto sim, estamos em 2026, e é mais um filme norte americano a fazer sátira corporativa e política, aqui felizmente de forma extremamente eficaz e… porque não dizer hilariante?

Para os fãs de humor negro slapstick e do Coyote em específico (como o autor deste texto), é fresco testemunhar a audácia de ter um filme dos Looney Tunes nas salas portuguesas, dobrado e em língua original, e no cinema de uma forma geral, que não é protagonizado por Bugs Bunny ou Daffy Duck. Coyote, juntamente com Will Forte e Lana Condor (o modesto advogado e a humilde estagiária) são mesmo o objecto central do filme. Coyote vs ACME não se coíbe minimamente de reproduzir o humor destrutivo dos cartoons originais. Por vezes vai até mais longe, com algumas piadas mais ou menos transgressivas, numa estupenda e rara coesão que parece não ter momentos em que a loucura se cansa. Além dessa vertente deliciosa para os fãs hardcore, Coyote vs ACME é também um eficaz drama de sala de tribunal, além de um filme amoroso de coração cheio. Coyote e Bip Bip, inimigos ou amigos, racionalidade ou irracionalidade? Por tudo o que representa, mas também pela rara eficácia e sobriedade (e coragem para ser sóbrio) que um filme de animação raramente tem em 2026, Coyote Vs ACME é uma lição de géneros, e uma masterclass de como se deve tratar hoje as personagens de património que tendem tão facilmente a ser descartadas ou relegadas a paisagens de um mundo animado que parece já não conseguir voltar.

David Bernardino

 

Envolto num turbilhão mediático desde o seu polémico cancelamento pela Warner Bros. em 2023, a estreia de Coyote vs ACME constitui só por si uma vitória sobre os poderes corporativos da América atual – os mesmos que a obra do realizador David Green, com argumento da autoria de Samy Burch (nomeada a um Óscar por May December) tão bem satiriza. De facto, não tendo esse sido necessariamente o motivo pelo qual foi “encostado”, não deixa de ser irónico que um filme que tem no seu centro um bastante direto assalto ao ethos totalitário do capitalismo tardio, tenha tido a sua estreia impedida por um conglomerado mediático, entretanto vendido a outro conglomerado financiado em parte com dinheiro saudita, a pretexto de um benefício fiscal; como se tem tornado tristemente habitual em tempos recentes, a realidade teima em superar a ficção.

É sobretudo no último terço, quando o filme calibra o foco nesta temática e o advogado barato de Will Forte enceta, ladeado pelo amavelmente vil Coiote, uma viagem ao Congresso norte-americano, qual Mr. Smith Goes to Washington, que Coyote vs ACME mais brilha. Não por uma questão de mera simpatia política – até porque Green e Burch nunca se esquecem de colocar o foco no slapstick tão característico dos Looney Tunes sempre em lugar central – mas porque é quando o exercício apresenta o seu mais bem definido propósito: aproveitar o embalo da comédia para dar asas à sua crítica da grande indústria, anti-monopólio e anti-plutocracia, desconfiada da sociedade do consumo e da influência propagandística dos mass media e de paralelos óbvios com o que vemos na vida real, ainda que com algumas nuances surpreendentemente subtis num filme deste tipo (o facto de Foghorn Leghorn, um desenho animado, ser o CEO da empresa que vitima os seus, é apenas apresentado ao espectador, sem qualquer tipo de menção didática a esta dinâmica).

Também porque, sem essa tensão temática, o filme perderia boa parte do interesse. O argumento, há que dizê-lo, é sobrelotado de fios narrativos, a primeira hora em particular centrando em demasia os dramas interpessoais e defeitos das personagens humanas, que são francamente desinteressantes. À realização meramente funcional de Green alia-se ainda uma estética algo enfadonha, castanhos e beges as cores predominantes: em Quem Tramou Roger Rabbit?, exemplo-charneira de comparação, as personagens humanas pareciam existir num mundo eminentemente “animado”, ainda que em décores reais; aqui são os cartoons que parecem intrusos no mundo real, a opção por um certo realismo (até no estilo de desenho das personagens animadas, em técnica de cell shading) rouba ao filme algum brilho e dinamismo visual. Coyote vs ACME não se aproxima certamente da obra clássica de Zemeckis; contudo, à falta de semelhantes no panorama atual, acaba por ser um tónico razoavelmente refrescante, as trapaças e cenários envolvendo os famosos Toons ainda capazes de arrancar uma mão cheia de risos desbragados. Como lembra a moral do filme, é sempre melhor tentar e não conseguir lá chegar completamente do que a alternativa: não se fazer nada e ficar-se a pensar no que poderia ter sido.

André Filipe Antunes