Críticas a Christy, de David Michôd

EquipaNovembro 21, 2025

Estreou timidamente nas salas portuguesas Christy, novo filme de David Michôd, um biopic sobre a pugilista americana que, quase sozinha, colocou o pugilismo feminino no mapa nos anos 90. Com a sua estética autoral, mas que se confunde no indie americano, Christy revela-se uma surpresa positiva. O que tem marcado a “carreira” do filme parece, no entanto, ser o facto de se estar a revelar um dos maiores fracassos de audiências da história do cinema, ainda que protagonizado por Sidney Sweeney, uma das actrizes mais faladas do momento. Este e outros fenómenos que David Bernardino e Hugo Dinis procuraram compreender indo ver o filme em sala, vazia.

 

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Durante a maior parte da sua duração, Christy é um filme desequilibrado. Um argumento longo, recheado de fases, acontecimentos, saltos temporais, bem como o parco desenvolvimento das personagens secundárias e temáticas (sexualidade, família) que pontuam a narrativa ao longo de vinte anos da protagonista, contribuem para um filme estranhamente unidimensional, plano e seguro. Essa dimensão será a aventura de Christy Martin na pele da lutadora que colocou a o pugilismo feminino no mapa e a sua relação com o seu treinador e marido Jim, interpretado por Ben Foster. Trata-se de um drama de baixo orçamento tendo como pano de fundo a classe trabalhadora norte-americana, de 1989 a 2010, inicialmente no Tenessee, depois na Florida, filmando o conservadorismo da época, muito motivado por religião. Afinal de contas, Christy é homossexual não assumida, pressionada pelo marido, pela mãe e pelos media a ser uma esposa tradicional, e convencida desse seu papel, afastando-se da ideia de ser um símbolo de emancipação feminina. Retratando esta realidade de forma bastante objectiva, o filme afasta pretensiosismos de ensinamentos políticos ou morais ao público, e é precisamente por isso que a sua menagem é muito mais eficaz. E de repente chegamos aos surpreendentes últimos 30 minutos, transformando-se o filme num lancinante drama alimentado a terror que agarra o espectador de surpresa com suspense e violência, e conclui de forma intensa as temáticas que sempre estiveram presentes ao longo do filme: violência doméstica, liberdade sexual e pressão familiar. Sem que nada o fizesse prever, Christy revela-se assim um dos mais afiados e relevantes filmes feministas dos últimos anos, num mercado cinematográfico que faz dessa temática bandeira tantas vezes de forma vazia e contraproducente. Não deixa de ser estranho e triste que Christy se esteja a revelar um dos maiores fracassos de bilheteira da história do cinema, o que só demonstra que o cinema, ainda que seja arte, não está isento das consequências das polémicas que se passam fora da sala, e a carreira de Sydney Sweeney parece estar a sofrer directamente com isso.

David Bernardino

 

No meio de uma crise de branding pessoal, Sydney Sweeney procura fechar a quadratura de um circulo que começa com uma imagem pública cada vez mais colada ao movimento conservador no poder nos Estados Unidos, passa pela sua presença em filmes independentes com consciência social como este, e tenta terminar num eventual Óscar de melhor actriz. Christy é um filme intensamente simples sobre uma personalidade particularmente complexa. As origens conservadoras de Christy Martin criaram uma dissonância entre a mulher que quis ser e aquela que foi forçada a ser. A janela do boxe só se abre neste contexto. Assim o diz Sweeney quando conhece Chad L. Coleman (Don King). A sua Christy luta porque é o que sabe.

Num ano marcado pelo aparecimento de biopics de lutadores, e ao invés de The Smashing Machine, Christy parece estar pelo menos ciente de que a sua personagem tem, de facto, pano para mangas. Mas é também por aqui que entornam os equívocos. Christy é um filme que se recusa a entrar num compromisso que permita focar qualquer uma das facetas da vida com propriedade e isso reflecte-se até na sua duração. Por entre a complexidade da sua vida familiar, a brutalidade inerente à sua ascensão no mundo do boxe, a sua orientação sexual num meio hipermasculino, e a relação abusiva com o marido e treinador, Christy quer visitar todas as capelinhas, mas acaba por fazê-lo sobretudo pela rama.

Sweeney adopta aqui um registo duplo na forma como interpreta a figura de Christy Martin. Por um lado, desde o primeiro momento e em narração, estamos sempre confrontados pela caricatura ruralista da “filha do mineiro”. Alguém que se exprime com um sotaque sulista comicamente exagerado e um inconformismo confrontacional para com os que a rodeiam. Por outro, também não deixa de estar presente uma noção de vulnerabilidade que se aproxima mais do registo habitual de Sweeney. Esta é, de resto, uma dimensão que Christy se esquece na sua corrida desenfreada pela vida desta mulher. Sendo certo que a própria Christy se encontra subrepresentada em todas as suas dimensões, ainda mais se pode dizer das personagens que giram em torno dela. A figura reptiliana do seu marido é representada por Ben Foster com toda a propriedade peganhenta que ela encerra, mas pouco mais conseguimos reter da sua relação do que a unidimensionalidade do seu comportamento violento.

Christy consegue, pois, a infeliz honra de se posicionar da forma mais tradicionalista possível perante uma personagem transgressiva no meio de tantas outras que não se desenvolvem para lá das suas respectivas caricaturas. Somos guiados pela narrativa de leitura da página de Wikipédia desta mulher sem que nunca a consigamos entender. A certa altura, Katy O’Brian diz a Sweeney que não a recrimina por esperar sempre o pior das outras pessoas. As suas figuras tutelares foram do negligente ao predatório, diz-nos Christy. O tanto que fica de contexto acaba por sobrar em interioridade. No fundo, a mesma quadratura do circulo que Sweeney agora enfrenta na sua imagem pública.

Hugo Dinis