Três anos após o polémico The Whale, que polarizou opiniões de forma bastante radical, Aronofsky regressa com Caught Stealing, um filme de um género que ainda não tinha abordado: o thriller criminal em tons de comédia negra. Austin Butler encabeça um elenco com várias estrelas. Hugo Dinis, David Bernardino e Miguel Allen foram ver e, por uma vez, não discordam assim tanto.
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No percurso de Darren Aronofsky moram diversas marcas de percussão autoral. Desde cedo que o seu cinema enveredou pelo melodrama, ora ligado ao mundano (Requiem for a Dream, The Wrestler), ora ao fantástico (Mother!, The Fountain), mas nunca se poderá afirmar que alguma vez tenha sido um realizador de dedo leve. Esta abordagem resultou até muito mais em seu detrimento do que na elevação do material dos argumentos (particularmente em filmes escritos pelo próprio). Caught Stealing, um pouco na linha de The Whale, vem prosseguir uma linha de desprendimento autoral particularmente vincada para Aronofsky. Tal como o seu antecessor, parte de uma adaptação mas deixa para trás o melodrama claustrofóbico, em favor de um thriller de passada larga. Não será difícil de imaginar que, para Aronofsky, a perspectiva de recriação da sua Nova Iorque natal nos anos 90 tenha servido de atractivo para o projecto, mas Caught Stealing está muito longe de ser um filme preso a nostalgia infantilizante. Na verdade, não fosse o seu plano de abertura, a irrelevância da sua referenciação temporal saltaria logo à vista. Este é um filme em que, ao evitar glamourizar a estética dos anos 90, facilmente encontra o seu espaço a perseguir uma Nova Iorque pré-gentrificada e scorsesiana (com direito ao aparecimento de Griffin Dunne), entregue em iguais partes à imaginação dos artistas e à brutalidade dos criminosos.
Quando consegue imprimir este imaginário de After Hours ou Bringing Out The Dead, ainda que sem os traços impressionistas do cinema de Scorsese, Caught Stealing convoca na figura de Austin Butler uma corporização da aleatoriedade frenética da metrópole. Desde que é confiado com a guarda do gato do vizinho (Matt Smith), Butler alterna espancamentos com estados de embriaguez e encontros com personagens improváveis. Esta dinâmica acaba por segurar com interesse a primeira metade do filme, por entre perseguições e uma violência que sublinha a fisicalidade das incidências. É quando temos espaço para respirar, contudo, e a acção toma pulso das suas consequências, que surge a sensação de superficialidade na trama. A relação entre Butler e a namorada paramédica (Zöe Kravitz) encerra uma dinâmica que concretiza grande parte das intenções melodramáticas que Aronofsky explorara no passado. Contudo, à medida que as incidências se desenrolam, a realização emocional de Caught Stealing é muito mais expressada pela câmara afectada de Matthew Libatique, colaborador habitual de Aronofsky, do que pela narrativa. Se tanto, a concretização da violência do seu acto final apenas contribui para que se instale uma sensação de que falta a este filme uma execução ainda mais nos limites do irrealismo da sua possível mise en scène (ao invés da condução frenética ao estilo de Guy Ritchie que por vezes é aplicada). O que acaba por ficar é uma aventura suficientemente interessante e insuficientemente insana.
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Hugo Dinis

O novo filme de Aronofsky parece deslocado da sua filmografia, como se o realizador tivesse decidido fazer, pela primeira vez (vamos daqui excluir talvez The Wrestler) um filme “normal”, sem os surrealismos e provocações a que nos habituou. Bem, esses elementos também estarão mais ou menos presentes em Caught Stealing, mas aqui de uma curiosa forma retro nova iorquina. Este filme sobre um jovem homem que perdeu os seus sonhos e está agora a trabalhar num bar onde bebe de forma semi-compulsiva – e que se vê envolvido numa tramóia mafiosa cuja espiral aumenta e aumenta – parece ter olhado à sua volta para recolher fragmentos da sua identidade: falamos de uns irmãos Safdie (Uncut Gems ou Good Time), de um Anora, de Sean Baker, e de uma clara inspiração nos Guy Ritchies, Tarantinos e irmãos Coen desta vida. É como se Aronofsky se auto-intitulasse o adulto na sala e mostrasse como se realiza um filme “destes”, divertindo-se (e muito!) pelo caminho. Planos inspirados, um mood em constante escalada e confusão, um protagonista ridículo, tudo são factores estranhamente positivos que encaixam nesta comédia negra como uma luva. Austin Butler, o protagonista que estava no lugar errado à hora errada, só se importa com baseball e em ligar à mãe todos os dias. Zoë Kravitz, a âncora que vai da diversão à responsabilidade, estabelece o tom da seriedade negra desta comédia. Matt Smith, um punk britânico estereotipado. E o que dizer de Liev Schreiber e Vincent D’Onofrio, os hebreus possuídos pelo espírito de Travolta e Samuel L. Jackson em Pulp Fiction? Caught Stealing é sobretudo isso: um apanhado de referências cinematográficas, uma massa confusa de influências marteladas por um autor chamado Aronofsky que, de uma forma ou de outra, funciona. Será ainda assim o filme menos identificável do realizador. Se será de culto ou não, o tempo o dirá.
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David Bernardino

No ano de 1998, que “recebe” este seu novo filme, Darren Aronofsky lançava a sua longa-metragem de estreia, π / Pi. Dois anos mais tarde, chegavam-nos dois filmes com visões muito distintas da cidade de Nova Iorque no período específico que aqui se evoca. Em Bringing Out the Dead, Martin Scorsese regressava (numa nova colaboração com Paul Schrader) à Nova Iorque de Taxi Driver (1976) ou After Hours (1985). Mas, ao absurdo do seu filme de 85, Scorsese respondia então com uma leitura ultra-violenta, cansada sob o ritmo frenético das imagens, algo cínica, da cidade. Poucos meses mais tarde, aos espectadores mais desanimados com a sujeira que se assumia no retrato contemporâneo da “Big Apple”, era oferecida a oportunidade de regressar a essa Nova Iorque ingenuamente sonhada a partir de fotografias a preto e branco de outras décadas, entretanto apaziguadas da sua factual tensão social pelo efeito da passagem do tempo. Um pouco como Sex & the City, mas muito mais rasca, Coyote Ugly era o conto de fadas maroto de uma metrópole onde amor, diversão e arte pareciam caminhar de mãos dadas por paisagens urbanas, sempre pontuadas pelas inevitáveis nuvens de fumo branco que escapavam do subterrâneo; um filme onde uma balada apaixonada, cantada ao piano num rooftop do Lower East Side de Manhattan, podia encontrar o ouvido atento de um jovem príncipe adormecido num loft vizinho. Nem de propósito, Snatch, de Guy Ritchie, passava numa sala ali ao lado (como Coyote Ugly, terá estreado entre Setembro e Novembro de 2000), e se a estes três filmes não fora ainda dada a oportunidade de coexistirem num mesmo plano, eis que, vinte e cinco anos mais tarde, Aronofsky decidiu, com Caught Stealing, regressar aos lugares da sua meninice.
A principal referência cinematográfica que paira sobre o filme de Aronofsky é, por demais, evidente. Scorsese parece servir aqui de justificação para quase tudo: da cidade à história que se conta, da montagem ao recurso a uma vasta biblioteca musical. E, no entanto, a sua presença não nos é flagrante logo de começo. Nos primeiros instantes do que, para todos os efeitos, é o feel good movie possível de Aronofsky, o realizador relembra-nos que, se é com estranheza que abordamos este seu filme menos abertamente conceptual, será pelo melodrama – para bem ou mal, terreno mais confortável ao realizador – que esta história funcionará. Aquele sonho americano desfeito, o Hank de Austin Butler enquanto beautiful loser em espiral autodestrutiva pelas ruas da grande cidade, e o porto seguro no rosto da Yvonne de Zoë Kravitz.
Rapidamente, porém, e roubando-nos o enlevo desse possível filme de amor e réussite, surge em cena um (muito estereotipado) punk de sotaque britânico (afinal de contas, 1998 parece-se um pouco com 1978), para nos deixar a guarda do gato enquanto, apressado, foge para junto do pai moribundo. Uma animada disputa entre vizinhos de um mesmo patamar (lembram-se de Seinfeld? Nova Iorque é “mesmo assim”), são outras ideias que começam enfim a definir o filme. Voltemos então ao ponto dê partida. Neste “Coyote Ugly” (um bar, lembremos) para perdedores (ou punks, aqui é um pouco a mesma coisa), infestado de baratas e retratado por grandes planos de fezes (há mais do que um), entram dois russos, dois judeus, um porto-riquenho (Benito Ocasio completamente supérfluo), e uma investigadora da polícia bem nova-iorquina (que cresceu em Alphabet City, mas que da cidade só gosta mesmo daqueles biscoitos black & white de um diner nesse Lower East Side, de onde ninguém parece conseguir sair) e, afinal, do “Scorsese sujo” que se almejava, o filme escorrega para um Guy Ritchie bem caricatural.
O principal problema aqui será a evidente falta de convicção de Aronofsky no registo do filme. Se pelos “interiores” – um último vislumbre de Yvonne, o mitzvah na casa de Bubbe (Carol Kane tão desaproveitada), ou devaneios bem bebidos no bar de Paul – o filme nos consegue interessar, comover e divertir, será nas suas longas e “animadas” sequências de fuga pela cidade que tudo nos parecerá mais superficial. Perante a surpresa do dito punk, Russ (Matt Smith), ao “aterrar” em Flushing Meadows, é o próprio espectador que terá dificuldade em compreender exactamente que filme é este. E se Caught Stealing será a obra mais “prazerosa” de Aronofsky (título infeliz, visto que literalmente nos vomitam em cima…), isso será, também, por tudo aquilo de que o realizador abdica de seu neste novo registo. De “ligeiro”, e um tanto bem-humorado (sob o luto que carrega aquele small town boy, existe aqui uma comédia), resulta um filme que não consegue, francamente, explorar os seus diversos valores. Divertido, é certo, mas algo esquecível – e nisso relembrando o recente The Monkey (referência por demais a evitar) -, uma entrada talvez demasiadamente discordante para com a restante filmografia do realizador. É uma pena, porque da competência de Austin Butler (para todos os efeitos um Ryan Gosling com algum talento), ao rigor da execução de Aronofsky (aqui menos maniqueísta), e à qualidade do trabalho de Matthew Libatique (num contextualizante, imagina-se, 16:9), esperava-se que surgisse algo mais. E pelo final, compreendemos enfim a desilusão de Hank perante a quase miraculosa vitória dos seus preciosos Giants. Dinheiro no bolso e o mar que lhe banha os pés – o cinema afinal interessa pouco… Mas talvez estejamos só a ser mal encarados.
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Miguel Allen



