Críticas a Bugonia (2025), de Yorgos Lanthimos

EquipaNovembro 4, 2025

Pouco mais de um ano após Kinds of Kindness, recebido com alguma indiferença (algo curioso, dada a aclamação do polarizador Poor Things), Yorgos Lanthimos regressa com Bugonia. De novo com Emma Stone (também como produtora) e com argumento de Will Tracy (autor do intragável The Menu), trata-se de um remake do filme coreano Save the Green Planet! (2003), de Jang Joon-hwan. Dois apicultores raptam a directora executiva de uma grande empresa, convencidos de que se trata de uma extraterrestre que pretende destruir o planeta Terra…

 

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Algures no prólogo paralelo de Bugonia, o novo de Yorgos Lanthimos, há uma referência ao conhecido episódio de Seinfeld sobre permanecer “master of your own domain“. Seja na comédia ou na sua construção dramática, a intertextualidade é, de resto, uma preocupação central em Bugonia. Escrito por Will Tracy (The Menu) e adaptado do filme coreano Save The Green Planet!, este é um trabalho profundamente investido na literalização de uma metáfora que já estava presente no registo original. Bugonia é, no seu âmago, um filme sobre comunicação. Ao raptarem uma CEO de nomeada (Emma Stone), dois apicultores amadores (Jesse Plemons e Aidan Delbis) enfrentam um problema de diálogo. Ou, como diria Plemons, “talk, talk, talk, talk“. O duo está convicto de que Stone é uma agente alienígena em processo de destruição do Planeta Terra, enquanto que esta se mantém à margem das ameaças de Plemons e Delbis. Nesse sentido, a mera adopção de Save The Green Planet! como material de origem serve para cristalizar Lanthimos neste seu estilo menos obtuso e mais leviano que tem vindo a adoptar desde The Favourite. A conversa é dupla, mas sempre fácil de entender. Plemons e Delbis colocam a face da classe trabalhadora arvorada em conspirações online para explicar o fenómeno da deterioração das suas condições de vida materiais. Delbis explica isto de forma particularmente simples e refrescantemente infantil quando refere que apenas quer regressar a uma época na qual eram todos mais novos, a vida era mais simples e todos estavam juntos. A atomização do trabalhador é também o isolamento do capitalista. Emma Stone fala apenas por construções frásicas do jargão empresarialês desprovido de sentimento, uma língua a milhas da simplificação verbal de Plemons e especialmente Delbis. Mas a sua robotização linguística é também espelhada por uma rotina de insularidade obsessiva.

Lanthimos está sempre mais interessado na comunicação entre os dois pólos. Homens vêm de Marte e Mulheres de Vénus. CEOs vêm doutros planetas enquanto trabalhadores são forçados a habitar a Terra que os primeiros ajudam a pilhar. O diálogo entre ambos é de tal forma impossível que não chega sequer ao ponto da discórdia. Stone habita um mundo inteiramente diferente do de Plemons e Delbis e esta literalidade está espalmada de alto a baixo em Bugonia. Como se um animal estivesse a tentar comunicar com um humano. Essa humanidade é mantida pelo olhar onírico das sequências a preto e branco sobre o passado de Plemons e da sua família. Com mecanismos visuais a evocar “O Espelho” de Tarkovsky ou 8 1/2 de Fellini, Lanthimos evita deliberadamente as suas tendências kubrickianas para colocar o sofrimento de Plemons no campo do etéreo. A sua dor é real, as suas crenças no poder alienígena parecem partir do campo do fantástico. Em todo o caso, Stone definitivamente não pertence ao seu planeta. A sua rapacidade nas repetidas tentativas de fuga que procura levar a cabo na cave de Plemons e Delbis mostram o mesmo desdém pelo humanismo que Lanthimos em última análise também partilha no desenlace de Bugonia. Tudo desemboca num niilismo derrotista face ao futuro do ser humano. Em tempos, Fulci filmava Zombi 2 com uma imagem derradeira de uma horda de mortos-vivos a cruzarem a Brooklyn Bridge rumo a Nova Iorque. Lanthimos vai mais longe. Chegamos ao fim pelas nossas próprias mãos.

Hugo Dinis

 

Um filme em que cada personagem é tanto herói como vilão. Perante as voltas e reviravoltas do argumento assinado por Will Tracy, a empatia do espectador muda constantemente, de tal forma que ora se torce por uma personagem, ora se torce por outra. É provável até que a certa altura nos questionemos se não estaremos a apoiar a personagem errada. Um sentimento de culpa que Yorgos Lanthimos é perito a induzir. O seu novo Bugonia é também, discretamente, um filme do nosso tempo. É muita gargalhada, até ao momento em que nos apercebemos que a piada é sobre nós. No que diz respeito ao carácter mais ou menos lanthimoniano do filme, Bugonia proporciona-nos a quantidade certa de loucura. E, graças a Deus, as lentes fisheye não marcam presença desta vez. A direção de atores é, como de costume, fantástica: Aidan Delbis impressiona neste que é o seu primeiro filme, Jesse Plemons continua a provar que é capaz de encimar grandes produções, e Emma Stone… O que mais dizer? A melhor atriz da sua geração.

Pedro Barriga

 

A marcha lenta de Bugonia leva-nos a crer, por um momento, que este poderá ser um filme mais interessante do que aquilo que se revela. O novo de Yorgos Lanthimos, remake de um original coreano e aparente ponto num parágrafo prolífico que viu o realizador lançar três filmes em três anos (opinião minoritária: o excelente “Histórias de Bondade” é o ápex deste seu período), todos em colaboração estreita com a sua protagonista, Emma Stone, relembra outros títulos semi-recentes da indústria – da estrutura de thriller paranoico com veia “é ou não é” ficção científica de 10 Cloverfield Lane à energia de apocalipse do algoritmo presente em Eddington (Ari Aster é aqui produtor, inclusive). Faça-se já a ressalva: o que separa Bugonia do falhanço de Aster é uma maior e mais clara definição de ideias, o alvo mais concreto, o plano de ataque mais bem definido. Só por isso ganha pontos, e por conseguir o equilibrismo de ser um thriller bem conseguido, sem perder nenhuma da tensão e formalismo a que o trabalho de Lanthimos nos foi habituando. Com menos filmagens em olho-de-peixe, talvez, mas para compensar com uso frequente e bem colocado de grandes angulares para distorcer e desorientar o mundo lá fora, e com uma banda sonora orquestral e operática que começa por registar como irónica, até a certa altura deixar de o ser.

Ajuda também o facto de trabalhar com dois dos maiores atores da sua geração, Jesse Plemmons e Stone conseguindo moldar as respetivas personagens minar simpatia, complexidade e intriga, consoante o que o momento pede. O problema é que tudo não passa, lá está, de uma marcha lenta e inevitável. Correndo o risco de revelar em demasia, só há uma conclusão possível para Bugonia, um final anunciado logo à partida e que é tão mais óbvio porque, de outro modo, como raios havia isto de acabar? Essa conclusão, previsível justamente por querer surpreender, preguiçosa justamente por querer fazer demais, leva um filme que até ali se aguentava num eficaz registo de retrato social trágico-satírico, decididamente mais próximo da sociologia misantrópica de “Canino“, “A Favorita” ou “Histórias de Bondade“, diretamente para o francamente mais desinteressante Lanthimos de “Pobres Criaturas“, um simples provocador-esteta juvenil. Perde-se o logos da coisa, o seu sentido, e fica o sabor residual a uma piada inconsequente à medida que Marlene Dietrich canta o genérico final, uma saída fácil para evitar verdades difíceis ou ambiguidades morais. É uma pena que assim seja.

André Filipe Antunes

 

Vamos ignorar por um momento que Bugonia é uma adaptação de um filme sul-coreano (Save the Green Planet!). Vamos também ignorar que Lanthimos é um realizador grego que quer brincar aos americanos — ou, mais precisamente, ao ativismo e à crítica social, como tantos outros têm procurado fazer no último par de anos. Na sua dimensão metafórica, Bugonia é bastante direto. Jesse Plemons e o primo Aidan Delbis interpretam o trabalhador comum — desiludidos, intoxicados por teorias da conspiração vistas na internet, radicalizados — que demonizam a CEO de uma multinacional que, claro, acaba na opinião deles por ser certamente uma extraterrestre de Andrómeda que, juntamente com outras figuras poderosas, procura dominar a Terra. É o regresso à velha teoria reptiliana, segundo a qual muitos dos humanos mais influentes do planeta não são, afinal, humanos. Emma Stone interpreta a CEO multimilionária, o arquétipo do arqui-inimigo pós-Trump 2024 — o tipo Elon Musk, digamos — que se tornou o bode expiatório perfeito para tantos vilões metafóricos do cinema recente. A verdade é que nem Lanthimos é um ativista, nem esta indústria de cinema ferozmente comercial o é. Tal como One Battle After Another de PTA, Bugonia está mais interessado em flertar com a acutilância dos temas políticos atuais do que propriamente em dizer algo de pessoal ou, arriscamos, autoral. Nesse sentido, o novo filme de Lanthimos é uma parvoíce — tal como já o eram Kinds of Kindness e o absolutamente pavoroso, balofo e arrogante Poor Things.

O que sobra é o thriller por baixo da metáfora — e é aí que Bugonia brilha, tornando-se num dos filmes mais bem conseguidos do realizador, por ser simultaneamente o mais simples. Os códigos do suspense são aplicados com eficácia no rapto desta “brilhante empresária” levado a cabo pelos dois “alucinados” das teorias da conspiração. A emboscada, a cave suja e húmida, as correntes, o jogo psicológico entre captor e prisioneira — é irónico ver como estes chavões de género funcionam tão bem quando executados com competência, bastando a paranóia da personagem de Plemons para sustentar a tensão que o filme cumpre tão bem. A estética suja, por vezes grotesca (à la Cronenberg), e um excelente trabalho de som, reforçam Bugonia nessa vertente. O desfecho é previsível — já esperávamos a esperteza saloia de Lanthimos — mas o realizador não tinha grande escolha para fechar o seu filme (preso por ter cão e preso por não ter). A verdadeira borrada está mesmo na última sequência: corpos humanos filmados “artisticamente” numa Terra silenciosa. É preciso muito boa vontade para continuar a aturar tantos filmes com as mesmas pretensões.

David Bernardino