Críticas a Blue Moon, de Richard Linklater

EquipaMarço 3, 2026

Richard Linklater tem mantido um ritmo de trabalho assinalável e, após Nouvelle Vague, estreado há poucos meses, chega agora Blue Moon. Protagonizado por Ethan Hawke, o filme tem recolhido reconhecimento crítico, incluindo uma nomeação ao Óscar de Melhor Actor Principal. Destaque ainda para o argumento de Robert Kaplow, centrado numa única localização, igualmente nomeado pela Academia. Bruno Victorino, Hugo Dinis e Paulo Ventura assinam as críticas na Tribuna.

O letrista Lorenz Hart (1895-1943) formou uma dupla histórica com Richard Rodgers, responsável por clássicos do musical americano como “Blue Moon”. A 31 de março de 1943, noite da estreia de “Oklahoma!”,  primeiro grande êxito de Rodgers em parceria com Oscar Hammerstein II, o seu novo colaborador, Hart, com a saúde debilitada e em declínio, refugia-se no Sardi’s, entre memórias, canções e um amor não correspondido.

 

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É impossível escapar ao grau de veneração que este Blue Moon sente pelas figuras que retrata. Tal como em Nouvelle Vague, o outro filme de Richard Linklater este ano, o seu objectivo é recriar inspirações artísticas pelo prisma do fã. Desta feita, é Lorenz Hart, metade da dupla compositora de Rodgers e Hart, ao invés de um conjunto de figuras do cinema francês saídos do Cahiers, que serve de objecto de adoração. Na verdade, nenhum destes dois filmes é escrito por Linklater e isso é aqui tornado evidente por um guião palavroso, nostálgico e didático ao ponto da caricaturização dos seus heróis. A narrativa segue a noite de estreia do musical Oklahoma! (ponto de exclamação!) aos olhos de Hart, a parte abandonada da dupla compositora. A ocasião é celebratória para todos menos ele. Assim nos avisa o preâmbulo ao estilo de epitáfio que Linklater coloca na tela: Hart era simultaneamente uma personagem abatida por uma imensa amargura e bafejada por um ágil intelecto. Os dois estão em evidência na hora e meia que se segue, mas é esta sua qualidade de entertainer que mais parece fascinar o argumentista Robert Kaplow.

O escritor é, de resto, um romancista por excelência, aqui a apresentar a sua primeira peça fílmica, cujas qualidades enveredam para o campo do lirismo anti-naturalista. Hart é, sem dúvida, o objecto maior das suas afeições. Representado também por um evidentemente fascinado Ethan Hawke, vai discorrendo sobre as suas obras, os seus amores e desamores, e a sua parceria com Rodgers (Andrew Scott). O contexto é uma festa mas mais parece o confessional de um bar, incluindo bartender (Bobby Cannavale) e pianista (Jonah Lees). Hawke toma especial gosto em fazer de Hart alguém espirituoso e mordaz, simultaneamente rendido aos prazeres da vida e resignado à sua própria solidão. Essa solidão é evidenciada sobretudo pela perda de protagonismo junto de Rodgers e o desencontro amoroso com uma jovem estudante (Margaret Qualley).

A tracção nostálgica adoradora de Kaplow aproxima um guião aturado, marcado por monólogos onanísticos de Hart, do voluntarismo de um Aaron Sorkin, alguém que também faz questão de deificar em vez de humanizar os seus heróis. Kaplow até nos brinda com ovinhos da páscoa que vão desfilando na noite de Hart: o compositor serve de inspiração para a criação de Stuart Little e do cinema de parelhas de amizade de George Roy Hill com meia dúzia de comentários casuais, mas também é utilizado como alvo da audácia atrevida de um pequeno Stephen Sondheim. Quer Nouvelle Vague quer Blue Moon representam a mesma face da reverência caricatural de Linklater face aos seus heróis. Lorenz Hart é visto no prólogo por breves instantes a cair desamparado e sozinho para a sua eventual morte. Pelo que depois se segue, é uma imagem forte. Linklater mata o seu super herói antes de o celebrar. Blue Moon é essa celebração, mas também não deixa de ser, em certa medida, um filme de super heróis.

Hugo Dinis

 

O último ano trouxe-nos um Linklater particularmente nostálgico: Nouvelle Vague (2025), sobre Jean-Luc Godard e o making-off encenado de O Acossado, e Blue Moon, sobre o compositor e letrista americano de musicais, Lorenz Hart (Ethan Hawke). Enquanto o primeiro demonstra um artista de vanguarda que, criticado ou aclamado, estreia uma obra mundialmente reconhecida, Blue Moon trata de outro artista – mas também um ser-humano – esquecido. Esse é, aliás, o motivo principal do filme: mostrar como a História pode apagar homens extraordinários, talentosos e carismáticos, porque outros lhe passaram à frente naquele momento histórico. Por outras palavras, noutra realidade paralela, Lorenz Hart é um génio reconhecido – na nossa, não.

A âncora do Linklater para expressar essas ideias assenta no casting. Ethan Hawke terá de ser irritantemente encantador e encantadoramente irritante. Exceptuando a sua caracterização forçada e pouco convincente, Hawke é bem sucedido, transmitindo a sua simpatia e charme habituais, numa performance que pretende, com sucesso, associar a falta de reconhecimento artístico com um profundo (e nunca concedido) desejo de ser desejado. Com outro ator, este projeto teria facilmente caído por terra, mas Linklater-Hawke é sinónimo de interesse, uma colaboração realizador-ator tão relevante como quaisquer outras (mais citadas). O restante elenco cumpre, com Margaret Qualley a transmitir uma juventude encantadora, mas madura, e Andrew Scott, numa expressão séria e rigorosa, opondo-se à energia imprevisível de Hawke e, dessa maneira, realçando a tensão dramática (e amorosa?) das personagens.

Para além do elenco, a segunda abordagem do filme é a sua compressão narrativa: a ação decorre em tempo real, num único décor – um bar –, correspondendo a uma hora e trinta minutos da vida deste personagem, um alcoólico que pede “só mais um copo”. Linklater, que já nos trouxe experiências opostas, vira-se novamente para o fascínio da ficção audiovisual contemporânea com o tempo real, preenchendo a tela de diálogos compostos e visíveis, que funcionariam numa peça de teatro. Pelo menos, evita o “plano único”, uma das propostas mais derivativas do cinema atual, substituindo esse vazio criativo por planos fixos, estáticos, saídas e entradas de quadro e o “antiquado” corte. Nesse sentido, e até por estarmos nos anos 40, há uma tentativa de irradiar o charme do período de ouro hollywoodesco – com citações, quer nas falas e no décor a Casablanca (1942) –, mas tal rima peca por comparação e excesso de homenagem. Existe uma vontade evidente em fazer-nos regressar a um tempo mais romântico. Contudo, depois deste exercício genericamente bem conseguido, que nunca será um serão mal passado, ficamos com saudades de alguma imaginação.

Pedro Bastos Oliveira

 

Blue Moon é um biopic dedicado ao aclamado compositor norte-americano Lorenz Hart. Perante a insuportável proliferação de biografias que pululam pela Hollywood contemporânea, é natural que o espectador torça o nariz a mais uma, ainda que assinada por Richard Linklater. 

Após um breve prelúdio, o filme inicia no bar do restaurante Sardi’s, onde encontramos Ethan Hawke, que interpreta o protagonista. Lorenz divaga sobre uma panóplia de temáticas, sob o ouvido atento do barman e do pianista, que, muito pontualmente, interrompem o seu monólogo. Passados poucos minutos, poderá abater-se sobre o espectador uma leve irritação e fastio perante tamanha verborragia. Mas, paulatinamente, começamos a perceber por onde Linklater nos encaminha. O filme passar-se-á integralmente no mesmo local e na mesma noite. 

Considerando esse auto-imposto desafio, e ainda que o realizador e o argumentista reconheçam que aquela noite é parcialmente inventada, será neste confinado espaço-tempo que nos será apresentado um pequeno vislumbre de quem foi Lorenz Hart. E Linklater alcança plenamente esse desígnio. Ao contrário da esmagadora maioria dos filmes biográficos, que se limitam a encenar, com maior ou menor detalhe, os eventos marcantes que aparecem na página da Wikipédia de determinada personalidade, Linklater procura captar a essência do artista apenas pela forma como se comporta no tempo de duração do filme, que corresponde quase totalmente ao tempo diegético. 

A busca pela “alma” de Lorenz faz-se precisamente nas entrelinhas do seu incessante e compulsivo discurso. A catadupa de palavras funciona como escudo, mecanismo de defesa que camufla inseguranças e deixa emergir, progressivamente, um retrato de solidão e tristeza profundas. Embora Blue Moon atribua um peso considerável à palavra, seria redutor menosprezar a precisão da encenação de Linklater, que se socorre frequentemente de planos-sequência colados à vigorosa performance de Hawke. Uma das cenas finais é particularmente devastadora: o encontro entre Lorenz e Elizabeth (Margaret Qualley) no bengaleiro do restaurante. Pela primeira vez não é Hawke que comanda a cena, deixando o palco livre e remetendo-se ao papel de espectador que atentamente segue cada palavra que Qualley profere. Resta-nos a empatia perante alguém que, na iminência do declínio do corpo e da alma, procura condignamente morrer de pé.

Bruno Victorino

 

Há, no pensamento cinematográfico de alguns teóricos e cineastas – como Béla Balázs e Robert Bresson – uma ideia disseminada de que a sétima arte deveria preocupar-se em insistir numa certa economia de palavras – num silêncio expressivo – de modo que a sugestão substituísse a explicação e a imagem pudesse, assim, tomar para si o verdadeiro poder. Por outras palavras: a valorização do rosto, do gesto e daquilo que não é dito verbalmente. Se Balázs e Bresson defendiam a contenção verbal, Richard Linklater fez da palavra o centro da sua filmografia e Blue Moon surge como um novo culminar dessa escolha – o assumir de uma abordagem que se coloca na antítese dessa tradição estética.

Se, por um lado, uma obra que funciona quase exclusivamente pelo seu diálogo não precisaria do cinema para ser representada artisticamente, por outro, nem o teatro nem a literatura poderiam substituir o brilho da subtileza performativa destes atores, apenas possível graças ao grande ecrã e à sua capacidade de ampliar os detalhes e as nuances. Assim, a experiência de Blue Moon expõe uma clara ambivalência entre o reconhecimento da maturidade da proposta e a insatisfação com o resultado, à medida que a linguagem cinematográfica se vai reduzindo à palavra e o cinema, enquanto arte da imagem e do ritmo, parece subordinar-se ao texto. Como em grande parte do seu trabalho, Linklater limita a realização a uma simplicidade quase previsível, deliberada e discreta, mas não por desleixo ou incompetência. A câmara, em Blue Moon, não se mostra interessada em destacar as proezas de um realizador em busca de holofotes ou mérito próprio e, em vez disso, apresenta-se sedenta por criar um terreno fértil e seguro onde os seus atores – sobretudo Ethan Hawke (Lorenz Hart) – podem brilhar. Apesar dos vários anos de preparação para o papel do lendário compositor americano, Hawke, com o seu desempenho quase magnético, parece encaixar-se de forma automática na personagem, com a sua energia irrequieta, mas harmoniosa, dominando cada momento em que ocupa o ecrã, num filme que depende essencialmente da sua presença para justificar a própria existência. Não se trata de uma biografia de Lorenz Hart, pois o guião de Blue Moon revela-se muito mais preocupado com a escrita das suas falas do que com a construção da sua trama, não demonstrando grande interesse em explorar, desenvolver ou desenrolar a sua narrativa nem em conduzir as suas personagens em direção a lugar algum. O objetivo aqui não é narrar e evoluir, mas cativar e homenagear, não só o homem em questão, a sua carreira ou a sua obra, mas a sua busca obsessiva e incansável pela beleza (para não dizer perfeição) artística.

Blue Moon vai-se tornando assim, de fala em fala, não apenas numa ode a Lorenz Hart e ao seu trabalho, mas também à beleza da própria palavra: escrita, dita, cantada, gravada e até ouvida. Há nele um certo conforto, difícil de descrever, mas que se torna palpável à medida que se reconhece o estilo familiar do realizador. Aqueles que nunca se deixaram seduzir pela sua abordagem provavelmente continuarão desgostosos até ao rolar dos créditos, visto que, para o bem ou para o mal, estamos perante Linklater em estado puro.

Paulo Ventura