Críticas a Backrooms, de Kane Parsons – Caverna dos Sonhos Esquecidos

EquipaMaio 28, 2026

Backrooms é o primeiro filme do realizador de shorts no YouTube Kane Parsons. Após Obsession, de Curry Barker, os criadores online parecem estar a tornar-se uma parte inevitável da descoberta de talento em Hollywood. Contando com performances dos nomeados a óscares Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve, Backrooms é uma proposta que segue na linha visual do trabalho online de Parsons. Um homem descobre um portal na cave da sua loja de mobiliário que leva a um local onde tudo parece estar apenas ligeiramente fora do lugar. A sua psiquiatra acompanha o relato fantástico da sua descoberta e acaba por acompanhá-lo na descoberta deste estranho lugar. Ali, descobrirão parte do seu passado, dos seus sonhos e das suas memórias. A Tribuna acompanhou a estreia de Backrooms e avança com as respectivas críticas.

 

*

 

Fazer um filme de terror, mistério e suspense acarreta a fragilidade inevitável de uma fórmula: uma vez desvendado o enigma, a recta final tende a desenrolar-se com uma agilidade que desfaz a atmosfera construída até então. Backrooms consegue a rara proeza de ser uma obra solidamente palpável, mantendo, ainda que por vezes de forma mais ténue, um equilíbrio firme do princípio ao fim. Kane Parsons, o jovem que se tornou viral aos 16 anos com a série episódica no YouTube, realiza agora com apenas 20 anos este filme com o suporte técnico da A24. O resultado é surpreendentemente robusto e traz um elenco inspirado que conta com Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave) e Renate Reinsve (Sentimental Value).

O filme parte da estética youtubiana found footage de baixa resolução para colocar o espectador, na primeira pessoa, num espaço físico misterioso que se revela uma distorção da realidade baseada na memória. A partir daí, prolonga-se numa linguagem formal mais clássica. Embora o desenvolvimento dos protagonistas, terapeuta e paciente, assente no trauma, Parsons não parece interessado em fazer desta obra apenas “mais um produto do seu tempo”. Ou melhor: Backrooms é, sem dúvida, um produto do seu tempo, mas não por imperativos de temáticas contemporâneas ou mensagens. O filme está admiravelmente pouco interessado em ter uma voz com algo para dizer. Aqui prevalece a forma e a eficácia. É um filme físico e tangível, que apresenta o conceito de “dimensão paralela” de uma forma estranhamente realista, quase que demonstrável.

Numa narrativa magra mas eficaz, as personagens reconhecem a existência desta dimensão de corredores e espaços infinitos onde nada faz sentido. O filme move habilmente o espectador dentro dessa lógica absorvente, mantendo a frescura ao mudar várias vezes de perspectivas e lógicas narrativas, como se construísse cada novo capítulo a partir do ponto final do anterior, como se o filme fosse, realmente, composto por cenas autonomizáveis entre si. Cruzando o terror com a ficção científica, Parsons nunca dá um passo maior que a perna, preferindo a coesão ao susto fácil, ao fan service, e à aventura pela simples aventura.

Esta dimensão revela-se onírica, um sonho real, mas nunca pedante. A perseguição final, a descoberta omnipresente e a mise-en-scène que culmina ao colocar Reinsve e Ejiofor novamente à mesa, num cenário de distorção, confirmam que Backrooms funciona em todo o seu equilíbrio. O seu maior triunfo é precisamente o incrível equilibrismo que impede a estrutura de desmoronar. É uma agradável montanha-russa e, acima de tudo, o provável nascimento de um cineasta de género que sabe executar as suas ideias e que nem por ser jovem estará furos abaixo de um Oz Perkins ou outros realizadores de cinema de género norte americano do nosso tempo. Ainda é tudo muito embrionário, mas fica a curiosidade sobre como a percepção sobre o filme irá evoluir ao longo dos anos.

David Bernardino

 

Os recantos da memória são um reflexo dos nossos sonhos. Kane Parsons, um youtuber obcecado pela cultura de videojogos moderna tornado cineasta, realizou um filme que imagina a expressão material desse inconsciente de memórias. Pelo seu background, não é surpreendente que o faça. A sua série de curtas no YouTube materializava os fragmentos que ocupam o imaginário de alguém perante a enormidade do mundo virtual e das possibilidades que acarreta. A imensidão de informação de que dispomos hoje torna-nos cidadãos menos activos, menos politicamente conscientes e, sobretudo, mais sozinhos. Porventura, não haverá hoje melhor fórum para essa conclusão do que o mundo do gamer moderno. Parsons faz, de resto, parte de um número crescente de criadores visuais que fazem o seu tirocínio em plataformas de partilha pública de vídeos, como o YouTube. Mas o que torna Parsons especial ao ponto da sua primeira longa contar com representações de dois actores nomeados para Óscares? A sua intuição visual é provavelmente a melhor posta para começar a responder a essa pergunta. Backrooms recria uma realidade mais adjacente do que alternativa para a constituição da sua dimensão onírica. A construção que opera é deliberada é evidente, marcada por uma clareza de ideias que é incomum no cinema de terror mainstream de hoje. Nem tudo são rosas, ainda assim. O argumento é fino mas de escassa finura. Ainda assim, merece um olhar atento.

Backrooms é um filme que trabalha com admirável clareza em cima de uma premissa simples. Chiwetel Ejiofor é um homem quebrado pelo desmoronar do seu casamento. Posto fora de casa após uma noite de copos, guarda um rancor visceral à ex-mulher pela situação profissional em que se colocou. Refém de uma imensa loja de mobiliário que mais se assemelha a um esparso armazém, grava vídeos promocionais humilhantes onde finge ser um pirata que oferece descontos em sofás. A sua reflexão interior está a cargo da sua psiquiatra, interpretada por Renate Reinsve, também ela marcada pela ligação quebrada com a própria mãe, após o internamento desta por doença mental. Estas duas personagens partilham a essência dos seus próprios demónios de uma forma profundamente física e determinadamente deliberada. Nada aqui Parsons faz por tornar metafórico ou alusivo, como tem vindo a ser a marca de água do cinema de terror infelizmente apelidado de elevado. Esta caracterização directa da interioridade destas duas personagens responde a uma abordagem não necessariamente nova, mas que, para os padrões actuais, se revela, de facto, fresca.

À procura de se encontrar, Ejiofor vê os labirínticos caminhos escondidos na cave da sua loja-armazém desdobrarem-se em viragens sem destino, muros que se erguem sem propósito, objectos que surgem da profundeza do passado, e elementos que evocam algo sem se perceber bem o quê. Essa indefinição é, contudo, essencial para o colorir do seu inconsciente. Quando Reinsve aqui entra, primeiro como estranha e depois como investigadora em busca de um post mortem, acaba por recriar os labirintos da sua própria memória à imagem dos da de Ejiofor. Os melhores pontos de referência para Backrooms acabam por ser aqueles que colocam o seu próprio impressionismo como forma de representação interior das personagens que surgem no ecrã. A malaise suburbana de Reinsve e Ejiofor evoca anteriores explorações de Cronenberg e, especialmente, Lynch. Não é, de resto, por acaso que Backrooms tem lugar nos anos 90, e não será certamente apenas para possibilitar a utilização da camcorder em vez do telemóvel como instrumento de captação de imagens. Parsons denota, inclusivamente, um inabalável fascínio pelo lo-fi como forma de evocar indefinição. Há, contudo, uma linha ténue a separar indefinição de falta de clareza de visão, mas essa é uma fronteira que parece que Parsons terá margem para explorar na sua ainda embrionária carreira como cineasta.

Hugo Dinis