Backrooms é o primeiro filme do realizador de shorts no YouTube Kane Parsons. Após Obsession, de Curry Barker, os criadores online parecem estar a tornar-se uma parte inevitável da descoberta de talento em Hollywood. Contando com performances dos nomeados a óscares Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve, Backrooms é uma proposta que segue na linha visual do trabalho online de Parsons. Um homem descobre um portal na cave da sua loja de mobiliário que leva a um local onde tudo parece estar apenas ligeiramente fora do lugar. A sua psiquiatra acompanha o relato fantástico da sua descoberta e acaba por acompanhá-lo na descoberta deste estranho lugar. Ali, descobrirão parte do seu passado, dos seus sonhos e das suas memórias. A Tribuna acompanhou a estreia de Backrooms e avança com as respectivas críticas.
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Fazer um filme de terror, mistério e suspense acarreta a fragilidade inevitável de uma fórmula: uma vez desvendado o enigma, a recta final tende a desenrolar-se com uma agilidade que desfaz a atmosfera construída até então. Backrooms consegue a rara proeza de ser uma obra solidamente palpável, mantendo, ainda que por vezes de forma mais ténue, um equilíbrio firme do princípio ao fim. Kane Parsons, o jovem que se tornou viral aos 16 anos com a série episódica no YouTube, realiza agora com apenas 20 anos este filme com o suporte técnico da A24. O resultado é surpreendentemente robusto e traz um elenco inspirado que conta com Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave) e Renate Reinsve (Sentimental Value).
O filme parte da estética youtubiana found footage de baixa resolução para colocar o espectador, na primeira pessoa, num espaço físico misterioso que se revela uma distorção da realidade baseada na memória. A partir daí, prolonga-se numa linguagem formal mais clássica. Embora o desenvolvimento dos protagonistas, terapeuta e paciente, assente no trauma, Parsons não parece interessado em fazer desta obra apenas “mais um produto do seu tempo”. Ou melhor: Backrooms é, sem dúvida, um produto do seu tempo, mas não por imperativos de temáticas contemporâneas ou mensagens. O filme está admiravelmente pouco interessado em ter uma voz com algo para dizer. Aqui prevalece a forma e a eficácia. É um filme físico e tangível, que apresenta o conceito de “dimensão paralela” de uma forma estranhamente realista, quase que demonstrável.
Numa narrativa magra mas eficaz, as personagens reconhecem a existência desta dimensão de corredores e espaços infinitos onde nada faz sentido. O filme move habilmente o espectador dentro dessa lógica absorvente, mantendo a frescura ao mudar várias vezes de perspectivas e lógicas narrativas, como se construísse cada novo capítulo a partir do ponto final do anterior, como se o filme fosse, realmente, composto por cenas autonomizáveis entre si. Cruzando o terror com a ficção científica, Parsons nunca dá um passo maior que a perna, preferindo a coesão ao susto fácil, ao fan service, e à aventura pela simples aventura.
Esta dimensão revela-se onírica, um sonho real, mas nunca pedante. A perseguição final, a descoberta omnipresente e a mise-en-scène que culmina ao colocar Reinsve e Ejiofor novamente à mesa, num cenário de distorção, confirmam que Backrooms funciona em todo o seu equilíbrio. O seu maior triunfo é precisamente o incrível equilibrismo que impede a estrutura de desmoronar. É uma agradável montanha-russa e, acima de tudo, o provável nascimento de um cineasta de género que sabe executar as suas ideias e que nem por ser jovem estará furos abaixo de um Oz Perkins ou outros realizadores de cinema de género norte americano do nosso tempo. Ainda é tudo muito embrionário, mas fica a curiosidade sobre como a percepção sobre o filme irá evoluir ao longo dos anos.
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David Bernardino

Os recantos da memória são um reflexo dos nossos sonhos. Kane Parsons, um youtuber obcecado pela cultura de videojogos moderna tornado cineasta, realizou um filme que imagina a expressão material desse inconsciente de memórias. Pelo seu background, não é surpreendente que o faça. A sua série de curtas no YouTube materializava os fragmentos que ocupam o imaginário de alguém perante a enormidade do mundo virtual e das possibilidades que acarreta. A imensidão de informação de que dispomos hoje torna-nos cidadãos menos activos, menos politicamente conscientes e, sobretudo, mais sozinhos. Porventura, não haverá hoje melhor fórum para essa conclusão do que o mundo do gamer moderno. Parsons faz, de resto, parte de um número crescente de criadores visuais que fazem o seu tirocínio em plataformas de partilha pública de vídeos, como o YouTube. Mas o que torna Parsons especial ao ponto da sua primeira longa contar com representações de dois actores nomeados para Óscares? A sua intuição visual é provavelmente a melhor posta para começar a responder a essa pergunta. Backrooms recria uma realidade mais adjacente do que alternativa para a constituição da sua dimensão onírica. A construção que opera é deliberada é evidente, marcada por uma clareza de ideias que é incomum no cinema de terror mainstream de hoje. Nem tudo são rosas, ainda assim. O argumento é fino mas de escassa finura. Ainda assim, merece um olhar atento.
Backrooms é um filme que trabalha com admirável clareza em cima de uma premissa simples. Chiwetel Ejiofor é um homem quebrado pelo desmoronar do seu casamento. Posto fora de casa após uma noite de copos, guarda um rancor visceral à ex-mulher pela situação profissional em que se colocou. Refém de uma imensa loja de mobiliário que mais se assemelha a um esparso armazém, grava vídeos promocionais humilhantes onde finge ser um pirata que oferece descontos em sofás. A sua reflexão interior está a cargo da sua psiquiatra, interpretada por Renate Reinsve, também ela marcada pela ligação quebrada com a própria mãe, após o internamento desta por doença mental. Estas duas personagens partilham a essência dos seus próprios demónios de uma forma profundamente física e determinadamente deliberada. Nada aqui Parsons faz por tornar metafórico ou alusivo, como tem vindo a ser a marca de água do cinema de terror infelizmente apelidado de elevado. Esta caracterização directa da interioridade destas duas personagens responde a uma abordagem não necessariamente nova, mas que, para os padrões actuais, se revela, de facto, fresca.
À procura de se encontrar, Ejiofor vê os labirínticos caminhos escondidos na cave da sua loja-armazém desdobrarem-se em viragens sem destino, muros que se erguem sem propósito, objectos que surgem da profundeza do passado, e elementos que evocam algo sem se perceber bem o quê. Essa indefinição é, contudo, essencial para o colorir do seu inconsciente. Quando Reinsve aqui entra, primeiro como estranha e depois como investigadora em busca de um post mortem, acaba por recriar os labirintos da sua própria memória à imagem dos da de Ejiofor. Os melhores pontos de referência para Backrooms acabam por ser aqueles que colocam o seu próprio impressionismo como forma de representação interior das personagens que surgem no ecrã. A malaise suburbana de Reinsve e Ejiofor evoca anteriores explorações de Cronenberg e, especialmente, Lynch. Não é, de resto, por acaso que Backrooms tem lugar nos anos 90, e não será certamente apenas para possibilitar a utilização da camcorder em vez do telemóvel como instrumento de captação de imagens. Parsons denota, inclusivamente, um inabalável fascínio pelo lo-fi como forma de evocar indefinição. Há, contudo, uma linha ténue a separar indefinição de falta de clareza de visão, mas essa é uma fronteira que parece que Parsons terá margem para explorar na sua ainda embrionária carreira como cineasta.
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