A 29 de janeiro de 2024, Hind Rajab, criança palestiniana de seis anos, foi assassinada pelo exército israelita na Faixa de Gaza. A sua história tornou-se conhecida em todo o mundo após a divulgação, pelo Crescente Vermelho, das gravações da sua voz. Hind permaneceu cerca de três horas ao telefone com a organização humanitária, presa num carro onde se encontravam os corpos de vários familiares, enquanto aguardava socorro que nunca chegou.
“A Voz de Hind Rajab” (صوت هند رجب / “The Voice of Hind Rajab“), de Kaouther Ben Hania, distinguido com o Leão de Prata na Mostra de Veneza de 2025, procura perpetuar a memória desta tragédia ao encenar as últimas horas de vida da criança a partir do outro lado da linha – o dos socorristas do Crescente Vermelho, confrontados com a sua impotência perante uma impossibilidade de resgate. Um filme que tem gerado polémica a par da aclamação internacional. Cinco críticas da Tribuna.

Em setembro de 2025, por alguns momentos, este foi o filme que parecia talhado para a consagração máxima no Festival de Veneza. A Voz de Hind Rajab, da tunisina Kaouther Ben Hania, não tinha concorrente à altura do dramatismo com que escancarou, em ecrã gigante, a dimensão da violência e crueldade na Faixa de Gaza. O Leão de Ouro parecia feito à medida do filme que, no entanto, acabaria por ser ultrapassado por Pai Mãe Irmão Irmã, de Jim Jarmusch. Recebeu o Grande Prémio do Júri, o segundo mais importante do palmarés, e ficou também evidente o desconforto com que lidamos com o infindável conflito no Médio Oriente.
A Voz de Hind Rajab é um filme feito a partir de um elemento real. Uma gravação automática de uma chamada telefónica feita para os escritórios da organização Crescente Vermelho, na Cisjordânia, na qual uma criança de 6 anos pede ajuda, depois do carro em que seguia com familiares ter sido atingido pelas forças israelitas. A criança, diz que os restantes ocupantes do veículo parecem estar a dormir depois do ataque (sabemos que não estão) e pede que a venham buscar. A partir deste elemento real — a gravação foi partilhada nas redes sociais, pela Crescente Vermelho, na altura do incidente, em 2024 — Kaouther Ben Hania reconstrói e encena com os atores o drama dos funcionários da organização nas horas seguintes ao pedido de ajuda e os esforços para contornar toda a burocracia e socorrer a criança. Ficamos a perceber, por exemplo, que o trajeto até ao carro bombardeado demora 8 minutos, mas tem de ser aprovado pelos militares israelitas, os mesmos que atacaram a viatura.
O filme nunca sai dos gabinetes da Crescente Vermelho, não se desloca para o terreno dos atacantes e das vítimas. Não há uma imagem de guerra, sangue, destruição ou sofrimento. Mas, através da voz da pequena Hind Rajab, somos convidados a refletir sobre tudo o que está implícito naquele pedido de ajuda e somos confrontados com o lugar de expectadores, não tanto na sala de cinema, mas numa espécie de plateia coletiva que assiste ao infindável ciclo de violência na Faixa de Gaza.
O debate sobre os limites morais daquilo que pode ou não ser ficcionado é compreensível, mas é também uma discussão alargada sobre os limites morais da nossa passividade e sobre o dever de não esquecer as vítimas de um conflito. Há menos oportunismo, do que sentido de oportunidade, no trabalho de Ben Hania, que nunca cede à tentação de usar a guerra e as suas consequências, como ferramenta estética. Mesmo que, em alguns momentos, os dispositivos dramáticos sejam demasiado evidentes no elenco que interpreta os funcionários da Crescente Vermelho, talvez seja demasiado redutor tentar analisar, ou limitar, o filme a uma apreciação artística.
A Voz de Hind Rajab é um trabalho de reconstituição, próximo de um documentário, mas sem nunca deixar de ser uma ficção. O mecanismo é semelhante ao que a realizadora Kaouther Ben Hania experimentou no filme anterior, As Quatro Filhas de Olfa, no qual juntou atrizes e não atrizes e mostrou o processo de bastidores de um filme feito a partir do relato de uma mãe que perdeu duas filhas que deixaram a família para integrar o Daesh. Nos dois casos, Ben Hania usa o cinema como instrumento de materialização de dramas reais e esbate a fronteira entre géneros. As Quatro Filhas de Olfa foi candidato ao Óscar de melhor documentário em 2024. Antes disso, em 2021, Kaouther Ben Hania já tinha integrado a lista de nomeados para melhor filme internacional, com O Homem Que Vendeu a Sua Pele. Este ano, a realizadora tunisina volta à cerimónia em Los Angeles, com A Voz de Hind Rajab, que está entre os candidatos a melhor filme internacional, categoria onde concorre com O Agente Secreto, do brasileiro Kleber Mendonça Filho.
No Festival de Veneza, em 2025, A Voz de Hind Rajab ficou relegado para segundo plano, ao receber o Grande Prémio do Júri, em vez de sair consagrado com o Leão de Ouro. Resta esperar pelos Óscares e acreditar que ainda possa ser feita justiça.
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Lara Marques Pereira

Há um momento em “The Voice of Hind Rajab” em que o filme se apercebe da sua própria futilidade. Seguindo a luta dos socorristas pelo auxílio das vítimas da matança da família da jovem Hind Rajab, o desespero de uma das figuras de chefia leva a proceder à colocação de ficheiros audiovisuais nas redes sociais para provocar uma reacção social capaz de mobilizar a possibilidade de socorro. Perante essa perspectiva, um dos respondentes, frustrado pelo abandono da criança às armas israelitas, desabafa que Hind precisa de uma ambulância e não de um post numa qualquer rede social. “The Voice of Hind Rajab” é, para todos os efeitos, uma extensão desse post. Transformar a matança metódica e calculada de um povo utilizando a própria voz da vítima numa peça de tensão cinematográfica é uma forma de colocar a câmara ao serviço da causa, mas também de explorar uma curiosidade escatológica ao serviço de um reality show do genocídio. “The Voice of Hind Rajab“, conforme até explicitado no seu título, utiliza a voz das repetidas chamadas de socorro da menina de 6 anos para o Crescente Vermelho. Há um impacto comunicacional inegável de o fazer: os pedidos de socorro são insistentes, desesperados, urgentes, e profundamente difíceis de ouvir. É por isso que os devíamos ouvir, de facto. A implicação ética de transformar esta voz desesperada em cinema de suspense para públicos de festivais de cinema europeus, a salvo dos horrores do genocídio, é devastadora, ainda assim. “The Voice of Hind Rajab” é um filme snuff que retrata e muitas vezes sangra da dramatização para a realidade e vice versa. Este é um filme que não deixa a ficção respirar por detrás da realidade que tenta retratar em momento algum. O impacto no espectador só pode ser devastador. Mas ao passo que nos sensibilizamos com a sua mensagem, também nos desligamos da coreografia mórbida que um conjunto de actores está a fazer em permanência em torno das repetidas chamadas reais de Hind para os serviços de socorro do Crescente Vermelho.
Será possível acompanhar a mecânica dos desentendimentos entre a linha da frente representada pelos socorristas que comunicam com Hind pelo telefone e a responsabilidade detida pelo seu supervisor na procura de evitar que as vidas dos seus paramédicos sejam colocadas em risco quando a voz de uma menina de 6 anos brutalmente assassinada por um regime genocida nos convoca insistentemente para a sua condição de impotência desesperada? A realizadora Kaouther Ben Hania requer das suas audiências uma resposta emocional em tudo similar àquela que é demonstrada pelos socorristas. É inútil responder a “The Voice of Hind Rajab” como se de um qualquer filme de circuito de festival se tratasse, ainda que obviamente o seja. Seria como procurar quantificar ou qualificar uma tragédia. Há uma distância irreparável entre aquilo que é a intenção de “The Voice of Hind Rajab” enquanto peça de arte, seja mobilizar, sensibilizar ou até chocar, e a sua utilidade no mundo real. Hind, de facto, precisava de uma ambulância e não de posts em redes sociais ou filmes a baterem o circuito dos festivais europeus. Na mistura entre o verdadeiro e o urgente com o falso e o coreografado reside um cariz oco ao qual é impossível escapar neste filme. Uma diluição do impacto dos acontecimentos ao mesmo tempo que os expõe da forma mais crua possível.
Hugo Dinis

Em setembro passado, Jim Jarmusch saiu do Festival de Veneza com o Leão de Ouro na mão, mas por certo não ficará para a História o seu Father Mother Sister Brother, um filme ligeiro e perfeitamente esquecível. Não é o caso de outro estreante em Veneza, The Voice of Hind Rajab, uma obra dilacerante, enfurecedora e infelizmente atual. Nela, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania mostra-se eficaz na forma como simultaneamente dramatiza os acontecimentos verídicos e incorpora gravações e filmagens reais. Um cruzamento entre a ficção e o documentário, que usa o primeiro para exaltar o segundo. Para nos fazer perceber que a encenação a que assistimos não foi embelezada para efeitos dramáticos. Para nos relembrar que atrocidades como esta e outras acontecem diariamente e saem impunes – por vezes até celebradas.
Tenho dificuldade em compreender a principal crítica que The Voice of Hind Rajab tem recebido — que transforma o genocídio num reality show para os espectadores dos festivais de cinema consumirem. É uma postura tão moralista e de má-fé em relação a um filme urgente, cujo objetivo primordial é o de sensibilizar para os horrores que Israel continua a perpetrar na Palestina. Se isso incomoda, diz mais sobre o espectador do que sobre o filme.
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Pedro Barriga

O cinema não é suficiente. Nada é, tal é a enormidade da ignomínia. Hind, Hanood, tinha seis anos e gostava do mar. É o mar que ouvimos nos primeiros instantes, nas ondas acústicas de uma chamada tão aterrorizante que só podia ser real, porque nenhum ficcionista se atreveria a inventá-la. Esse conhecimento prévio, e o staccato das notas iniciais remetem-nos para o que aí vem: não um documentário ou um drama baseado em factos reais, mas sobretudo um filme de terror inevitável.
Há aqui fundamentalmente dois campos paralelos – dois filmes, se quisermos: a ficção reconstitutiva, um escritório e quatro personagens numa encenação simples, próxima até do teatro; e o plano do real, demasiado real, os áudios de uma menina em desespero a pedir que a salvem. A interação destes dois campos é limitada, longe da elegância formal com que Kaouther Ben Hania esbatia as fronteiras entre documentário e ficção em Quatro Filhas. Ainda assim, o efeito no espectador persiste: tal como as personagens ficcionadas, queremos salvar Hind. Como não?
O uso das gravações das chamadas com o Crescente Vermelho da Palestina não pode se não causar trepidação, compreensível, em quem na escolha apenas é capaz de ver uma exploração cruel da miséria humana. Não creio que seja esse o intuito (pelo menos não da realizadora; o rol de executive producers de Hollywood já é outra coisa). Somos lembrados, e relembrados, de que uma ambulância se encontra a apenas 8 minutos de Hind. Oito minutos, mas um oceano de burocracia e armas que matam indiscriminadamente, de um genocídio sem nome que aproveita o chorrilho mediático em que vivemos e que nos dessensibiliza e entorpece a capacidade de o reconhecermos.
Enquanto isso, a guerra continua, as Hanoods continuam a morrer e os responsáveis seguem impunes, mesmo perante os nossos protestos. Perante isto, o refúgio na arte como forma de dar sentido à tragédia pode fazer sentido, mas Hind Rajab (o filme), parece não estar convencido disso – daí também a decisão de enquadrar a história através dos telefonistas, subjugados por regras e escolhas impossíveis e cuja a história é precisamente a de serem confrontados diariamente com os seus limites. Reduz-nos a nós, e a si mesmo, à sua e à nossa incapacidade em mudar as coisas. A Voz de Hind Rajab é, sobretudo, um filme sobre a sua própria impotência.
André Filipe Antunes

Como segurar uma vida suspensa por uma linha telefónica? É nesta premissa que assenta A Voz de Hind Rajab. Uma menina palestiniana de cinco anos está sozinha num carro, rodeada de cadáveres, em plena Faixa de Gaza. Consegue manter-se em linha com uma equipa de socorristas que tenta desesperadamente salvá-la, mas o processo é complexo e é necessário passar por um labiríntico circuito de aprovações para que uma ambulância a possa resgatar em segurança.
É agonizante assistir ao sofrimento da criança, às súplicas para que a venham salvar, à ridícula distância que a separa de um hospital e, ainda assim, à impossibilidade de um gesto humanitário aparentemente tão simples. É claro que fazemos uma leitura política desta história mas, mais do que um manifesto, à distância da nossa realidade, só nos ocorre perguntar: porquê tudo isto, em nome de quê?
A temática é tão poderosa que se torna difícil avaliar o filme de forma isenta. A verdade é que, se ficamos indignados com as aberrações a que assistimos, incapazes de interceder, também é verdade que o filme acaba por cair numa repetição de uma situação que se vai agudizando sem, contudo, que a intensidade ganhe verdadeira densidade. A tensão está lá desde o primeiro minuto, mas falta uma estrutura mais sólida, um olhar que faça desta história mais do que um grito e a transforme em cinema maior.
Os dilemas são expostos, os riscos são verbalizados, e instala-se uma certa repetição no registo: a espera pelas aprovações, o desespero dos socorristas, a voz suplicante da menina em linha. Falta, de certa forma, aquela camada invisível, a zona cinzenta, o espaço para o espetador habitar o que fica nas entrelinhas. É nessa ausência que sentimos o limite do filme.
As gravações são reais e isso basta para nos abalar. Mas não basta para fazer um grande filme. Talvez um documentário pudesse explorar de forma mais profunda as frustrações de quem lida com estes resgates num cenário de guerra, dar mais contexto, compreender melhor o que vai na alma destas pessoas que se recusam a aceitar que estes horrores sejam o novo normal. Talvez esta fosse, afinal, uma história que pedisse mais escuta do que dramatização, abrindo mais espaço às vozes que aqui permanecem como eco.
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Ana Matos



