Críticas a A Traveler’s Needs, de Hong Sang-soo

EquipaAgosto 8, 2025

Depois de vencer o Leão de Prata no Festival de Berlim 2024 e ter mais tarde integrado a Secção Silvestre do Indielisboa 2024, estreia agora nas salas de cinema nacionais A Traveler’s Needs (“As Aventuras de uma Viajante na Coreia do Sul“), o mais recente filme de Hong Sang-soo. O mais recente se não contarmos com os outros dois filmes entretanto já lançados pelo cineasta sul-coreano, mas ninguém disse que era fácil acompanhar o seu prolífico ritmo, as distribuidoras portuguesas que o digam. A Traveler’s Needs marca a terceira colaboração entre Hong e Isabelle Huppert, que volta a ser protagonista, como fora em In Another Country (2013) e La Caméra de Claire (2017). A presença da atriz francesa transmite uma peculiar aura ao já de si idiossincrático universo sang-sooniano. Miguel Allen e Laura Mendes debruçam-se sobre aquele que é mais um passo na depuração do cinema de Hong Sang-soo, onde a leveza da narrativa e os subtis laivos humorísticos camuflam a relevância do gesto cinematográfico de um dos grandes autores contemporâneos.

 

 

Esse estranho e perfeito casamento do cinema de Hong com Isabelle Huppert. Um corpo estrangeiro que nos enfeitiça, misterioso e solarengo, que parece sempre perturbar a vida interior dos seus filmes. Mais do que um desnorte causado por uma (parca) tradução, como acontecia em In Another CountryA Traveler’s Needs evoca um certo querer se perder por palavras que desconhecemos, por novos sentidos fonéticos, quiçá mais sinceros ou musicais, que possam nascer do mistério que é uma língua que não dominamos. Aqui, também a figura de Huppert brilha dessa essência, desse segredo, pelo seu devaneio no presente, sempre resistindo a qualquer tentação de “cair” na memória, sem se deixar cegar por aquilo “que não é verdadeiro”. Bem-humorado, um filme que parece adorar as nossas diferenças. Inteligente nas suas rimas (nos seus motivos musicais) e preciosamente parco no contexto da sua narrativa (o melhor exemplo sendo tudo o que é sugerido no terceiro capítulo, entre Iris, In-guk, e a sua mãe). E uma última cena, que abre com o magnífico grande plano de Huppert adormecida na rocha, sobre um grande fundo verde, verdadeiramente essencial: “do you still love me?… as a friend?“. Afinal, isto não será mesmo mais do que simples encontros, em torno de uns copos de makgeolli. De um cinema que consegue existir quase “só por si”, fora de qualquer quadro contemporâneo. Um exercício tão concentrado no seu próprio processo, que tanto vive da fragilidade das suas imagens, como dos maravilhosos mistérios que coloca… em primeiro plano.

Miguel Allen

 

A imagem é simples, natural, contida até, transparece ocasionalmente um brilho que não ofusca: num terraço surpreendentemente verde ou num riacho que é necessário atravessar. Assim o são também as pessoas que habitam este mundo cuja força gravitacional é Iris, uma etérea tradutora de sentimentos e sensibilidades. Sendo mais do que uma matéria desconhecida, porém cativante, que vagueia entre lugares(-comuns) para os escrutinar e desafiar, Iris opera a magia da linguagem – evidencia as suas fragilidades, a (in)capacidade expressiva, a profundeza existencial que esconde, ou mascara. Parece central o vínculo que A Traveler´s Needs cria entre linguagem e individualidade, manifesto nas palavras em eco, proferindo banalidades, que almejam ser algo mais, um espelho da alma presente.

Com laivos de Memoria, de Apichatpong Weerasethakul, remexe curiosamente a ideia do passeio e do encontro como busca pela história, memória e emoções pessoais – bem como coletivas, como o mostra a aparição do famoso poeta morto, tão novo, numa prisão japonesa –, entre realidades de pais ausentes e sonhos de afeto desejado. É de notar que esta exposta descoberta pertence apenas aos interlocutores de Iris – somos deixados à porta da sua vida, dela nada sabemos, uma figura tão mística como segura, que transmite a plenitude da constante aprendizagem e do amadurecimento em expansão, funcionando como uma guia, também ela experimentando(-se).

A universalidade das amarras que constrangem a comunicação e a imperfeição desta última são veículos para encantadoras metamorfoses, conseguidas seguindo caminhos espontâneos que vão sempre dar à poesia camufladamente inscrita em pedra – uma inscrição que é mutável, pronta a ser duplamente traduzida, pois não é a própria poesia uma tentativa de contrariar a rigidez, embaraço e mercantilização da palavra? Quando a língua nativa parece só querer falar de burocracias, entreguemo-nos à aventura do estrangeiro, cheio de enigmas por desvendar, de onde nasce o amor – tal qual este filme.

Laura Mendes