Críticas a A House of Dynamite, de Kathryn Bigelow

EquipaNovembro 12, 2025

Um míssil nuclear, de proveniência desconhecida, é detectado no espaço aéreo do Pacífico e dirige-se contra os Estados Unidos. A House of Dynamite assinala o regresso à realização de Kathryn Bigelow, oito anos depois de Detroit (2007), numa produção da Netflix. Um novo ensaio da realizadora norte-americana em cinema “bélico”, o filme coloca-se perante um cenário hipotético, alimentado pelo clima de guerra que assombra o mundo actual, restituindo o imaginário de um cinema de “Guerra Fria”. Nele, três personagens em corrida contra o tempo tentarão reagir a uma ameaça cada vez mais iminente. Hugo Dinis e Miguel Allen assinam as críticas.

 

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Top Gun: Maverick (Kosinski, 2022) veio introduzir a ideia de cinema de guerra pretensamente apolítico. Um grupo de pilotos juntam-se para rebentar com uma ameaça nebulosa num país qualquer sem nome. Em última análise, acaba por não interessar porque Maverick constrói cenas de acção com uma intencionalidade e uma urgência impressionantes. A House of Dynamite pretende fazer, não um filme de acção, mas um thriller de sala de guerra a lidar com uma ameaça nuclear similarmente incerta. A diferença está, pois, na apresentação de ambos os filmes. Dynamite coloca Kathryn Bigelow no mesmo caminho deificador da indústria militar americana que já percorre desde o Óscar para The Hurt Locker. O seu centrismo, apresentado como apolítico, não podia ser mais insidioso. Ao apresentar os Estados Unidos como uma vítima indefesa do actual contexto geopolítico, Bigelow convoca uma visão global em torno do fim dos tempos. Os bárbaros estão às portas e a civilização acaba. Bigelow propõe uma chamber piece dedicada à tensão do impacto e não aos mecanismos políticos que aí nos levaram, uma versão de Fail Safe de Lumet sem a carga política.

Não obstante, nem aqui Bigelow consegue extrair qualquer tipo de interesse narrativo de Dynamite. O filme encontra-se estruturado de acordo com a apresentação multipolar do ataque nuclear à cidade de Chicago, mas o efeito prático acaba por ser um conjunto amontoado de cenas com pessoas a falarem para telefones de forma crescentemente preocupada. Não existe, para Bigelow, qualquer tipo de defesa eficaz americana perante a perspectiva de ataque e os mecanismos de defesa são hilariantemente pífios. Essa não é a tese central de Bigelow, mas apenas o fruto da mesma mundividência de Zero Dark Thirty ou The Hurt Locker. A gesticulação apolítica não serve de nada a Dynamite e até contribui para limitar os focos de tensão. Resta, pois, a adrenalina em torno de uma preparação de impacto que sabemos ser inevitável e retira níveis à parada da trama. A estruturação múltipla da acção, mudando de perspectiva consoante as personagens focadas, é um falhanço completo: ninguém aqui tem nada a acrescentar ao que está em jogo nem ao que se desenrola a caminho de lá. As escolhas visuais, marcadas por um registo de câmara handheld a sinalizar o realismo natural de outros títulos de Bigelow, também são prova da futilidade do exercício. Outrora, Bigelow seria capaz de extrair daqui algum tipo de tensão narrativa dos esforços individuais das suas personagens, mas esta acção é fundamentalmente inerte na sua execução. Pouco ou nada podemos dizer da liderança da líder de estação dos serviços de informação de Rebecca Ferguson ou do exercício do dever militar por parte do general Tracy Letts. Os intervenientes são meros figurantes e as suas deixas supérfluas. Um tiro ao lado.

Hugo Dinis

 

Para um exercício tão focado numa noção de urgência, A House of Dynamite revela-se particularmente competente em sabotar o seu próprio conceito. Por muito que haja aqui uma ideia clara a tratar, a insistente mecânica de repetição do filme faz com que tudo acabe por roçar o supérfluo. É evidente que qualquer espectador compreenderá o discurso que orienta a narrativa desde os primeiros instantes (quanto mais pelo próprio título), mas em House of Dynamite, quanto mais Bigelow nos mostra, menos parece saber o que dizer. Se, em 2025, a ideia de um filme sobre uma grande América sob o ataque de forças estrangeiras nos pode parecer desadequada (pelo menos vinte anos fora de tempo) ou eticamente duvidosa, Bigelow faz, ainda assim, um bom trabalho ao retratar os pecados dos Estados Unidos enquanto potência democrática under fire. Trata-se aqui de senhores da guerra, num campo onde o exercício dos grandes decisores se reduz a carregar em botões implacáveis, enquanto rodeados por ecrãs e telefones que filtram a realidade dos eventos. Dito isto, Bigelow jamais consegue justificar o propósito das três perspectivas sucessivas que o filme trabalha – nem, consequentemente, a sua duração. Pior ainda, como que espelhando a fadiga que se instala no próprio espectador, o filme avança perdendo progressivamente o seu impulso criativo, apoiando-se num conjunto de personagens cuja amplitude emocional oscila incessantemente em função da estrutura da própria obra.

Tudo o que teremos de positivo para dizer sobre A House of Dynamite concentra-se, então, no seu primeiro terço – não só o melhor, e de longe, mas o único realmente relevante. A montagem epiléptica de planos maioritariamente desconexos talvez denuncie um esforço excessivamente evidente em mimetizar a televisão “em directo”, mas esse formalismo, embora muito incómodo (e um tanto grosseiro), confere ao filme o pulsar de que necessita. O objecto final situa-se algures entre uma interessante experiência de histeria em fotografia digital e conteúdo de streaming medíocre e formalmente redutivo – ainda que, nesses primeiros quarenta minutos, nunca sem o seu impacto. À medida que avançamos pela segunda e terceira parte, a inquietude inicial dará porém lugar a uma impaciência que redunda no cansaço de uma obra afinal sem quaisquer respostas para as perguntas que, de início, colocara. E, como sucede com tantos outros conteúdos de streaming (produzidos nomeadamente por este seu main offender) este será um filme tanto mais redundante quanto mais incisivo tenta ser.

Miguel Allen